Caso Delmo: o crime mais famoso de Manaus

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Num fatídico 05 de fevereiro de 1952, um jovem, acusado de assassinato, torna-se, em menos de uma semana, de algoz a vítima. Assim foi o Caso Delmo, o crime mais famoso de Manaus do escritor Durango Duarte, cujos fatos desencadeados por aqueles sinistros acontecimentos, que marcaram a vida de uma Manaus pacata dos anos 50, têm as suas mais vivas nuances descritas neste livro através das manchetes e notícias dos jornais impressos.

Durango Duarte conta no livro que: “Por alguns meses, o “Caso Delmo” estampou as capas de quase todas as edições dos jornais da empresa Archer Pinto, capas estas das quais tivemos o cuidado de selecionar as mais impactantes para reproduzi-las aqui. Ao todo, foram transcritas, aproximadamente, 200 matérias de O Jornal e do Diário da Tarde, do assalto à Serraria Pereira até ao julgamento final dos envolvidos na morte de Delmo.

Linhas e linhas de informação que transmitem ao leitor a sensação de estarem vivenciando os fatos ocorridos, e que fizemos questão de trazer tudo quase que ipsis litteris para este livro, com o objetivo de que você também se sinta naquela Manaus, acompanhando diariamente aqueles crimes ocorridos no inicio da década de 1950.

O assassinato de Delmo Campelo Pereira ocorreu na então estrada velha de São Raimundo, proximidades do famoso batuque de Joana Galante. Oriundo de família de boa condição financeira para a época, Delmo era réu confesso do assalto à Serraria Pereira — de propriedade de seu pai —, da agressão a Antônio Firmino da Silva, vigia da serraria, e do homicídio do chofer (taxista) José Honório Alves da Costa, crimes cometidos na madrugada de 30 para 31 de janeiro daquele ano.

Entretanto, mesmo ao avocar para si toda a responsabilidade pelos delitos perpetrados naquela madrugada, o jovem, em seus vários depoimentos, entrou em contradição por diversas vezes, uma hora, insinuando a presença de cúmplices, e noutra, confessando ser o único e exclusivo autor. E, como num roteiro de um filme, chegou-se até ao ponto de submeter Delmo a um tal “soro da verdade”, o qual faria com que o jovem revelasse tudo sobre o crime. Não é incrível esta história?

Não se sabe ao certo os motivos de tantas incoerências em seu discurso: se orientação de sua família e advogados, se para proteção de possíveis comparsas ou, apenas, tudo fruto de uma mente confusa. Delmo levou consigo muitas respostas.

Talvez, se Delmo Pereira tivesse confessado o nome de seus cúmplices à Polícia, teria tido um destino melhor. Quem sabe, se não tivesse cansado a todos com seus muitos depoimentos contraditórios, fosse poupado dos flagelos a que foi submetido. Entretanto, nada justifica a pena de morte que lhe foi imposta pelos choferes e, como consequência, este foi o seu ocaso: Delmo foi levado por uma turba de choferes enfurecida que queriam, a qualquer custo, que o jovem dissesse quem eram os seus companheiros nos crimes (ao menos, foi isso que alguns destes profissionais disseram à época, maneira velada, quem sabe, de justificar uma vendeta).

O enterro de Delmo Campelo Pereira foi um evento que movimentou a cidade. A comoção popular transformou em mártir aquele que, dias antes, quando do homicídio do chofer José Honório, era chamado de frio, covarde e anormal. O mesmo que, nas manchetes de jornais, fora estampado como o autor de um um monstruoso crime, agora, morto, era apresentado como a vítima de um espetáculo mais horrendo ainda.

A mobilização de parte da sociedade organizada, sobretudo das entidades estudantis, foi preponderante para que providências fossem tomadas. Os estudantes chegaram a angariar fundos para trazerem a Manaus um renomado advogado, o carioca Celso Nascimento, que veio para auxiliar a Promotoria Pública.

A pressão popular foi tanta que o então governador Álvaro Maia teve que mudar toda a cúpula da Central de Polícia, instituição que carregou a marca de ser inoperante e conivente com o assassínio de Delmo Pereira, em razão de uma certa morosidade na condução das investigações dos crimes cometidos pelo estudante e por uma possível facilitação no sequestro de Delmo para a sua morte (alguma semelhança com os dias de hoje é mera coincidência).

Choferes foram presos às dezenas, muitas testemunhas foram arroladas, depoimentos, acareações. A sociedade exigia a punição dos culpados pelo massacre do estudante. Dos, aproximadamente, 60 suspeitos iniciais, mais de 40 foram levados à Penitenciária Central, na avenida Sete de Setembro, aguardando o fim das investigações e a sentença de pronúncia.

O interessante é que, mesmo ainda em pleno processo de averiguação, era comum encontrar nas notícias dos jornais a “imparcialidade” de parte da imprensa, que já tachava todos como “assassinos e mentirosos” ou “perversos matadores” (mais uma vez, o passado e o presente se assemelham).

Ao final, entre um caso de suicídio, um de loucura, uma fuga cinematográfica e vários suspeitos impronunciados, 28 pessoas foram ao banco dos réus pelo assassinato do jovem. São eles, em ordem alfabética e com seus respectivos pseudônimos, quando haviam: Antônio Vicente de Araújo (Puxa-Faca), Aurino do Espírito Santo Silva (Santo-Pobre), Benori Alencar Linhares, Carlos Gomes Farias, Francisco de Souza Marques (X-9), Francisco Felismino da Silva (Nêgo-Chico), Francisco Ribeiro dos Santos (Toba-de-Vaca), Guilherme Monteiro da Silva, Helvídio Alves de Oliveira, João Brito Teixeira (Pirulito), João Hipólito Bulhões, João Jovino Borges (João Fresquinho), Joaquim Vieira da Mota (Joaquim Mecânico), Jorge de Souza, José Cesário de Oliveira, Ludgero Sarmento (Carioca), Luiz Albano da Costa, Luiz Azevedo da Silva (Luiz-Mal-de-Vida), Manuel Rodrigues Cruz, Mário Ribeiro de Souza (Mário Trezentos), Newton Almeida Palmeira, Orlando Marreiro Lúcio, Pedro Gomes de Souza (Mala-Velha), Pedro Paulo de Farias (Pedronho), Sebastião da Silva Pardo (Sabazinho), Severino Gabriel da Silva (Tambaqui), Silas de Araújo e Vicente Gonçalves de Alencar.

Na grande maioria dos casos, a defesa dos choferes ficou a cargo dos Drs. Manuel José Machado Barbuda, Raimundo Nonato de Castro e Milton Augusto Asensi, à exceção de três acusados: Carlos Gomes Farias — cujos patronos foram os Drs. Adriano Queiroz e Demóstenes Amazonas de Stefano – e os réus Francisco de Souza Marques, vulgo “)(-9”, e Vicente Gonçalves de Alencar, defendidos pelos Drs. Ligier Herculano Barroso e Rodolfo Martins Filho.

A acusação foi realizada, em todos os julgamentos, pelo promotor de Justiça, Domingos Alves Pereira de Queiroz. O auxílio luxuoso do criminalista Celso Nascimento à Promotoria Pública só aconteceria a partir da 9.a sessão da primeira reunião do Tribunal do Júri em 1953, ocorrida no dia 12 de fevereiro daquele ano. Neste momento, 16 choferes (contando com o julgamento de “Puxa-Faca”, que ocorrera três meses antes) já haviam sido julgados, sendo que a bancada de defesa levava vantagem sobre a acusação: nove absolvidos contra sete condenados.

Curiosamente, a partir da estreia de Celso Nascimento na tribuna do centenário Palácio da Justiça Clóvis Bevilácqua (hoje, um centro cultural), a promotoria conseguiu lograr êxito nos 12 julgamentos restantes, virando o placar para 19 condenações contra as nove absolvições obtidas pela defesa. Entre estes últimos que foram condenados, estavam os quatro considerados pela imprensa como “os ‘cabeças’ da chacina”: “Pirulito”, “Carioca”, “Santo-Pobre” e “Luiz-Mal-de-Vida”.

Na história do “Caso Delmo”, vale se ressaltar ainda a presença de outros nomes do mundo jurídico amazonense (entre desembargadores, juízes, promotores etc.): Armando de Queiroz Teixeira, Arnoldo Carpinteiro Péres, Arthur Gabriel Gonçalves, Azarias Menescal de Vasconcelos, Ernesto Roessing, Francisco da Rocha Carvalho, Leôncio de Salignac e Souza, Mário de Mello Bittencourt, Oyama César Ituassú da Silva e Theotônio Martins Coimbra.

Também é válido se destacar os nomes das pessoas que foram selecionadas para compor o Conselho de Sentença dos julgamentos: Abdon Nicolau Azaro, Afonso Celso Maranhão Nina, Antônio José Krichanã da Silva, Alberi Andrade Menezes, Alísio Chaves Ribeiro, Aristeu Campos, Arnóbio Peixoto Valente, Artur Alvarez, Artur César Meireles Pucú, Artur Cruz e Silva, Augusto Alves da Silva, Benjamin Couto Ramos, Erasmo Lino Alfaia, Eros Pereira da Silva, Eurípedes Ferreira Lins, Evaristo Meireles Pucú, Fortunato Siqueira, Francisco Xavier de Albuquerque, Heitor Nery Cabral, Hélio Wilson Tavares, Hely Paixão, Hernani Aguiar, Humberto Bianco, Irisaldo Godot, Jackson de Souza Lima, Jason Stone Martins, João Batista Cruz e Silva, João Pires de Carvalho, João Torres, Joaquim Donato Lopes, José Gabriel Pinto, Jurandir Batista de Sales, Leôncio de Souza Martins, Lourenço Farias de Melo, Lourival Coelho Santana, Manuel Moura Costa, Mário Barros, Mário Fortes Xavier, Murilo Rayol dos Santos, Nerino Polard, Nestor da Costa Ferreira, Orlandino Bacelar, Osvaldo Antunes, Osvaldo Oliveira Soares, Otávio Hamilton Mourão, Paulo de Melo Rezende, Petrônio Pinheiro, Raimundo Bertuceli de Mendonça, Raimundo Chaves Ribeiro, Raimundo Fernandes de Moura, Raimundo Rebelo de Souza, Raul Rocha da Silva, Roberto Maia, Rodolfo Sena Gonçalves, Salomão Marcus Zagury, Sebastião Souza Pinheiro, Silvério Luiz Nery Cabral, Sílvio Moura Tapajós, Solimões Franco, Tito Couto, Valdney Varzin Simões, Valter Pires Ferreira, Viriato Ferreira da Silva Castanheira, Walder Menezes Caldas, Wilson Jacinto da Câmara, Zulmar Bonates Cunha.”

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Capa do livro caso Delmo: o crime mais famoso de Manaus


Caso Delmo: o crime mais famoso de Manaus Durango Duarte

Informações técnicas


Autor: Durango Duarte

Título: Caso Delso: o crime mais famosos de Manaus

Páginas: 376

Ano: 2011

sobre o autor

Caso Delmo: o crime mais famoso de Manaus Durango Duarte Durango Duarte é empresário, publicitário, escritor e pesquisador. É Diretor-Presidente do Instituto Durango Duarte e CEO das empresas #PESQUISA365 e The Voice. Nasceu em 11 de novembro de 1963, em Cachoeira do Sul/RS e veio com a família à capital amazonense em fevereiro de 1975. Apaixonado pela história, pelas memórias de Manaus.

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