Onde andar em Manaus?

Em 13 de maio de 2016 às 17:10, por Gilson Gil.

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Um dos espetáculos que mais fascinava os escritores do século XIX, em plena efervescência da modernidade industrial, eram as multidões. Pensadores como Edgar Allan Poe, Victor Hugo, Emile Zola, Charles Baudelaire ou Walter Benjamin dedicaram muitas páginas de suas obras para falar do homem das multidões ou do hábito de “flanar” pelas ruas das grandes cidades.

Assinalei isso para falar de Manaus e uma de suas ausências: as pessoas que passeiam por suas ruas. Excetuando-se o Centro, que concentra inúmeros bancos, terminais de ônibus, lojas de atacado e varejo, entre outros tipos de serviços, e atrai grande fluxo de pedestres, os bairros de Manaus apresentam um espetáculo grandioso de vacuidade humana.

Bairros como Vieiralves, Adrianópolis ou mesmo o Parque Dez, com a honrosa exceção de sua rua comercial, não possuem viva alma caminhando (flanando, no linguajar baudelairiano). O mesmo cenário se apresenta em bairros centrais e urbanizados, como Dom Pedro, Alvorada e Chapada, com áreas residenciais consolidadas. As ruas comerciais, com seu varejo – informal, na grande maioria das vezes – ainda conseguem atrair transeuntes no horário comercial. Porém, as ruas residenciais mostram-se totalmente vazias de pedestres, desoladas em qualquer horário do dia ou noite.

Isso é estranho se compararmos com outras cidades grandes. Poderia falar do Rio, com bairros como Botafogo ou Copacabana, repletos de pessoas nas ruas 24 horas por dia. Mas fiquemos pelo exemplo nortista, que nos é mais próximo, e falemos de Belém, com as ruas apinhadas de pedestre em Nazaré, Batista Campos ou Umarizal.

As razões podem ser variadas. As calçadas são estreitas, a cidade cresceu horizontalmente em ritmo acelerado, o clima é extremamente sofrível – quente e úmido – a violência urbana se banalizou, enfim, são muitas as possíveis origens desse fenômeno. A falta de modais diversificados de transporte e a concentração de pessoas nos ônibus e carros também pode induzir a isso. Outro fato relativamente recente pode ter ajudado nisso: a construção de conjuntos e condomínios isolados e rodeados de muros e seguranças. A vida das pessoas se concentrou em seus condomínios, cada vez mais isolados, com suas academias, bares e churrasqueiras. O medo de ir às ruas faz com que enormes contingentes busquem viver a parte da cidade em geral.

Por outro lado, a inexistência de cuidados com as ruas e calçadas, problema que é dos governantes, mas também da sociedade, afasta as crianças, idosos, estudantes e mulheres de seus espaços comuns. Somente pessoas com obrigações profissionais severas andam pelas nossas ruas e vivenciam esses espaços. Retomando a comparação com Belém, Manaus não possui, em seus bairros mais populosos e “badalados”, uma árvore, um jardim ou área comum de lazer que justifique a existência de pessoas andando e trocando ideias e experiências, em grande contraste com sua vizinha amazônica.

São reflexões dispersas e pessoais estas. Porém, elas apontam para a necessidade de Manaus repensar seu modelo urbanístico, se é que existe algum ou alguma pretensão a possuir um, e seus vetores de desenvolvimento. Possuir ruas agradáveis, onde as pessoas caminhem livremente e possam se distrair sem constrangimentos ou sofrimentos, penso que deveria ser um objetivo de todos. E não creio que isso se limite a um plano de governo ou a propostas de candidatos. Deveria ser uma meta de todos os habitantes da cidade contribuir para sua qualidade de vida aumentar. Ruas infestadas de vendedores informais, cafés e ambulantes não são um ideal de urbe próspera e civilizada. A rua deve ser propícia para os moradores andarem, relaxarem, trocarem e se verem.

Seja pelos muros dos condomínios, pelas calçadas sofríveis e desprezadas ou pelo padrão de convívio que adotamos nos anos recentes, o certo é que a vida em Manaus poderia melhorar muito, caso suas ruas fossem mais humanizadas e socializadoras. Cidadania, qualidade de vida e democracia são palavras vazias, se não tomarem corpo e se tornarem um objetivo de todos os cidadãos. Viver numa cidade não é só trabalhar, voltar para casa e fazer um infalível churrasco aos domingos. É aproveitar seus limites e explorar suas potencialidades. O que, infelizmente, as ruas de Manaus não nos permitem atualmente.

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.