Os colunistas sociais da manô de mil contrastes

Em 15 de abril de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Os colunistas sociais da manô de mil contrastes – Em 1967, quando a sandália havaiana ainda era japonesa, deu-se a chegada da televisão em Manaus. Apesar da imagem em preto e branco e dos filmes repetidos, era uma novidade sem precedente. Havia três modelos de TV (sem controle remoto) a disputar a preferência do consumidor: a comum – da minha casa era uma Hitachi 14” -, a máscara negra – com uma ante tela fumê, que nem a da minha tia Maria José Mesquita – e a “ colorida” – ante tela degradé, predominantemente azul, verde e vermelha – a mais cara.

A primeira estação repetidora – canal aberto – a chegar por estas terras de Arnaldo Santos, foi a TV Ajuricaba. Era afiliada da Rede de Emissoras Independentes (REI), sob a liderança da Record. A programação era tão escassa que um dos filmes da série Jim das Selvas, estrelado por Johnny Weissmuller – que também foi Tarzan –  passou umas mil vezes. Dessas reprises eu devo ter assistido pelo menos cem, tanto assisti que já sabia de cor todas as falas do Jim, do filho Skeeper, do seu fiel amigo Kassim e até os guinchos da macaca Tamba.

O que me fazia aguardar sentado na poltrona era o Peneira Ajuricaba, um programa de calouros que ocorria nas tardes de domingo. Três apresentações inesquecíveis: Cleomar, vizinho da minha Rua, irmão do Gualter, do saudoso Dominguinhos e do Kleber Santana, o Viking, resolveu arriscar o prêmio em dupla com seu amigo Jander. Em menos de um minuto foram “ buzinados”. Com medo das inevitáveis gozações ele tomou Doril e sumiu. Voltou depois de arrefecida a gana de nós todos. Outra foi um adolescente afro descendente – acho esse conceito idiota -, hoje um contumaz frequentador das missas de sétimo dia em todas as igrejas de Manaus. Era desafinado, mas sua figura no palco agradava. Parecia o Martinho da Vila aos treze anos de idade. Disso consciente, só escolhia as músicas do cantor e compositor da Vila. Cantava com o microfone preso ao pedestal a balançar seu tronco para a frente, dobrar os joelhos e jogar, no ritmo, os membros inferiores das pernas (canelas) para trás. Na semifinal cantou O Pequeno Burguês, no entanto não teve a felicidade de “passar no vestibular”. A última também era uma dupla, composta pelos irmãos Franklin e Hamilton. Por seis meses os caras ensaiaram, exaustivamente, a música Coruja, da dupla da Jovem Guarda Deny e Dino. Era parte da estratégia de apresentação Hamilton aparecer sozinho no palco, o irmão apareceria depois. Ao primeiro acorde ele soltou a voz, “ Corujaaaaa”… A cortina dos fundos se entreabriu e a cabeça do Franklin surgiu a complementar o primeiro verso da música: “ha ha ha”. Não deu para iniciar o segundo: “…o nome que eu dei àquele alguém…”. Em apenas dez segundos os irmãos foram buzinados, um recorde. Até hoje eles negam, dizem que foi onze.

Quando o quartel do Corpo de Bombeiros da cidade tinha seu endereço na Av. 7 de setembro, eu tentei escalar, através de um cabo de aço, a parede lateral do Teatro Amazonas. Estava completamente possuído pela ideia de assistir o estrondoso sucesso do Teatro de Revista “É Xique-Xique no Pixoxó”, de Walter Pinto. O padrão era de excelência, tinha requinte, glamour e deusas estonteantes em trajes insinuantes. Sonhava dormindo e acordado, queria ver as pernas desnudas das mais famosas vedetes brasileiras, não deu. Não consegui escalar, cai duas vezes e desisti. Meu consolo era imaginar que a surra que levaria do papai por chegar tarde em casa não compensaria a estripulia, eufemismo puro.

Quando as livrarias Escolar, Brito e Acadêmica disputavam a preferência do público manauara, os colunistas sociais de Manaus eram outros. Nonato Garcia era o nome do colunista Nogar, suas notas se trajavam de serenidade o que fazia da malícia um componente ausente. Despejava seus informes nas páginas do Jornal do Comércio, coluna intitulada “Convivência Social”.

“Entre os dois o coração da menininha balança: Renato Simões e Celso Graciano. Ela é a morenice bonita, Gracemar Abrahim. Ploft! ”. Sobre o ritmo paraense Carimbó ele escreveu: “ …para não dizer jamais ter ouvido nessas paragens, uma noite Luiz de Miranda Correa, Renato Andrade, este repórter e o Duque Duarte Pinto Coelho, fomos curtir as adjacências e nós entramos na Portland, um ambiente bandido situado na Avenida Rio Branco, a dois passos da Praça Mauá. O único lugar indecente que ouvimos Carimbó. E aqui pra variar. Cruzes…Sem essa Carneiro”. Esse era o estilo inconfundível do Gilberto Barbosa, o Gil. Gostava da ironia da sua pena, para mim o mais bem informado de todos, de tudo ele postava um pouco. Com a mesma desenvoltura frequentava gabinetes palacianos e reuniões em petit comité do high society, noticiava sobre política e não se furtava a dar palpites sobre economia. Atribui-se a ele a frase que até hoje melhor resume nossa maltratada capital: “ Manô de mil contrastes! ”.

“…A gente não gosta de ver mulheres luminosas e de elegância tão cantada dançando animadamente com cigarro na boca. Embora usando piteira, o gesto é pouco delicado chegando até mesmo às raias da vulgaridade. No Ideal, sábado passado o fato aconteceu. Chato né? ”. Essa era – e ainda é – a maneira Baby Rizzato de contar o que estava ou está em desacordo consigo ou com o que entenda por politicamente correto. Seu talento brotou na primeira metade dos anos 1970, penso ser ela a legitima – quiçá única – jornalista adepta do estilo consagrado por Gil.

No jornal A Notícia havia a prestigiada coluna “ Circuito Social”, me chamava atenção a qualidade do texto e forma de abordagem que seu responsável, o sempre educado Júlio César Seixas, o escrevia. Escrevia, mas não subscrevia. No dia 02 de abril último, César Seixas partiu para o infinito. Que Deus o guarde.

“ Stars only Stars” quem respondia era o competente Fábio Marque. Tal qual o título da coluna sugere, stars only stars da geração dourada na coluna pontuavam.

“Palmas, palmas, muitas palmas para conceituar o capacitado Dr. Hiram Caminha, que completou dez anos como Delegado do Tribunal de Contas da União”. “ Será às 19 horas de hoje, com coquetel, a inauguração do luxuoso salão de beleza – Jonys Cabeleireiro, lá na Rua Barroso. ” Tinha leveza os textos do saudoso Flaviano Limongi.

Betina, Veruska e Epami poucas vezes eu li. Na coluna da Marina Nunes desfilavam Marias, Glorias, Demostenes e Antunes. Já a Ana Maria blá blá blá tinha um estilo particular, em suas linhas noticiava gastos políticos, divulgava pessoas simples, jovens, idosos e até marajás.

Não dá para omitir o carisma do Carlos Aguiar e o público cativo que tinha a lhe prestigiar.

Elaine Ramos era especial.

O amigo Belmiro Vianez Filho, por um breve lapso de tempo, assinou a “Coluna do Bel”. Ele, linguagem e público tinham a juventude em comum. Noticiava os borbulhantes eventos sociais da cidade. A experiência vivida foi competente e exitosa.

Para cerrar essa caixa de reminiscências, o cronista e radialista social Luiz da Conceição Pinto, o Little Box. Foi colunista do jornal A Tarde, O Jornal, Diário da Tarde, A Gazeta e Estado do Amazonas, entretanto foi o programa radiofônico Night and Day que o notabilizou. Ia ao ar todos os domingos, às 19 horas, pelas ondas da Rádio Difusora. Admitia que devia seu êxito na carreira a Aristophano Antony, dono do jornal A Tarde; e que seu estilo era influenciado por Josué Claudio de Souza, jornalista e proprietário da Rádio Difusora. Em seu programa entrevistou embaixatrizes, consulesas, diplomatas e até o Rei Roberto Carlos. Para ele todas as mulheres eram belas e a todos tecia elogios, desconheço se nesta vida teve intrigas ou desafetos. Dizia que seu pseudônimo dava status e que a frase que mais o emocionou foi proferida por D. João de Souza Lima, então Arcebispo: “ Luiz, o amazonense tem três opções dia de domingo: ir à igreja, assistir ao futebol ou ouvir o seu programa”. Houve um domingo que eu fiz os três.

 

Articulista Lúcio Menezes

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.