Sérgio Barcelos e o convite para jogar no Rodoviário

Em 6 de dezembro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Vizinho de muro da casa do Alex, Sergio Barcelos, o Téo, foi outra pessoa importante em minha adolescência. Vivia com uma família estranha. O mais velho da casa era chamado simplesmente de “O general”. Nunca soube seu nome, se era mesmo general ou não. Nunca perguntei. Na casa vivia ainda uma senhora bem mais jovem que o “general”, que parecia ser a mãe do Téo, um cara mais velho que o Téo cerca de cinco ou 6 anos e um menor de 6 ou 7. Ele não gostava de falar sobre a família. Viviam luxuosamente.

Quando ter uma TV em casa era ainda luxo, eles tinham em todos os cômodos da casa. Ao contrário de mim e do Alex, era aluno brilhante. Sempre as maiores notas. Simplesmente adorava todos os esportes e era uma verdadeira enciclopédia. Torcedor do Flamengo e do Corinthians, aceitava com resignação as sucessivas derrotas de ambos os seus times para o meu Santos. Juntos assistíamos corridas de automóveis, basquete, atletismo, vôlei, boxe e qualquer coisa que a TV transmitisse e se assemelhasse a esporte. Sabia nome dos atletas, times, situação de diferentes campeonatos, recordes atualizados. Respirava esporte. E jogava muita bola.

Montamos um time de futebol de salão, só de garotos, entre 13 e 14 anos, que ficou invicto por um bom tempo. Nosso maior prazer era ganhar do time dos cabos do Exército, do quartel local. Aliás, secretamente, meu prazer era maior do que o de meus colegas de time. O grande craque do time dos cabos era namorado da filha de um sargento, que era meu grande amor platônico (a filha, não o sargento). Jogamos juntos ainda em vários times da várzea lorenense. Entre eles um chamado Vera Cruz, isso no ano de 1969.

No primeiro dia em que fomos treinar no “Vera”, o Téo deu um show que nunca esqueci. Ele não tinha um grande porte (lembra muito o Tostão!) e chutava com os dois pés (coisa que nunca fui capaz). Entramos no time reserva, evidentemente. Eu no meio de campo e ele mais avançado. Volante e meia esquerda, como dizíamos na época. O craque do time era o Diogo Capacete, irmão do presidente do clube, volante com eu. Tinha esse apelido, óbvio, em função do formato de seu cocuruto, adornado por uma respeitável cabeleira Black Power. Sempre que a bola chegava pra mim, procurava rapidamente lançá-la para o Téo. Que era marcado pelo Diogo, que não via a cor da bola, tão facilmente que era superado pelo meu amigo. A coisa começou a ficar meio humilhante, pois a pequena, assistência, habituada ao bom futebol do Diogo, começou a aplaudir o Téo e a avacalhar com o Diogo. Aí o técnico – “Seo” João Rosa – resolveu colocar o Téo no time titular. O problema passou a ser meu. Pra minha felicidade, seja por que a bola passou a não chegar tanto para ele quanto antes ou tenha querido me poupar, a performance no time titular não foi tão espetacular mais. Saí elogiado do treino, convidado, assim como o Téo, para ficar no clube. Eu fiquei. Ele não se interessou muito.

Ao fim da temporada (campeonato municipal) o Vera Cruz ficou em quarto ou quinto lugar, sendo campeão o Rodoviário. Na partida entre os dois times, no meio do campeonato, passei por uma das situações mais desagradáveis de minha vida. Diferentemente dos demais que foram goleados, perdemos para o Rodoviário por apenas dois a zero. Meu drama iniciou-se na metade do primeiro tempo, quando uma urgência intestinal começou a tomar forma em minhas entranhas. Com a crescente sensação de que se desse uma passada mais larga ficaria com as pernas enlameadas, pois desceria tudo, ao invés de pedir para sair, fui ficando parado numa determinada faixa do campo, próximo de nossa defesa e fugindo da bola. No intervalo aliviei-me, mas tudo recomeçou no segundo tempo. Utilizei-me do mesmo artifício. Ao término da temporada o técnico do Rodoviário procurou-me com um convite para jogar no seu time. Tinha ficado impressionado com minha disciplina tática, pois segundo ele, no jogo citado acima, seu ataque não teria funcionado como de costume por que eu o impedi, ao bloquear de forma sistemática aquela faixa de terreno. Com fingida modéstia agradeci e aceitei o convite. Fiz, ou melhor, não fiz, um único jogo pelo time do Rodoviário.

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.