Umberto Calderaro – Contando histórias (6)

Em 28 de setembro de 2016 às 08:00, por Cláudio Barboza.

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Para chegar ao apartamento onde morava dona Maria Calderaro – sua mãe – que morava na outra extremidade do prédio, na parte da rua Joaquim Sarmento, “seo” Umberto Calderaro passava por dentro dessa redação. A redação de A Crítica havia mudado. Saiu da parte da frente do prédio que dava para a rua Lobo D’Almada e foi transferida para o “meio” do prédio, ou seja, na entrada ficaram departamentos administrativos e, lá no fundão, a redação. O prédio tinha frente para a rua Lobo D’Almada e ia até a rua Joaquim Sarmento, onde anos depois seria feita uma redação bem maior, que possibilitou mudanças significativas na produção do jornal e que vamos lembrar mais à frente.

 

Toda as vezes que Calderaro passava na redação, a impressão que tenho até hoje é que o tempo parava. Dava até pra ouvir o ritmo da respiração dos colegas. Era uma sensação de admiração, um certo receio, mas de um respeito que ia dos mais jovens, como eu, aos mais antigos, como Leal da Cunha, Messias Sampaio, Gabriel Andrade, etc.

 

Calçando uma sandália franciscana ele caminhava com calma entre as mesas, cumprimentava todos com aceno de mão e chegava a trocar palavras com algum privilegiado. Aos poucos comecei a ser chamado ao gabinete do “seo” Calderaro para fazer entrevistas com alguns visitantes ou receber uma orientação direta. Costumava me apresentar observando… “esse é cria da casa”. Eu sentia que ele tinha orgulho e satisfação ao nos ver crescendo profissionalmente. Uma figura e tanto, com um olhar de águia para o jornalismo, com tinta nas veias, conforme ele mesmo dizia.

 

A Crítica crescia rápido e outros colegas chegavam ao jornal reforçando o time. Entre eles: Sebastião Reis, Isaías Oliveira, Flávio Seabra, Peri Augusto, Carlos Dias, Inácio Oliveira, Aldísio Filgueiras, Atlas Bacelar, Albany Mota, juntando-se a Mário Monteiro de Lima, Mário Adolfo, Antônio Menezes, Pinduca, Carlos Aguiar, Antonildo Menezes, Luiz Vasconcelos, Fernando Ruiz, Luiz Otávio (que anos depois seria executado pela polícia em Manaus), Francisca do Vale, Plínio Valério, José Veríssimo, Mário Próprio, Jorge Estevan, Saraiva, (o Sabu) Mário Jorge, Leopoldo Sampaio, Gil Barbosa, Hermengarda Junqueira, etc… Nessa redação havia uma repórter que escrevia a mão e depois datilografava o texto na Olivetti, mas essa é uma história mais para a frente…

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Maço de cigarros Hollywood no bolso, pés enfiados numa confortável sandália franciscana e um cabelo preto plasticamente arrumado. Costumava chegar ao jornal às 14h e, ao passar pela porta da redação, disparava gritos, críticas e broncas a torto e a direito, fazendo tremer os mais jovens, fazendo brotar sorrisos disfarçados nos mais experientes que se escondiam atrás das então Olivetti. Esse era o perfil do chefe de reportagem de A Crítica, na década de 70, Leal da Cunha. Com certeza, um dos maiores jornalistas produzidos no Amazonas, que durante anos foi da Imprensa Oficial e chegou a ser secretário de Comunicação, no segundo governo de Gilberto Mestrinho.

Leal da Cunha mandava repórteres para a apuração do dia-a-dia, lia textos e escolhia fotos, sem aliviar nos comentários. Quando considerava que a matéria não estava boa, para desespero do autor, lia alguns trechos em voz alta. Dependendo da entonação, isso podia se transformar num horror. E Leal caprichava nas entonações. Depois, tirava os óculos, fazia cara de poucos amigos e ia tomar um café.

 

Articulista Cláudio Barboza

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sobre o autor

Articulista-Claudio-BarbozaUm místico religioso, que hoje poderia ser arcebispo pelo tempo de estudo no seminário... Mas fez opção pelo jornalismo. Entre Manaus e Minas uma dúvida eterna. Ex-jogador de basquete, Garantido de coração e tricolor das Laranjeiras. Graduado em Filosofia na Faculdade Belo Horizonte, jornalismo pela UFAM, mestre em sociologia pela UFMG.