A vida como era (3)

Em 10 de maio de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Uma grande parte das residências da cidade era propriedade da (adivinhe?) “fábrica”, que as disponibilizava para seus empregados, mais ou menos conforme a posição na hierarquia do quadro funcional. Os militares eram a elite do lugar, pois ocupavam as funções mais importantes na empresa. Residiam nas casas de uma espécie de condomínio aberto, denominado ”Estrela”. Morar ali era um tremendo status. Muitos trabalhadores da “fábrica” moravam fora dos limites territoriais da mesma, inclusive outras cidades, como Lorena. Um trem exclusivo fazia o transporte de todos até o interior das oficinas. Nunca adentrei as linhas de produção da “fábrica”, mas imaginava-as gigantescas, com seus 5 ou 7 mil operários. Eventualmente ocorriam acidentes graves, com explosões de amplos setores da produção, que resultavam em mortes. Lembro-me da sensação mórbida, coletiva, quando o silêncio do dia ou da noite, na pacata Piquete, era alterado por um ”buuumm” ao longe. De imediato todos se calavam para apurar os ouvidos. Seguia-se a pergunta única: ”Foi na fábrica?”. E alguém sempre emendava de pronto: ”No terceiro grupo!”. Outro: ”Não! Foi no quarto grupo!”. Saber qual o setor que tinha sido atingido significava estar mais próximo ou mais distante – por parentesco ou conhecimento – de uma provável vítima.

Havia uma única piscina na cidade (da “fábrica”, evidentemente!). Um certo apartheid consentido dividia o seu uso em dias para operários e seus dependentes e dias para a elite. Jamais entrei nela. Não tinha idade para tal. Meus irmãos a freqüentavam, parece que regularmente. Junto havia uma área extensa, com campo de futebol, caixa de areia para saltos e um grande pórtico, com talvez uns 15 metros de altura. Saltar daí na areia era rito de iniciação básico para qualquer um que não quisesse parecer mariquinhas. E que não paire dúvidas que o fiz quando instado a tal.

Meu irmão mais velho, a esta altura já um garboso aluno da Escola Militar de Agulhas Negras-AMAN, adorava todos os esportes. Achou que eu levava algum jeito para o atletismo e tentou me ensinar o salto triplo. Naquele início dos anos 1960 ainda reverberava, Brasil afora, os ecos das glórias de Ademar Ferreira da Silva e Nelson Prudêncio, que tinham sido recordistas mundiais dessa modalidade.  Ensinou-me também (ou tentou!) o salto em altura. O método dominante diferia do que hoje se pratica, quando se salta de costas. Praticava-se o “rolo”, que teria sido desenvolvido por um americano chamado Osborne, salvo erro. Com passadas ritmadas corria-se obliquamente em direção ao obstáculo, batia-se fortemente com o pé esquerdo (para mim que sou destro) a cerca de vinte centímetros da vara e lançava-se a perna direita o mais alto que se pudesse, rolando a barriga sobre esta e caindo na areia de costas. Curiosamente dei-me melhor no salto em altura do que no triplo. Ironicamente, anos mais tarde, numa competição colegial regional, em São José dos Campos, fui humilhantemente derrotado nesta prova por um moleque negro, magrelo, desengonçado, sem técnica nenhuma e que três anos depois o mundo ficaria conhecendo como o João do Pulo. O danado, simplesmente, bateu o recorde mundial de salto triplo nos jogos Pan-Americanos, na Cidade do México.

 

Articulista José Carlos Sardinha

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.