Persuadir e ser Eleito

Em 29 de agosto de 2018 às 14:55, por Gilson Gil.

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Estou acabando de ler um interessante e divertido livro, que gostaria de indicar ao público em geral: “Ganhar de lavada. Persuasão em mundo onde os fatos não importam”. O autor é Scott Adams, criador das tirinhas de “Dilbert”, que satirizam o cotidiano dos funcionários das grandes empresas americanas e debatem o atual estado do trabalho em nossa sociedade. Sem entrar em detalhes sobre a obra, que  indico de boa fé, somente quero apontar como ela discute o poder da persuasão, através de uma análise da eleição de Donald Trump, mostrando que fatos e argumentos pouco valem na vida diária dos seres humanos. Scott Adams busca mostrar (e consegue razoavelmente bem) que valores, emoções e percepções são mais decisivos nas nossas escolhas do que a análise fria e racional de fatos e argumentações racionais e calculados.

Acho que isso tem relações muito vivas com nossa situação, seja no Brasil como no Amazonas. Em termos nacionais, temos um candidato preso, que o partido insiste em dizer que está na disputa para presidente. Ele não tem programas nem projetos, apenas uma apelo á nostalgia de seus supostos “bons tempos”, uma certa dose de vitimização, pois teria sido “objeto de um golpe” do congresso e do judiciário e nada mais. O apelo disso é interessante. Todas as pesquisas o apontam, mesmo nessa condição peculiar, com cerca de 30% das indicações. Em suma, não é preciso mostrar projetos, debater ideias ou coisa semelhante. O apelo ao passado, a uma possível “era de ouro” é mais forte do que qualquer discussão sobre ideias novas ou atualizadas. Para confirmar isso, o segundo colocado, ou primeiro, conforme o ângulo de análise, candidato com passado de militar e apoiador do golpe civil-militar de 1964, somente fala em ter autoridade, ser firme, enérgico e demonstrar força. Quando indagado sobre economia, meio ambiente, desemprego ou saúde, se esquiva e diz que terá um assessor que responderá por tais temas. Em resumo: não possui programa nem projeto para o país, apenas passa uma imagem de “durão” e confia que esse simbolismo irá levá-lo á presidência.

No Amazonas, não é diferente. A eleição tampão de 2017 elegeu um candidato sem um projeto sequer. O atual governador foi eleito apenas pelo “amor”, pois, segundo seu slogan, ele “ama o Amazonas”. Desde então, vemos um governo que pouco inovou, que dispensou mais de mil licitações, segundo dados da assembleia e que busca se reeleger com o mesmo lema sobre o amor. Enquanto a segurança desmorona e o desemprego se mantém inabalável, o governo aposta suas fichas no “amor” e numa suposta “tradição”, para mostrar que “arruma a casa”, no máximo apostando alto em uma consultoria internacional, cujo relatório ninguém viu ou leu. Sem definir programas, conceitos ou detalhar ideias, o mundo segue e ele é o líder das pesquisas (embora com números baixos, assim como todos os outros).

Enfim, é interessante ver e compreender como raciocina e enxerga o mundo o eleitor. Se fatos e argumentos nada valem, e o importante são o amor, a esperança e a autoridade, é necessário lermos mais sobre isso e mudarmos nossa maneira de nos comportarmos e até de entender a vida e a política, a fim de não cairmos em algumas ilusões racionalistas.

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.