O velório do seo Garcia

Em 6 de dezembro de 2018 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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É sabido que o lado esquerdo e direito do nosso corpo não guardam simetria, são mínimas diferenças que, na maioria das vezes, só nós conhecemos. Não era o caso. Sua calça de pijama comprido, por mais frouxo que fosse não conseguia disfarçar o volume a denunciar a hérnia inguinal instalada no interior de sua bolsa escrotal. A visão assustava, penalizava e me levava – menino -, a dois pensamentos recorrentes: “coitado do seo Garcia!” ou “será que quando eu crescer o meu vai crescer também?”.  Esteticamente o que vulgarmente conhecemos como rendido é um bocado feio.

Confidencia: ovo pequeno para mim só de codorna, galinha, pata e quelônio, esse último preferencialmente cru mexido com farinha e açúcar (arabu); ovo grande nem de Páscoa.

Ele era meu vizinho, três casas separavam a minha da dele: a casa do João “castor” e do Mário “Telê” – mais tarde do desembargador Carlos Alberto-; a da família Maués -isso antes das famílias Frota, Moraes e Oliveira-; e do comércio de cereais dos irmãos Ratto, os portugueses Manoel, José, Moreira e o primo Joaquim, todos sobrinhos do seo Antônio, dono da casa em que eu morava, das duas outras antes referidas e do Restaurante Central, na rua José Clemente. Depois aquele endereço passou a ser da Gráfica Rex, hoje não sei, carece conferir.

O bom Garcia aparentava acumular muitos anos de existência, seus cabelos eram brancos qual seiva da seringueira; o lento caminhar denunciava os anos vividos; o calmo temperamento informava que o ímpeto da juventude arrefecera. De sua janela, sentado na cadeira de embalo, ficava horas a olhar contemplativamente para a calçada, a rua e o paredão da Santa Casa. Do que dele lembro dois momentos foram marcantes e bem distintos: quando seu endereço ganhou vida, graça, cor e beleza com a chegada das suas belas netas, as paraenses Marlice, Margareth, Mariângela e Rosalice; e a tristeza que se instalou quando o Mestre o convocou para o andar superior.

A morte essa coisa medonha e indesejada é a única visita que não nos faltará, às vezes chega cedo às vezes mais tarde, mas não falha, de nada adianta fechar a porta, fingir que não tem ninguém em casa ou que ela já passou e nos levou; essa ladra mal educada conhece todos os nossos segredos e não se deixa aprisionar; não precisa de chave, não pede licença, não avisa dia nem hora, simplesmente chega e nos sequestra; não aceita nem pede resgate, leva-nos os sonhos, rouba-nos o bem mais precioso, arranca-nos do plano que não queremos deixar – plano que teimosa e estupidamente humano, desejamos seja eterno. A despeito da longevidade do seo Garcia, avô do Mário Garcia, irmão das meninas de Santa Maria do Grão Pará, sua família naturalmente ainda o queria por aqui.

A “sepultura eclesiástica” é um ritual que consiste no padre rezar publicamente pelo defunto, encomendar-lhe a alma, benzer a sepultura e outros procedimentos. Os familiares do meu vizinho foram surpreendidos com o recado do padre da família que não iria ao velório porque havia exagerado nos cálices de vinho e não estava apto a fazer o quatro, quanto mais o sinal da cruz. Havia, portanto, o risco iminente de ele rezar o padre nosso tão bem quanto a Vanusa cantou o Hino Nacional na Assembleia Legislativa de São Paulo.

Os “cafajestes” da Rua, Marcelo Castro Lima, Evandro Farias, Bosco Spener, Arnaldo Maués, Pedro Russo, Jacinto, Roberval Loureiro, Chico Auzier, Raimundo Moreira, Arnoldo Corado, Arnaldo Melo, Claudeniz Chistophoro, Mário Carminé e Luiz Bezerra de Menezes, meu pai, bons samaritanos e fidelíssimos à mensagem contida na parábola bíblica onde Jesus orienta seus discípulos a amarem ao próximo como a si mesmo; ao saberem da presepada do padre da família Garcia, decidiram em consenso, que deveriam prestar a derradeira homenagem ao velhinho querido: o morto receberia sim a reza e sua alma seria encomendada por um padre. Convocou-se às pressas o Paulo Rocha, o nosso Paulo Jaburu, aquele que, em dias especialíssimos, se transformava em Irmão Rogério de Pedro e Paulo.

Ele se entusiasmou com a ideia, especialmente porque realizaria o sonho de ser padre por um dia e ainda incorporaria ao seu patrimônio uma “doação” dos “cafajestes”. Jaburu garantiu que conduziria o rito impecavelmente – como se aquele ato, aos olhos da religião que professava, não fosse pecado-, que rezaria e encomendaria a alma do ex-vivo com competência clerical. Contaminado pela ideia e para dar realismo, partiu para o surrealismo ao apresentar aos “cafajestes” as vestes do cônego Walter Nogueira que a ele confiava como a quem confia um segredo de Estado, a lavagem e guarda de suas indumentárias. Cônego é o presbítero que vive sob uma regra que o obriga a realizar as funções litúrgicas mais solenes na igreja catedral ou colegiada; noves fora as exceções, o cônego usa murça preta ou cinza sobre sobrepeliz e batina, o que ele não pode é se vestir qual bispo.

Habemus padre. Após o aprontarem, os “cafajestes” foram na frente até a casa dos Garcia esperar o cônego jaburu chegar. Ele foi recebido pelos amigos e conduzido até a sala da casa onde o corpo estava a ser velado. O “especialista” em rito de “sepultura eclesiástica” fez tudo conforme manda o figurino: rezou terço, encomendou a alma e, empolgado, extrapolou: distribuiu hóstias, beijou e abençoou quem dele se aproximou, especialmente as velhinhas beatas e os presentes mais emocionados com a perda do bom Garcia.

Os familiares conheciam o Jaburu, ele era amigo do privado de vida, sabiam que a sua “atuação” era, principalmente, para dar satisfação aos católicos fervorosos que por certo comentariam a falta do rito como um pecado abominável que comprometeria a passagem do passageiro ao Reino de Deus.

Muitas foram as vezes em que seus parentes, como se portadores de incontinência urinária, visitaram o banheiro para rir, alguns riram além da conta, até verterem xixi. Definitivamente o jaburu tinha talento artístico, mandou melhor que muitos sacerdotes.

Para dar verossimilhança contratou-se um “carro de praça”. O motorista deu uma volta no quarteirão e deixou o cônego jaburu no Brasil Bar, na esquina da Rua Dez de Julho com a Avenida Epaminondas, atrás do 27º BC, posteriormente GEF, hoje Colégio Militar. Com os bolsos recheados, fruto do acordo prévio, Paulo trocou a hóstia sagrada por um sanduba de leitão e a água benta pela água ardente.

Se Deus escreve certo por linhas tortas, aquele cônego torto fez a coisa certa, foi perdoado e o bom Garcia recebido qual são recebidos os bons – assim dizem, de forma distinta, as diversas religiões e igrejas da cristandade que têm na vida após a morte sua esperança maior.

O querido e inofensivo Paulo também já embarcou, a julgar por sua devoção e pelo prisma cristão antes citado, por certo teve ótima acolhida. O tio do Papinha, eu creio, é membro do Comitê de Recepção Celestial e, também creio, usa alvas vestes.

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.