Os bares da cidade

Em 9 de setembro de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Os bares da cidade  “ …A minha vida boêmia de bar em bar…”, “ ...e eu vou levando minha alma aflita, à noite a cidade é tão bonita…”. A música Bares da Cidade do saudoso João Nogueira menciona os bares do Rio de Janeiro – Lamas, Capela, Luís e Amarelinho – os quais, imagino, faziam parte do seu circuito de birita. O meu era outro, percorrido e bebido aqui, na terra dos igarapés.

Não há hipótese de citar todos, mas discorrerei sobre aqueles que – aproveitando a sugestão do poeta e boêmio francês, Charles Baudelaire – escolhi para me embriagar, sem descanso, com campari, cerveja, uísque, caipirinha, batidas, rum, paqueras, amigos, encontros, estórias de bebedor, filosofia, poesia e virtude.

A melhor batida de frutas do mundo era a do Bar do Caxuxa, na Cachoeirinha. O sujeito podia pedir a fruta regional mais exótica, de A a Z, que lá encontraria. Tinha tamarindo, tucumã, pitomba, ingá, pupunha, mari-mari, murici, maracujá do mato, sorva, sapota, uixi…

Certa vez encontrei um conhecido, que decidira beber “de um tudo”. Naquela tarde descobrira que sua cabeça, há tempo, vinha sendo impiedosamente adornada por um par de “guampas”. À medida que bebia, mais falava dos atributos da Belle de Jour.  Quando saímos de lá fui deixa-lo em casa, ele bêbado a chorar e a vomitar; eu a imaginar a pérfida tão bela e desejável quanto a personagem Séverine Serizy, que no cinema foi interpretada por Catherine Deneuve. Pensamentos indignos também me ocorreram.

O Bar do Armando frequentei com irregularidade, ia mais pra comer queijo bola que sanduiche de leitão; ouvir as últimas da política local que confidenciar nova paixão; beber cerveja gelada que qualquer bebida destilada. Mais recentemente, quando o carnaval ainda me arrebatava, brinquei no camarote animado pela Banda da Bica.

Do Maca drinks era freguês de carteirinha, tanto na estrada do Aleixo, hoje Avenida André Araújo, quanto na cobertura do Palácio do Comércio, no centro da cidade. Ambiente, reportório e a voz do Maca eram os aperitivos; as frequentadoras, o prato cobiçado. E que cardápio perfumado era aquele! Calandre, Cacharel, Paco Rabanne, Chanel nº 5, Bond Street, Contouré, Topaze… Além do pó Cashmere Bouquet, é claro.

Barrica – que depois virou Senzala – ficava na Rua Duque de Caxias, colado ao posto de gasolina na esquina com a Rua Tarumã. O ambiente era acolhedor e as batidas de frutas sua especialidade. Quem me carregava pra lá era uma acreana pra mil talheres. Discreta, ela gostava da mesa que ficava na penumbra do cantinho, eu, de suas prendas.

A Choperia Signo´s, da família Falcão, tinha ótimos tira-gostos, música de extremado bom gosto e caipirinha no capricho. Eu listava as músicas que me interessavam; o baixinho que cuidava do som da casa as gravava em fitas cassetes e me vendia por um preço justo. Era a garantia de boa música a rolar no road star do meu Dodge Coupe. Às vezes atravessava a Rua Dr. Machado pra beber Chopp e comer bolinhos de bacalhau da Lobo´s.

Koka 2 era o nome do bar que ficava no posto de gasolina na Av. General Rodrigo Otávio, a mesma do sinistrado Shopping Cecomiz. Quando a noite já parecia perdida, baixava lá. Guerreiro que é guerreiro jamais desiste, aposta no encontro “por acaso” com alguma pequena “boiada”, dessas que vão à luta e, quando nada conseguem, boiam na frente da gente feito deusas vencidas.

Capitulo especial merece o Castelinho, hoje Miako. Invariavelmente às sextas-feiras, eu, Ariosto, Claudio Izel, Wilson, Manoel Ribeiro, Claudio Barros Gomes, Hamilton e Norton, despedíamo-nos das namoradas mais cedo, juntávamos as peças instrumentais e para lá íamos. Não creio que naquela primeira metade dos anos setenta tenhamos sido os pioneiros a cantar e tocar sem cachê, mas arrisco crer que no quesito bebida e tira gostos pagos pelos notívagos das mesas vizinhas, nós o fomos. Quanto mais bebíamos, mais cantávamos.  A harmonia e repertório agradavam e nós nos permitíamos fazer alguns trocadilhos, mudar nomes ou palavras, alterar algumas letras. Foi assim que a Portela virou Raimunda: “…Ah minha Raimunda, quando eu vi você passar, senti meu coração apertado todo meu corpo tomado, minha alegria voltar…”. Até Juca Chaves fazia parte: “ …só porque sou moço pobre, que vim vencer na capital, as moças pensam que já podem me levar pra cama, pra me fazer mal…” “…eu sofro de um complexo social, não sou mais virgem foi no carnaval…”. Íamos a outros mais, como o Telhadão, na Rua Japurá com Apurinã e a um boteco lá dentro do CEASA.

O Quatro Graus foi uma experiência exitosa do amigo Edson Gil, seu irmão Ernesto e o Fares Abnader. Funcionava de quinta a domingo onde hoje está instalada a Oana Publicidades. Eles queriam e conseguiram provar à Cervejaria Miranda Corrêa que a rejeição a Brahma, cerveja por ela distribuída, não era por conta do produto, mas em razão do serviço prestado nos bares. Era perfeito, tinha excelência no público, nas músicas, nos músicos, tira gostos e cerveja Brahma a quatro graus. Foram cem dias apoteóticos e, acredite, fechou por excesso de público. Uma pena!

Na fase universitária ia ao Pequeno Príncipe, Daniel das Codornas e Xorimã, nesses dois últimos eu e meu cunhado, Jeferson Garrafa, tivemos memoráveis papos filosóficos, etílicos e sentimentais.

Dos Bares da minha Rua frequentei o Natália, lá duas coisas se destacavam, o sanduiche de filé e o Ratinho, um garçom íntimo, figuraça. Por qualquer coisinha ele mandava, sem titubear, a gente “se fudereter”.

Balalaika recebia aqueles que se julgavam os melhores jogadores de dominó da terra.

Patrícia era o bar da comunidade gay, mas que todos, indistintamente,  frequentavam. Na maioria das vezes pra comer os acepipes do cardápio, noutras…

O Alex Bar, na Av. Getúlio Vargas com a Rua Saldanha Marinho, tinha frequentadores fiéis, eu ia esporadicamente. Andando mais um pouco e do outro lado da rua, ficava o Jaú, um boteco fuleiro, mas com público cativo, o carro chefe ali era cachaça. Atravessando a Avenida Sete de setembro, já na Rua Floriano Peixoto, canto com a Rua Quintino Bocaiúva, ficava o São Marcos, o famoso bar dos cornos. Foi o primeiro bar em Manaus a vender Chopp tirado do barril e servido em tulipas e canecas. Numa ocasião presenciei uma interminável discussão entre o Tonico e seu pai, o saudoso José Luiz, também conhecido como Cavalo de Aço por sua peculiar ” delicadeza”. Em alto e bom tom eles usaram e abusaram de vocábulos impublicáveis. Hilariante! O local que tinha a cara dos bares boêmios do Rio de Janeiro, infelizmente fechou.

Algumas vezes bati ponto no Castelo de Ouro, A Camponesa e Pérola da Visconde. Inúmeras vezes eu fui aos especialíssimos Ury´s; ao Noturno, do amigo Totonho Ausier; ao convidativo Calabar, na Rua Japurá; Beb´s, na Rua Leonardo Malcher; o saudosíssimo Mineirão, e mais Messejana, Consciente, Paulo´s Bar, Marreiro, Amarelinho Bar, Katekero… E o que dizer do único bar da Ponta Negra? Um chapéu de palha no ponto final da praia, isso antes da duplicação da pista, da construção do Hotel Tropical e da transformação daquele sítio em Complexo Turístico.

Égua! Melhor parar que eu to ficando é “bebo”.

 

Articulista Lúcio Menezes

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.