A vida como era (1)

Em 28 de abril de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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São fragmentadas as recordações relativas aos meus primeiros seis anos de vida. Lampejos vinculados a minha doença, como quando caí no riacho próximo ao correr atrás de um dos meus irmãos mais velhos, na tentativa de cruzar uma ponte improvisada com troncos de bananeira, durante uma enchente. A queda da garupa de um cavalo, motivada pela impaciência do meu irmão, plantonista daquele momento, que entre me vigiar e cavalgar como desejava, resolveu fazer os dois ao mesmo tempo e, compulsoriamente, e impingiu-me um passeio que durou poucos minutos. Uma “suruba” infantil”, da qual só me recordo as gozações de meus irmãos, relatando como eu, uma de minhas irmãs e uma vizinha, todos com mais ou menos a mesma idade, fomos surpreendidos nus, em uma casa abandonada. Tinha eu 3, 4 anos? Não sei!

Consigo datar, por serem efemérides, a alegria coletiva pela vitória do Brasil na Copa do Mundo de Futebol em 1958. Lembro-me do profundo desgosto de meu pai com a vitória da Revolução Castrista em Cuba na virada de 58 para 59. Seu desejo era de que os americanos, que amava, afundassem aquela maldita ilha com uma bomba atômica. Aliás, uma de suas mais freqüentes imprecações quando estava irado, era desejar enfiar uma bomba atômica no rabo de seu desafeto do momento. Creio ser também deste período as minhas primeiras absorções musicais. Meus pais cantavam músicas sertanejas (Alvarenga e Ranchinho, Teixeirinha, Tião Carreiro e Pardinho, Catulo da Paixão Cearense, Cascatinha e Inhana). No rádio se ouvia Orlando Silva, Inezita Barroso. Guarânias paraguaias, tangos argentinos, baiões nordestinos, sambas cariocas e a incipiente bossa-nova. A primeira letra de música que memorizei começava assim: ”Quero beijar-te as mãos minha querida. Senta junto de mim meu novo amor. És o maior enlevo da minha vida”.

Só meu pai e minha irmã mais velha trabalhavam. Ela, concluído o Curso Normal aos 18 ou 19 anos, se tornara uma respeitadíssima professora do antigo primeiro grau. Ele pouco escrevia, mas sempre gostou de ler muito, assim como dar palpites sobre qualquer assunto. Era muito convicto de suas opiniões. Uma delas me relatou no leito de um hospital, praticamente às vésperas de morrer, numa noite memorável em que não dormimos.  Ele me contou grande parte de sua vida e que nenhum de seus filhos precisaria pegar em cabo de enxada, tal qual fizera por toda vida. Teríamos que ser martelos e não pregos.

Seus colegas de trabalho escarneciam dessa postura, atribuindo-lhe arrogância e soberba. Se era analfabeto, os filhos não seriam. Assim, empurrou todo mundo para a escola. Só admitiria alguém se empregar depois de concluir o curso Científico, como era chamado segundo grau naquela época. A casa era quase como uma república de estudantes.

No jantar, todos ficávamos juntos à mesa. Grandes caldeirões de sopa fumegantes, colocados no centro da grande mesa, donde cada um se servia com generosas “conchadas”. Era o momento das broncas que eventualmente alguém poderia receber, elogios quando justificados e muita conversa sobre o dia-a-dia. Terminada a refeição vinha o café e o “paiero”, para os que fumavam. Nunca fomos proibidos de fumar, nem de tomar uma branquinha (que nunca faltava), desde que em casa. Removidos os pratos, talheres e vasilhas usadas; mesa limpa, todos se lançavam às suas tarefas escolares, e a tertúlia se instalava.

Em média 2 anos de idade separavam cada um de nós. Estudamos todos nos mesmos colégios, com os mesmos professores, livros e até mesmo as fardas passavam do mais velho para o mais novo. Assim, os mesmos conteúdos teóricos eram repisados, ano após ano, naquela mesa. Mesmo sem idade escolar, ficava no meu canto a ouvi-los. Travei meu primeiro contato, se assim se pode dizer, naquela mesa ou no seu entorno, com a hipotenusa que elevada ao quadrado era igual à soma dos quadrados dos catetos; com os versos de “Juca Pirama“ e “Navio Negreiro”; Seno A cosseno B, é igual a seno B cosseno A. Impressionei-me vividamente com Pedro Álvares Cabral, Colombo e Tiradentes. Detestei Calabar e o grego sujo que traiu os trezentos de Esparta. Desejava ardentemente que atingisse a idade de matrícula no primeiro ano primário (o tal jardim da infância era coisa de gente rica) para poder participar ativamente daqueles debates.

Meu pai saía para o trabalho ao alvorecer. Os que estudavam no turno matutino tinham que chispar da cama logo cedo, enquanto que os demais podiam dormir mais um pouco. Minha mãe acordava antes de todos para acender o fogo e preparar a refeição matinal. A lenha era composta de um ou mais pedaços de tronco de árvores e um amontoado de gravetos secos. Destes, o fogo incandescia a madeira mais grossa, que ardia por várias horas, sendo realimentado quando necessário. Lembro-me claramente de seus olhinhos negros espremidos para evitar a fumaça, e suas bochechas infladas soprando as chamas incipientes até que se consolidassem. O bule de metal permanecia o dia todo sobre o fogão, assegurando café quentinho todo o tempo, coisa essencial para os que curtiam um bom “paero”.

 

 

Articulista José Carlos Sardinha

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.