Os campos de pelada e alguns peladeiros da minha rua

Em 6 de abril de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Em 1879, a Praça Uruguaiana foi dividida em dois lotes. O lote que conservou o mesmo nome é onde hoje se encontra a Praça Dom Bosco, o outro, que compreende a área que abrange o Colégio Dom Bosco e o Colégio Militar, passou a denominar-se Praça General Osório. Em 1937, o município concedeu a Praça General Osório ao comando da Guarnição Federal e ao 27º BC (Batalhão de Caçadores), para que ali fosse construído um estádio de futebol destinado à prática de educação física, tanto por militares quanto para civis. A inauguração do estádio deu-se em outubro do ano seguinte. Obvio que não havia nascido quando ainda era praça, mas como Estádio General Osório eu felizmente brinquei tal qual esse fosse “… do povo! Como o céu é do condor! ”.

E por falar em céu e condor, além do futebol, das competições de atletismo e do Festival Folclórico, como eu gostava de apreciar o tal do Evaldo e seus aeromodelos movidos a gasolina! Os aviõezinhos ficavam presos a um cabo com vinte ou mais metros de cumprimento e por ele eram competentemente manejados. As embiocadas daqueles pequeninos eram mais ousadas que as feitas por papagaio de famão.

Lá joguei e vi jogar futebol gerações de meninos da minha Rua¹, das proximidades do quadrilátero em que me criei ou de longínquos bairros. Pelejas realizadas no campo em sua dimensão oficial, nas suas metades ou na pista de atletismo pelo lado da Av. Epaminondas; “boleiros” calçados ou descalços camisados ou descamisados. E como havia moleques bons de bola! Em 1972, com a chegada do Colégio Militar, muros foram erguidos e tchau babau, quem brincou, brincou quem não brincou não brinca mais.

Mas as “peladas” não se restringiam tão somente ao General Osório, havia a calçada da Rua José Clemente, as quadras do Nacional Futebol Clube, Atlético Rio Negro Clube, SESC e Divina Providência; os campos dos Colégios Dom Bosco, Brasileiro e Estadual; do Bossa Nova ou Bosta Nova como costumávamos chamar o campinho onde hoje funciona um posto de atendimento da Manaus Energia, na Rua Dez de Julho, em frente a Santa Casa; o Mariuá, “Banho” do Seo² Edílío, pai do Evandro Farias; o “Banho” vizinho, do seu vizinho Seo Cordeiro; o Meu Cantinho, Muruama, Guanabara e Agrepo; o Formigão, campo da Rodoviária, local que hoje acolhe uma unidade do Corpo de Bombeiros; o Fale Baixo; o campo do Oratório Domingos Sávio na Rua Duque de Caxias; o Piquete, onde hoje está instalado uma unidade da PM na Rua Dr. Machado, Praça 14; o Aderoba na Rua Barroso, em frente a antiga Casa do Estudante, hoje um estacionamento da Lojas Bemol e, finalmente, o melhor de todos, o incomparável, o fascinante, mágico, encantador, o lendário  Ezagüi. Lá deveríamos erguer a Lupa Anguli (Loba da Esquina). Sim porque o Ezagüi da Lobo era a Loba que cedia suas tetas aos filhos adotivos, insaciáveis Rômulos de pés descalços e sujos de terra. Cada um a seu tempo a deixou e saiu a fundar sua Roma particular. Ficou o gêmeo e devasso Rêmulo´s – prostíbulo lá instalado – que permanece a suga-la em tresloucada devassidão.

Dos muitos que vi jogar, no “lendário” ou fora dele, não esqueço da irreverencia e criatividade do craque Octávio Rocha, o Baiano; o preciso passe e chute certeiro do seu irmão Flávio Augusto, o Papinha; a velocidade do outro irmão, o Geraldo Chapeleta e a inteligência do caçula Lauro César, o Botelho. Sobrepeso nunca foi impeditivo para o talento do Robertinho Caminha, o Barriga, um pivô e tanto; temperamento explosivo, condicionamento físico tinindo e gana por vitórias tinha o Bosco Spener, o Charuto, predicados que o levaram a vestir a camisa do Nacional Futebol Clube, o Naça. Demóstenes, Dedé, era rápido e perigoso; Pedro Russo era um “brincante”, mais lhe apetecia tripudiar sobre os adversários que objetivar a jogada, o João Galinha Preta padecia em suas mãos; o irmão Arnaldo, o Pepino di Capri, um goleiro arrojado. Aliás, lá na Rua, grandes goleiros não faltavam, difícil eleger o melhor, relaciono com distinção de safras: Douglas Lima, o Surubim, e Geraldo Lemos fizeram história nos campos e quadras; Zezinho (Vulto), seu irmão Franz; Carlinhos Baterista; Belmiro Vianez Filho, o Português – que às vezes se aventurava jogar na linha – e Chico Cordeiro, também deixaram um belo legado. O Fluminense da Rua teve: Humberto Breval, o Bebeto; Arkbal Sá Peixoto, o Bala; Luis Ângelo, o Dandinho; Paulinho Fiúza, o Cascata e Luiz Afonso Leite de Moraes, o Lulinha; Marco Aurélio, o Barrão, não jogou no Flu, mas tem boa fama também, todos moradores da Rua. Na zaga o Evandro Farias (Bambu), tinha estatura e boa vontade; Luiz Pé de Raquete, voluntarioso; Osvaldo Frota, clássico; os Cordeiro Evanilson (Nito) e Bosco (Boquito) jogavam bem, Zeca foi um zagueiro “raçudo”, mas o melhor mesmo era o Carlinho, o puto velho.  Ariosto Braga era arisco e rápido; com o Renato Fradera, o Pato, joguei no campo do José Nasser até o começo de 1992, quando decidi pendurar o tênis, um ótimo armador; Camilo Gil, o Camel, tirava todas pelo alto; Kleber “Viking”, um lateral direito de excelência; dos Corado, Dionizio deixou seu pé marcado na calçada da fama; Hugo, o Bodega, tinha uma patada de caprino; dos Lourenço, o Maurício e o Muni muito bem representaram a família no esporte bretão; dos Biváqua de Araújo, Frederico, o Borracho, deixava a pelota passar, mas o adversário não; Flaviano tinha categoria; Fábio levava jeito e Fernando o melhor, foi aprovado no teste realizado no Fluminense do Rio, jogou com o Toninho Baiano, o mesmo que fez história no Flamengo, mas seu pai, Olsen Alberto de Araújo, com receio que o filho cedesse ao feitiço carioca, mandou busca-lo. Perdeu o futebol carioca quiçá o brasileiro. Duas gerações mais tarde o Gilmar Popoca, que jamais pisou no solo sagrado do Ezagüi, fez isso pela Rua e brilhou no gramado do Maracanã a defender as cores do seu amado Flamengo. Égua da Rua!

Era um tempo de futebol clássico, romântico, gostoso, bonito, competitivo, muito melhor que essa coisa sem graça restrita a quadras e campos de grama sintética.

Quer saber? Enquanto esses oásis de lembranças dos meus olhos emoções pulsarem e da minha saudade lágrimas sorrirem, continuarei a exercer a liberdade de “viajar”.

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¹Com o R maiúsculo porquê representa o quadrilátero no qual fui criado.
²Prefiro a corruptela ao pronome possessivo.

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.