Os cursos d’água de minha infância

Em 14 de junho de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

compartilhe

Viver hoje no Amazonas (com sua maior bacia hidrográfica do mundo!) não foi o suficiente para reduzir a importância de dois pequenos cursos d”água de minha infância. Nunca soube de seus nomes na cartografia oficial do município. O primeiro a que denominávamos “Ribeirão da Fábrica” serpenteava ‘a frente e abaixo da casa do “calipeiro”. Não sei onde nascia, mas passava por dentro da “fábrica”, pela frente de minha casa, juntava-se a outros no trajeto até o Rio Paraíba. Era completamente destituído de vida aquática. Nem um mísero peixinho se aventurava em suas águas. O mais próximo disto – mas bem distante na classificação zoológica – eram os membros da família Sardinha. Tal se dava porque o coitado recebia todos os dejetos químicos da “fábrica”, o que ocorria de forma metódica e regular (lembre-se que Marina Silva e a ONG “Mata Atlântica” ainda não existiam e ecologia/desenvolvimento sustentável/preservacionismo eram coisas tão esquisitas como engravidar e não casar.) Assim, em dias que não havia “descarga na fábrica” suas águas eram límpidas e cristalinas, enquanto que nos dias de “descarga” tornavam-se negras ou marrons (conforme os resíduos descarregados.). Não se podia nadar nele. Limitava-me a explorar as matas em suas margens, ladeando-o quilômetros montante acima.

Já o outro ribeirão passava por trás da casa de “tábuas”. Sujo que só, mas não recebia tantos produtos químicos como o primeiro e era cheio de vida. Principalmente guarús, mas também lambaris, traíras e bagres. Era o que havia. Nele aprendi a pescar de peneira. Surrupiava a maior peneira de arame disponível na cozinha e em menos de cinco minutos já adentrava o seu leito que, no geral, raramente tinha profundidade maior que um metro.

Procurava os locais onde o capim crescia e se derramava sobre a água formando uma franja verde. Segurava a peneira fortemente, com as duas mãos e mergulhava por baixo do capim e a levantava rápido e verticalmente. Junto com lama e restos de vegetais sempre emergiam surpresos peixinhos. Raros eram os que tinham dimensões que os tornassem dignos dos temperos de minha mãe. Levava-os para casa, colocava-os em um vidro com água na expectativa que, assim como na natureza, viessem a crescer. Parece que não achavam muita graça nisso, pois morriam todos, no máximo até o dia seguinte. Fui um ictiocida.

Em 1964, aos 62 anos meu pai se aposentou da “fábrica”. Meu irmão mais velho (agora já segundo tenente do Exército), acho que com a ajuda também de minha irmã mais velha, comprou-nos uma casa em Lorena, cidade vizinha. Toda a tralha – movente e semovente – foi amontoada na carroceria de um velho caminhão de um conhecido, e lá fomos nós para a terceira casa de minha vida. Onde viveria minha adolescência.

 

Articulista José Carlos Sardinha

Comentários:

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.