Sauvegarder la diversité!

Em 8 de julho de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Sauvegarder la diversité! – Tenho muitos e queridos amigos que quando dessa vida saírem virarão purpurina.

Ao longo desses sessenta anos vividos vi, conheci e convivi com tantos homossexuais que até a conta perdi. Com o passar dos anos o número de adeptos esteve a perder o medo e a vergonha, a enfrentar a resistência de tantos e está a registrar crescimento exponencial. Se ontem só tínhamos o oligopólio dos assumidos (e enrustidos), hoje temos o que os economistas chamam de tipo ideal de mercado: a concorrência. Não faço apologia, nem distinção, são queridos igualmente.

Hipocrisia dizer que homofobia por aqui não há, há e muita. Mas se pior já foi é redundante afirmar que melhor ficará. Então que venham e sejam felizes.

A minha “Rua” hoje vive a efervescência da concorrência. Estão nos bares, nas esquinas e até na Rêmulo’s, a Boate onde, dizem, estão as profissionais do sexo mais interessantes de Manaus, em sua esmagadora maioria, oriundas de outras plagas deste país continente. De volta aos anos de oligopólio, é claro que a “Rua” não passaria batida.

Havia um cabeleireiro de cabelos espichados, boa gente e ótimo profissional, ele não guardava trejeitos, era discreto e até adotou um filho que de tão raquítico o apelidávamos de Meio Quilo. Outro era totalmente expansivo, ora se apresentava como Almira Castilho, ora como Akiko, a gueixa. Também o educado, inteligente e elegante moreno que o Mestre convocou prematuramente; foi meu professor na Universidade e “viajou” sem saber que o chamávamos de Eva Negra. Há causos de religiosos oriundos das congregações dos Capuchinhos e Salesianos, e até de quem já havia abandonado o hábito, mas que tinha em seus verbos e textos irrepreensíveis, as vestes dos clássicos.

Se as ruas da minha “Rua” (o quadrilátero) fossem passarelas eu diria que foram palcos de desfiles memoráveis. Alguns dos mais notórios e notáveis por lá emprestaram seu charme, glamour, requebro e frescura mesmo.

Eu devia estar com treze ou quatorze anos de idade, quando um desses mais “atirados” olhou pra mim e jogou a cantada mais hilária que eu tenho catalogada: “Esse deve ser tão gostoso que deve cagar chocolate e mijar Coca-Cola”, chamavam-no Porquinha e se dizia sobrinho do então dono de uma empresa de transporte coletivo de nome feminino. Aliás, difícil aquele que não carregasse consigo um apelido ou nome artístico. Tinha Pelé, Astrid, Bolota, Mococa, Arroz, Mata Matá, Caixinha, Dom Dom, Intimo, Maria de Nazaré Lacute… Nazaré sempre andava de vestido ou saia, peruca, saltos altos, pintada e a se requebrar; seu sorriso quase vazio denunciava o desfalque de quatro dentes superiores e frontais a mostrar o cabalístico número 100001.

O Intimo tinha esse apelido porque assim ele era. Estudamos no mesmo colégio, fomos da mesma turma. Tinha um ótimo humor e, acho, “desabrochou” tarde. Em férias no Rio de Janeiro com os meus pais e irmãos no ido ano de 1972, fomos convidados a passar o réveillon na casa de um parente que morava na Tijuca.  De manhã fomos à praia de Copacabana e lá o encontramos. Perguntou-nos para onde iríamos à noite e prontamente se convidou para ir junto. Ao chegarmos à casa do anfitrião logo apresentou suas credenciais e danou-se a soltar gargalhadas espalhafatosas, a falar em demasia, comer feito um glutão…  Deitou-se na cama do casal, ligou a televisão e, como derradeira intimidade, fez ligações interurbanas a partir do telefone da casa sem qualquer cerimônia e parcimônia. Por pouco aquele réveillon não ocorreu dentro de um táxi, com o papai a cuspir fogo em cascatas tão caudalosas quantas aquelas que anos depois virariam atração do Hotel Meridien, no Leme.

Falava-se de alguns casados, de pais de filhos, aí incluído professores do curso ginasial e secundário. Ainda de políticos, carnavalescos, jornalistas, músicos, cronistas, colunistas sociais, médicos, farmacêuticos, artistas plásticos, costureiros, donos de bares, atletas, comerciantes, promotores de eventos, profissionais liberais, servidores públicos, autônomos…

Um dos contáveis corajosos oligopolistas era alto, gordo e branco, seu registro civil o homenageava com o nome de um famoso escritor francês e título de peça teatral, nada mais coerente porque ele realmente era uma peça, na Rua o chamávamos Buda Branco.

O Bar referência da “comunidade” era o Patrícia, ficava na Av. Constantino Nery e seu proprietário atendia pelo nome de Alonso. Lá acontecia o famoso e esperado concurso de Rainha Gay do Carnaval, além de outros eventos protagonizados por travestis. Foi num desses acontecimentos que o “Pato” mais querido do Amazonas aprontou. O desfile atingia seu ápice quando ele, subitamente, voou da cadeira para o tampo de sua mesa, retirou sua intrépida “mangueira” e tentou apagar o fogo que àquela altura tomava conta dos presentes. Os PMs que estavam de serviço o depenaram, não o jogaram na panela fervente, tampouco o assaram, mas o transportaram “delicadamente” para a rua, “Pato” estava no ponto para ser preparado com laranja, tucupi ou arroz. Sua carne foi “amaciada” com socos e safanões, o senão ficou por conta do amadorismo dos militares ao deixarem sua pele recheada de “canhões”. Ao dar seu último suspiro o valente bípede, encharcado do líquido normalmente dado aos perus, deixou a mensagem lapidar: “só me deram porrada porque tão de turma”.

Vizinho ao Bar Patrícia os clarins do Clube Sírio Libanês anunciavam outro Baile Gay.

O Atlético Rio Negro Clube deve ter sido o primeiro clube brasileiro a ter oficialmente uma torcida organizada gay, a Galo gay. O titular dessa facção era o Eurico Carvalho. Se a Barbie tem um carro conversível cor de rosa, o saudoso rionegrino tinha um fusca preto todo incrementado, transformado em conversível e com o capô a exibir a pintura do Galo da Praça da Saudade com uma crista elegante, luvas de boxe, jeitão de campeão do terreiro e vestido com o tradicional uniforme barriga preta.

Estudei inglês no Yázigi até o dia em que choveu e todos os alunos faltaram, exceto eu. Eram da minha turma: George Lins, Luis Ângelo e Leila Albuquerque Vianez, Thamy e outros que não recordo. O teacher sentou-se a meu lado, cruzou as pernas e danou-se a encaracolar seu bigode americano com característica irlandesa.  À medida que eu lia o texto ou repetia o que me era cantado, ele olhava pra mim e dizia: beautiful! Beautiful! Na dúvida se o lindo era pra mim ou pro meu sotaque, nunca mais voltei à escola.

No ano de 1983, já casado e pai do primeiro filho dos dois que tenho, decidi retomar meus estudos da língua falada por Jean Valjean e me matriculei na Aliança Francesa. O professor recém-chegado da França era muito mais jovem que eu. Desisti do curso quando me foi revelado que as flores e bilhetes com versos e declarações de amor que me eram entregues no meu trabalho, não eram da fêmea que a minha imaginação pintava e minhas fantasias estimulavam. O jeune professeur de français se apaixonara por mim, ou pelo meu sotaque, sei lá!

Bien, ce est la vie. Sauvegarder la diversité!

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Articulista Lúcio Menezes

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.