O Mundo, o Amazonas e o Brasil

Em 15 de maio de 2019 às 09:58, por Gilson Gil.

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A jornalista Miriam Leitão cruzou e o ministro Paulo Guedes entrou de cabeça: jogou o Amazonas e sua valiosa Zona Franca contra o Brasil “Amazonas x Brasil”. A revolta de intelectuais, políticos, analistas, economistas e demais interessados foi enorme aqui, em Manaus.

Amazonas x Brasil

Grande parte dos comentários locais transformou a questão em um Fla x Flu decisivo. O Amazonas contra o Brasil. Foi assim que a maior parte dos analistas trabalhou essa fala do ministro. Este é um problema antigo. As isenções e subsídios da Zona Franca incomodam certos nichos empresariais, especialmente em São Paulo. Há uma tradicional queixa contra o PIM (Polo Industrial de Manaus), que é encabeçada por órgãos de imprensa, como a Folha de São Paulo que, de vez em quando, na falta de outras manchetes, retornam a esse tema.

O que me proponho a refletir é que esse problema geralmente é visto como um confronto: Amazonas x São Paulo; Amazonas x Brasil; PIM x FIESP etc. Penso ser mais do que a hora de nossas elites (intelectuais, empresariais, econômicas, entre outras) conceberem o tema por outro aspecto. Em vez de uma briga, penso ser hora de mostrar como o PIM se integra a um projeto de Brasil. É interessante ver como o PIM está inserido em um pacto federativo, no qual os diversos estados e regiões buscam seu espaço, com papéis definidos e complementares.

É relevante estudar de que maneira esses subsídios são essenciais para a Amazônia, ultrapassando os limites amazonenses. A questão dos impostos e da relação que possuem entre o estado e a União é vital também. Da mesma forma, a relação entre o PIM e o meio ambiente não pode se perder de vista. Porém, creio que não se pode apenas colocar esse assunto na forma de uma “chantagem ambientalista”: “se acabar a Zona Franca, a floresta vai ser devastada”, como vários comentaristas locais defenderam. O Amazonas, todavia, não pode virar um chantageador do Brasil. Isso seria perder o foco da discussão.

A realidade econômica viável é o PIM

É certo que temos de buscar alternativas econômicas. Contudo, a acomodação política e intelectual perdura há uns cinquenta anos. Não há indícios concretos de que iremos despertar agora, em curto prazo. Há tênues sinais de fumaça no horizonte, nada mais do que isso. Por isso, a realidade econômica viável é o PIM. Não podemos abandonar isso. Economia e desenvolvimento se fazem em escala. Somente o PIM, atualmente, pode gerar isso para nossa economia.

Enfim, é importante destacar que o Amazonas não é uma ilha. O PIM não é um pedaço de Marte. Ele está no Brasil, na Amazônia e na América Latina. Os debates precisam retomar essa inserção do Amazonas nas grandes correntes econômicas globais e nacionais. Chantagens ou ameaças não irão fazer efeito. Em termos numéricos, nossa bancada é pequena.

Não creio que outros estados da Amazônia venham morrer pelo nosso PIM. Esse tipo de confronto não fará bem ao PIM nem ao Brasil. É preciso mudar o paradigma dessa questão e a maneira de trabalhá-lo. Estamos inseridos na economia nacional, das mais diversas maneiras, sem falar na mundial. É hora de ampliar e aprofundar o debate. Sem brigas desnecessárias ou bravatas.

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.