A vida como era (2)

Em 3 de maio de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Café preto puro e pão com manteiga. Parece-me que leite não era habitual naquela época. O pão era o “de sal”, que, mais tarde vim a saber, se chamava também de pão “francês”. Em Manaus denomina-se pão de “massa grossa”, contrapondo-se ao de “massa fina”, que em Piquete chamávamos pão “doce”. Comíamos ainda, mais nos lanches no decorrer do dia que no café da manhã, inhame, mandioca, batata doce, cará e milho verde. Bolão de fubá ou fécula de batatas, frequentemente também eram disponibilizados. Paçoca de amendoim, pamonha e curau de milho verde, assim como canjica de milho branco, eventualmente, se faziam presentes. Este mesmo curau, no Amazonas, denomina-se canjica e a canjica de Piquete é o mungunzá de cá.

Minha mãe era uma baita de uma cozinheira. Seus doces, caracteristicamente sempre bem curados, de batata doce, banana, mamão verde, marmelo, goiaba, laranja, entre outras frutas, eram antológicos. No almoço, o indefectível arroz com feijão, acompanhado de verduras da horta doméstica e a “mistura”, a depender das disponibilidades. Esta podia consistir de carne de vaca (não sei por que não se dizia de boi), adquirida no açougue da “fábrica” (sempre ela!), porco, frango ou pato do “terreiro”. Não me recordo de caça (e olha que o Ibama ainda nem existia!) e peixe, era pouco comum. O açúcar, o sal, pimenta do reino, arroz, feijão, macarrão eram adquiridos na cantina da “fabrica” e consumiam a quase totalidade do salário mensal de meu pai.

Todos os meses se fazia “a compra”.  Uma lista era escrita por um dos irmãos, acatando as determinações materna, que podiam receber adendos paterno ou filiais. Afora o básico já citado, meu pai fazia questão incluir um ou dois pacotes de cigarros de papel (não dos mais caros!) e uma ou duas garrafas de cachaça, tudo para ser consumido em casa. Às vezes tinha até bacalhau verdadeiro! Lembro-me ainda das manjubas (peixinho salgado) e do “mulato velho”, peixe salgado das costas brasileiras, que era uma espécie de bacalhau de pobre. No almoço dominical degustava-se frango assado de forno com macarronada. Vinho e guaraná só nas grandes festas, como batizados e Natal. Nesta data a “fábrica” costumava distribuir, para seus empregados e dependentes, “cestas de Natal”, que traziam guloseimas incomuns ao longo do ano. Os vinhos costumavam ser “jóias” da enologia brasileira, como ”Sangue de Boi” e “Gatão”.

O vestuário disponível era escasso, uma mesma peça de roupa ou sapato tinha que ser compartilhada por mais de um Sardinha, passando para os mais novos à medida que crescia. Consertos ou reformas eram demandas permanentes. Esses arranjos nem sempre eram tranquilos, por vezes dava encrenca. Assim ocorria quando um ou outro programava usar uma determinada peça num evento ou programa e outro ou outra tinha a mesma ideia para evento ou programa distinto. Recordo-me de uma vez em que um de meus irmãos mais velhos passou um dia inteiro a consertar um sapato velho para um encontro com uma namorada nova. Conserto feito, foi engomar sua calça de linho branco e tomar banho. Quando procurou pelo sapato recuperado, outro irmão tinha se apoderado e garbosamente ido para o seu programa. A ira do empreendedor foi cataclísmica.

 

Articulista José Carlos Sardinha

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.