Os padres do colégio São Joaquim

Em 18 de outubro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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De qualquer forma a questão teológica nunca me incomodou muito, apenas teve sua importância esvaindo-se progressivamente. Deus discretamente deixou de ser uma variável em minha equação, sem que me tornasse iconoclasta. Aprendi a respeitar a crença dos outros, desde, é claro, que não viessem com proselitismo para o meu lado. Nestes casos meu nascente caráter polemista brandia suas armas. Com um pouco (às vezes muito) mais de leitura que os debatedores de minha idade, decorrente do ambiente literário que privilegiadamente desfrutava em casa, creio ter gerado algumas deserções nas hostes crédulas. Mas continuei a frequentar os ritos, até porque, minha irmã mais velha, num esforço até hoje não bem compreendido por mim, surpreendeu a mim e a meu irmão imediatamente mais velho, matriculando-nos no curso ginasial do próprio colégio São Joaquim. Chiquérrimo! Subitamente, lá estávamos, no início de 1966, convivendo com a elite de Lorena. Nosso status mudou imediatamente na rua. Ter filhos estudando no São Joaquim não era coisa para qualquer um e, de quebra, duas irmãs foram matriculadas no Instituto Santa Tereza, correspondente feminino do São Joaquim, que era só para homens. Iniciava-se a segunda década de minha vida.

O Colégio era uma instituição privada de ensino mantida pelos padres Salesianos, com um forte apelo junto à elite da região do Paraíba, e mesmo para além dela. Os ex-presidentes da República Rodrigues Alves e Jânio Quadros passaram por ali. Alunos oriundos de outras cidades estudavam em regime de internato, comendo, bebendo e dormindo no próprio colégio, pelo que seus pais ou responsáveis desembolsavam uma nota preta. Os da própria Lorena faziam o chamado “externato”. Junto, ocupando boa parte das mesmas instalações, funcionava a Faculdade de Filosofia Ciências e Letras, direcionada para a formação de padres salesianos, mas aberta também para o público laico. Assim, tínhamos no mesmo espaço físico a convivência de clérigos, alunos internos, externos e os apenas frequentadores do oratório. Já o quadro docente era composto por padres ou clérigos da própria congregação salesiana e professores civis.

Tenho vívidas lembranças do Pe. Hugo Greco, octogenário, nariz adunco, magro feito um bambu, que tocava violino e gostava de perscrutar o céu, em noites estreladas, com seu pequeno telescópio. Jamais vi o Pe. Tarzan, que na verdade se chamava Claudio, rezar uma missa; ele praticava halterofilismo e tinha uma família de cães pastor-alemão. Recordo ainda do Pe. Hugo Guarnieri, que dava aulas de inglês e parecia um executivo de multinacional de então; do Pe. Perini, que coordenava o oratório.

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.