Os portugas da minha rua

Em 12 de agosto de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Dona Balbina era proprietária da taberna que ficava na esquina da Rua Lobo D`Almada com a Rua 24 de maio. O guaraná Andrade que ela vendia era geladíssimo e vinha em garrafas casco escuro de 600 ml, que nem essas de cerveja; o líquido contido era a cota certinha de três copos de vidro, grife Nadir Figueiredo, modelo americano. Ela era mãe do Antelqui, um sujeito cujo sobrepeso lhe permitiu o reinado de Momo por alguns anos. Sim, a Rua não tinha só beldades, Condessas, Rainhas e Princesas, também tinha Rei, Conde, Lord, Marquês… Dona Balbina era avó do Domingos e do Manel Cabeção, que depois virou Nelinho, em homenagem ao grande lateral direito do Cruzeiro de Minas Gerais. Tinha outros netos, mas não lembro seus nomes.

A poucos metros daquela esquina morava a família Vianez. O casal Seu Belmiro e Dona Bosi geraram uma bela família: a primogênita é a Omarina, depois vem Lúcia, Ieda, Belmiro Filho, Leila e o saudoso e querido Luiz Ângelo, o Dandinho. Seu Belmiro foi o responsável pela minha primeira aparição televisiva. O time do Fluminense – salve o Tricolor! – lá da Rua, do qual o Dandinho era goleiro, por ele foi entrevistado no seu programa esportivo dominical na extinta TV Ajuricaba. Inesquecível!

Na esquina da Rua José Clemente com a Lobo D`Almada tem o famoso Bar Caldeira. Nos anos 1960 era proprietário do bar o Seo Araújo. Juravam os meninos mais velhos que ele recolhia, com aquelas latas de manteiga enormes – a mesma manteiga que a gente comprava ” a retalho” – a água da chuva que escorria no meio fio da ladeira da Rua Lobo D`Almada, vinda a partir da Rua Dez de julho. Asseveravam que ele fervia e a usava para produzir os deliciosos sucos e picolés que tanto consumíamos. Reza a lenda que certa vez o Seo Araújo estava com dificuldades para sintonizar uma rádio de Portugal. Douglas Lima, que por lá passava, vendo a dificuldade e irritabilidade do luso, por peraltice ou sacanagem, assim a ele se dirigiu:

– Seo Araújo, é muito fácil sintonizar a rádio de Portugal, o senhor quer que eu lhe ensine?

– Claro ô “puto”- os portugueses assim tratam seus filhos quando meninos. Estou eu cá a tentar e não encontro hipótese. Preciso saber notícias de além-mar, ora, pois!

– Então preste atenção pra que eu não precise repetir: vá girando o botão de sintonia bem devagarzinho, quando o senhor sentir um cheirinho de merda é a rádio portuguesa.

Diz-se que depois disso Douglas saiu em desabalada carreira com o Seo Araújo a persegui-lo. Felizmente os pés descalços do menino Douglas, a correr por sobre os paralelepípedos, foram mais ágeis que as sandálias de pescador que ele usava. Depois desse episódio testemunhei sua felicidade a ouvir a rádio do seu país, só não posso afirmar se o que respondeu pela sintonia foi a palha de aço ostentada na ponta da antena do rádio ou o cheiro insinuado por Douglas.

Depois o bar passou para o Seo Antonio, pai da Ninita e esposo da Dona Maria. Seo Antonio faleceu prematuramente, Dona Maria e seu irmão, Adriano, assumiram e lá trabalharam anos a fio. Atualmente o Caldeira está sob os cuidados do empresário Carvajal.

A Rua Lobo D’Almada vai da Av. Sete de Setembro até a Rua Dez de Julho. Na Sete nos deparamos com a Igreja Matriz, na Dez com “A Cabacence”. Antes de se transformar em Casa Lotérica, “A Cabacence” era a taberna da família Pureza, da matriarca Dona Otília e seus filhos, Manoel e Miloca. Dona Otília até ficava no balcão, mas quem tomava conta mesmo era o “Manel” Pureza, uma figura bacana e pacata. Lá comprei muitos chicles Ping pong, mas o carro chefe eram as bolinhas de gude, com suas ponteiras, patacas, colombianas, bibianas… Uma beleza para os olhos do menino que andava com pés descalços, cultivava unhas sujas e tinha na mão esquerda a pontaria que lhe garantia conquistas no jogo de ronda mate.

Próximo à casa do Camilo Gil Cabral morava o Carlos, um gajo discreto, delgado e que usava óculos que tinham armação preta e retangular. Sua solidão foi interrompida no dia que casou.

José Clemente 268, uma casa alugada, era o meu endereço. Seo Antonio era o nome portuga proprietário, esposo da também portuguesa, Dona Hermínia. Ele era dono das outras duas casas ao lado da nossa e do Restaurante Central. Eu e meus irmãos o apelidávamos de “barrigudão de gravatinha” porque ele trabalhava como garçom no seu restaurante e não abria mão da fantasia de pinguim com gravata borboleta. Não era coxo, mas andava a mancar: ou os sapatos eram menores ou tinha saliência na ponta dos dedos ou do calcanhar. Um dia ele importou, desde a santa terrinha, quatro sobrinhos: os irmãos Manoel, José e Domingos Ratto e o primo deles, o traquina Joaquim. Esse aprontou com a família e sumiu, foi um enorme abalo numa casa portuguesa, com certeza.

Na esquina da Rua José Clemente com Av. Epaminondas tinha o Bar Natália, da família Loureiro. Ali se vendia o melhor “prego” (sanduba de filé). Na esquina do outro lado da Rua José Clemente, o Salão Grajaú do Seo Ernesto. Taí outro português educado. Era ele quem a mamãe autorizava arruinar nossas cabeças com o corte militar bem rapado.

Na Joaquim Sarmento tinha a família Carmona dos filhos brasileiros Francisco, Antônio e Joaquim, o Quinzinho. Na mesma rua, esquina com a Rua Saldanha Marinho, a família Henriques. Penso que eram três homens e três mulheres, dentre eles o Julião e o Carlinhos, o periquito. Lá funcionava uma loja sortida de materiais de construção. Na Eduardo Ribeiro tinha o luso, Seo Eduardo, dono da Padaria Avenida – o melhor pão doce do mundo – e a Confeitaria Avenida, do Seo Duarte – o melhor caramujo do planeta.

Na Praça São Sebastião resiste o Bar do Armando – do falecido lusitano do mesmo nome – e seu incomparável sanduíche de leitão. Na Rua Costa Azevedo o melhor bacalhau de Manaus é vendido no Restaurante Calçada Alta, do saudoso Seo António, também naquela rua tinha o barbeiro Seo Ribeiro, avô do Maneca. Ao lado da Igreja de São Sebastião, na Rua Tapajós, morava a família Gaspar. Na Dez de Julho canto com a Rua Tapajós fica o Luso Esporte Clube, em frente morava o Seo Ernesto Costa, pai do meu querido amigo Manoel Ribeiro da Costa. Maneca viveu muitos anos no Rio de Janeiro, lá teve tórridas relações amorosas com fêmeas de vários matizes (e quilates), mas o “senhor dos mares” atracou sua nau no Rio Negro e casou com a cachopa Adriane, filha do Seo António, dono do Calçada Alta. Próximo dali, na Rua 24 de maio, ficava a Padaria Mimi, da família Simões. As bolachas e os pães eram demais.

Os últimos, e sei que esqueci alguns, são: António do Bar Brasil – Av. Epaminondas canto com a Rua Dez de julho – que fabricava sorvetes dos deuses e, finalmente, a Casa Dias, da família do mesmo nome – Av. Epaminondas esquina com Rua Luiz Antony – que até bem pouco tempo era gerida por Augusto Dias. Ali se vendia de tudo, impressionante! Tinha manteiga, cimento, vassoura, guaraná, azulejo, parafuso, papel higiênico e o escambau. Um dia chegou de férias, lá das terras de Cabral, um Dias sobrinho. Ele foi até o Estádio General Osório onde jogávamos futebol, tímido, não teve coragem de pedir pra jogar. No dia seguinte apareceu com uma bola de couro, meião, suporte, chuteiras e aí, dono da bola, foi escalado. Uma desgraça, o “puto” era o único a usar chuteiras entre tantos pés descalços. O “miúdo” não jogava nada, mas tinha uma raça descomunal e só entrava no estrompa. Não me lembro de tê-lo visto a jogar na linha depois daquele dia.

Égua! Eu vou te contar, como tinha portugas lá na Rua!

A Cabacense.

Bar Caldeira.

Casa Dias.

Guaraná Andrade.

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.