Um passeio por Manaus

Em 2 de junho de 2016 às 08:00, por Gilson Gil.

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Em outro artigo falei sobre o vazio humano nos bairros de Manaus. Falei da falta de pessoas andando pelas ruas da cidade. Fiz uma honrosa exceção: o Centro. Contudo, um simples passeio pelo Centro, em especial a área da Matriz, torna mais complexa tal afirmativa.

Como pensar em uma Manaus turística, se o Centro histórico, referência para o turista, nas grandes metrópoles ocidentais, é um amontoado de contêineres, sem uma paisagem ou segurança? Imagino o turista que desembarca no porto, vindo de um cruzeiro. Ele se depara com um espetáculo grotesco de caixas de metal empilhadas e uma desorganização extrema, com um terminal de ônibus confuso e ruas sujas que o espantam de saída. A solução é pegar, rapidamente, uma van e ir ao Teatro Amazonas, fazer uma visitação e voltar, talvez rodando mais um pouco por algumas ruas do Centro.

Falta o conforto e a infraestrutura que o deixem aproveitar a cidade e se sinta à vontade para passear e consumir sem receios. Nem uma volta pela Arena é interessante, pois ela fica trancada o dia todo, sem possuir uma loja, um bar ou restaurante que possa acolher o intrépido turista.

Enfim, são reflexões que possuem por objetivo melhorar nossa cidade, especialmente o Centro. É hora de se rever o porto, os contêineres e o fluxo de trânsito na região. É o momento de recuperarmos a visão do rio, de salvarmos a orla e a desfrutarmos na integralidade. Não adianta se alardear que Manaus é a porta da Amazônia, se nem o rio conseguimos ver da Matriz nem podemos andar em sua orla. Pensar o Centro é pensar o turismo, o emprego e a geração de renda. Além disso, é também resgatar uma área importante da cidade, revitalizar esse setor e criar novas oportunidades de lazer e trabalho.

Muita gente se lembra com saudade dos tempos do comércio nas ruas da zona franca, principalmente nos anos 80. Foram tempos de bonança, mas que custaram caro para o lazer e a qualidade de vida do cidadão. Experiências como o Porto Maravilha (RJ) ou a Estação das Docas (PA) mostram que é possível reorganizar o espaço urbano e dar-lhe novo sentido. Não precisamos nos acomodar ao fatalismo do “sempre será” assim. É viável mexer em interesses e situações cristalizadas. Os modelos de “cidades inovadoras” estão aí mesmo para aprendermos. As cidades modernas que crescem e apresentam altos índices de satisfação são aquelas que priorizam a inovação, a inteligência e o planejamento. E de uma forma que o patrimônio histórico, arqueológico e ambiental atue em conjunto, como aliado, e não como obstáculo. É esperar, trabalhar e ver.

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.