O vestibular de 1971

Em 14 de novembro de 2018 às 08:00, por Lúcio Menezes.

compartilhe

Em 1971 o arquiteto mineiro Severiano Mário Porto projetou sua própria residência, em Manaus, e ganhou menção honrosa do Instituto dos Arquitetos do Brasil-IAB. A casa construída na Rua Recife era um sonho, toda em madeira de lei, arejada, ampla, cercada de plantas e árvores por todos os lados. Tive o privilégio de conhecê-la, graças à feliz coincidência de ser colega de turma do Mário, filho do laureado, no Grupo Escolar Princesa Isabel. Durante a visita que a nossa classe fez àquela obra, os anfitriões adoçaram nossas bocas com o delicioso Guaraná Baré, o genuíno guaraná do Amazonas.

Na minha Rua não tinha nenhum arquiteto com formação acadêmica, provavelmente porque esse curso ainda não era oferecido pela Universidade do Amazonas – única existente por aqui – e, que eu tenha conhecimento, porque nenhum barezinho morador do quadrilátero se aventurou a cursá-lo fora de Manaus. Em compensação a Fábrica Baré Ltda – razão social antes de passar ao conglomerado AMBEV – situava-se na Rua José Clemente, nº 404, a uma quadra da minha casa. O amigo José Rocha publicou em seu prestigiado blog este informe publicitário da época: “Tome nota, nota tome. Não há nada como a fé, o homem fica mais homem quando toma Guaraná Baré”. Não tínhamos profissionais responsáveis por projetos, supervisões e execuções de obras de arquitetura, mas tínhamos um montão de “arquitetos de trotes”, estes, insuperáveis.

Desde aqueles tempos fraudes em vestibular já não eram novidade, um expediente sorrateiro que pirava as cabeças dos estudiosos de plantão. Anulavam-se as provas fraudulentas quando descobertas, já as denunciadas, mas não comprovadas ou investigadas devidamente, bem, essas tornavam a contenda covarde e desleal. Tínhamos uma Universidade, vagas limitadas e os filhinhos de papais a “roubá-las”, inaceitável! Diante daquele cenário os “arquitetos de trotes” Pedro Russo, Arnaldo Melo, Robertinho Caminha, Bosco Spener, Ignácio de Loyola, Teófilo Mesquita, o “Baré”, Evandro Farias e os irmãos Octávio, Papinha e Regina Rocha, decidiram que a Catedral Metropolitana de Manaus – Igreja de Nossa Senhora da Conceição, matriz da cidade – estava a necessitar “ofertas” de extra ofertório.

O Vestibular de 1971 prometia ser um dos mais concorridos e difíceis, quer pela perspectiva de dificuldade das questões; quer pela concorrência e a gana de cada um; quer pela ameaça de fraude. Havia grupos de estudantes que varavam as madrugadas a estudar, a consumir livros, fórmulas e litros de café e guaraná Baré. O grupo do Dudu Monteiro de Paula, por exemplo, era o mais numeroso; o da Tônia Seixas agregava os socialites e o do Fernando Buchacho, os destemidos de Manaus. Dá pra imaginar a ira armazenada em cada um deles? E as noites não dormidas? E a negrura das olheiras que os fazia parecerem ursos panda? Era esse público ávido o público alvo dos “arquitetos”.

Quando as onze badaladas anunciavam o fim dos “namoros de porta”, ou quando os namorados ouviam as vozes paternas a convocar as “santas” filhas para os sonos dos anjos, eles se retiravam com as “barracas armadas” a dar cascudos nas canelas ou a se agacharem para desfazê-las. Chegava um após o outro naquela que viria a ser a cúria da recém-criada “Central da Bondade para o Caixa da Catedral – CBCC”, no térreo da casa do Papinha, Octávio e Regina Rocha, também na Rua José Clemente. Àquela altura os “arquitetos” já haviam elaborado as provas e assim que o conclave estivesse completo disparar-se-iam os telefonemas para as casas que reuniam cada um dos tais grupos de estudantes.

Às vésperas de cada prova um telefonema informava onde os grupos deveriam recolher a prova, na maioria das vezes na carroceria dos caminhões da Fábrica Baré, estacionados no lado oposto da fábrica, no meio fio da calçada compartilhada pelo então Tribunal de Justiça e Santa Casa de Misericórdia. O sexto caminhão era o preferido, pois dele se guardava a melhor distancia para identificar, desde o Restaurante Central com suas luzes apagadas, cada um dos carros e seus ocupantes. Bem compara o Robertinho Caminha quando diz: “à meia-noite Manaus virava Mônaco”. Os carros chegavam a velocidades de Fórmula 1. Com a prova de araque nas mãos os veículos, como que a fugir do flagrante delito, se mandavam em arranques desproporcionais. Não havia hipótese de contenção de gargalhadas a acordar os moradores do nosso Principado. No dia seguinte, nova prova novo trote, novas gargalhadas.

A genialidade do Pedro Russo era tamanha que Robertinho, Arnaldo Russo e Papinha tornaram-se seus alunos. Imprescindível relatar que as questões e dicas repassadas para os três vestibulandos eram escritas e distribuídas nos guardanapos de papel do Restaurante Central.

No dia seguinte ao trote a CBCC aguardava, ansiosamente, a notícia se as mães dos estudiosos haviam ou não feito os depósitos das “ofertas” de extra ofertório nas caixas da Catedral Metropolitana de Manaus. Tio dos irmãos Rocha, Paulo “Jaburu”, obreiro da Igreja, testemunhava a contagem do extra ofertório; extasiado e sem desconfiar que servisse de “jaburu correio”, gritava para que todos ouvissem: É UM MILAGRE! É UM MILAGRE! DONA JOVILHA É UM MILAGRE! SEO DOMINGOS RUSSO É UM MILAGRE! SEO CRISTÖVÃO É UM MILAGRE! A Igreja, que passava por sérias dificuldades financeiras, agora tinha um milagre a testemunhar.

A penúltima prova era de Conhecimentos Gerais. Para dar uma pitada de humor – jamais suposta pelos estudantes – elaborou-se a seguinte questão: Qual o nome do Marquês de Pombal? A) Sebastião José de Carvalho e Melo; B) Joaquim José da Silva Xavier; C) Fernando António Nogueira Pessoa; D) Armando Aguiar de Souza Cruz. Há quem diga ter visto uma das vestibulandas do grupo socialite a desprezar a letra A e decorar a opção D, Armando Aguiar de Souza Cruz. Seo Armando era despachante e morador da Rua 24 de maio, pai do Armandinho e da Ivana, esposa do Patuca, irmão do Robertinho Caminha. Por cultivar bem cuidadas suíças, ganhou o apelido de Marquês de Pombal.

A última prova era de Matemática, Pedro Russo já sem saco elaborou apenas 25 das 50 questões de praxe. Coincidentemente a equipe ou o sujeito que fez a prova original parece ter experimentado a ausência de saco e também optou por 25 questões. Bingo! Isso cunhou de autenticidade as maravilhosas e miraculosas provas. Acredite: Ramayana, que de namorado tornou-se esposo da Regina Rocha e o Evandro Monteiro de Paula, irmão do Dudu, marcaram a sequencia do gabarito “abençoado” e passaram na cabeça. O peso nas consciências motivou os “arquitetos” a cotejarem a ordem sugerida aleatoriamente nos gabaritos troçados com o gabarito original, resultado: média 7.8; mais que suficiente para passar.

Resumo da ópera:

– As informações contidas nos guardanapos de papel e a renitência dos estudantes Papinha, Robertinho e Arnaldo Russo renderam-lhes média nove e, consequentemente, as vagas asseguradas na Universidade do Amazonas;

– Os que confiaram nos gabaritos dos “arquitetos de trotes” conheceram o quão doce é beber guaraná e passar no vestibular;

– A Catedral testemunhou um milagre e equilibrou suas finanças; e, finalmente,

– O ano de 1971 registrou o menor índice de filhinhos de papais aprovados no vestibular.

Incontestavelmente houve a intercessão de Nossa Senhora da Conceição; o Paulo “Jaburu” não exagerou, operou-se um milagre; a Rua, a turma e as nossas histórias e estórias, são uma benção.

Comentários

sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.