A vida em Lorena

Em 4 de outubro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Mudamo-nos para Lorena em 17 de dezembro de 1964. Não sei por que jamais esqueci a data. Meu pai feliz, casa própria e uma aposentadoria para gozar. Casa simples, mas mais espaçosa e com uma fachada modernosa. Recordo-me da particular satisfação de meu pai com alguns detalhes da casa. Primeiro um grande reservatório de água subterrâneo e todo de cimento armado, com capacidade para estocar cerca de 10.000 litros, que vinham da rede pública. Acoplado a ele uma bomba elétrica, que automaticamente era acionada sempre que o nível da caixa d’água no forro da casa chegava a um determinado nível crítico. Gostou muito, também, de um corredor coberto, na lateral da casa, onde chumbou um par de ganchos de ferro para estender sua rede. Logo botou olho gordo no terreno baldio ao lado da casa, onde, sem qualquer oposição do proprietário, limpou-o, revolveu a terra e adubou-a com bosta de vaca e semeou várias leiras de hortaliças. Todos o ajudamos nesta faina. Eu e meu irmão imediatamente acima, tínhamos a nobre missão de recolher a bosta seca, de vaca, nos pastos mais próximos.

 A rua se chamava inicialmente “General Zenóbio da Costa”, sendo depois renomeada “Dona Lulu Meyer”. O General eu sei quem foi. Um dos comandantes da gloriosa Força Expedicionária Brasileira, nos campos de batalha na Itália, na segunda Guerra Mundial. Já a   dona Lulu, jamais descobri o que fez de relevante para a coletividade lorenense, ou que bobagem teria feito o general para ser destituído. O certo é que a rua paralela foi simultaneamente renomeada “Dona Maria Meyer”. Não conheci nenhuma rua “José Meyer” ou “João Meyer”. O que comprova a minha total ignorância quanto aos méritos dessa nobre família. Podia-se ir deambulando, em dez minutos, até o centro da cidade e, em dez, para a periferia mais externa da área urbana. Embora nossa vizinhança fosse modesta como nós, nossa rua interligava dois dos mais requintados endereços da cidade: as avenidas Peixoto de Castro e a Godoy Netto. Puro espanto ao meu primeiro olhar para o luxo de algumas residências daí. Em Piquete jamais tinha visto coisa semelhante.

Lorena (“Cidade das Palmeiras Imperiais”) fica as margens da rodovia Presidente Dutra, equidistante de Rio de Janeiro e São Paulo. De fundação bem anterior a Piquete, apresentava uma estratificação social mais bem definida. Existiam aí mais pessoas de posses que em Piquete. Residências, igrejas e prédios públicos centenários, remeteram logo minha imaginação para uma faustosa comunidade nos tempos do Império. A classe alta era a dos fazendeiros, que enriqueceram com o auge da economia cafeeira na virada do século e posteriormente migraram para a criação de gado leiteiro. Pensando bem, hoje me parece que tinham o mesmo ar blasé, decadente, que percebi nos descendentes dos coronéis da juta e da borracha, aqui de Manaus, quando os conheci, em meados dos anos 70. O prédio onde funcionava a escola para onde fui transferido teria pertencido a um baronete do Império, hospedado D. Pedro II, pertencido posteriormente a ricos fazendeiros e, por fim, desapropriado. Contrastava nitidamente com algumas residências ricas dos endereços antes citados. Estas pareciam ter saído, ontem, das pranchetas de Niemeyer ou Le Corbusier. Coisa de novos ricos, gente sem pedigree.

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.