O mano Dão era bom em tudo

Em 1 de novembro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Entre os civis minha melhor recordação é do “Seo” Dias, professor de matemática, solteirão, elegante ao vestir-se, falar e ministrar aulas. Adorava futebol e nos incentivava.

De início eu e meu irmão Wellington, dois anos mais velho e codinome doméstico, Dão, sentimo-nos um pouco deslocados. Acho que nossos modos e vestuário de alguma maneira denunciavam nossa origem humilde, éramos estranhos no ninho, condição ressaltada quando vinham nos perguntar se ali estávamos por conta de alguma bolsa de estudos ou ato caritativo de alguém.

As pessoas de bem usavam calça Lee, relógios Seiko, camisa de botões nas golas, babados nas mangas e no peito. Tudo carregado de flores coloridas ou vermelho berrante. Roberto Carlos já tinha aposentado seu “Calhambeque”, atropelado meio mundo na “Rua Augusta” e naquele inverno queria que tudo o mais fosse para o “Inferno”. Chico Buarque desfilava sua “Banda” e Jorge Ben explicitava o “Patropi, abençoado por Deus e bonito por natureza”. Os jovens dirigiam fuscas rebaixados e envenenados, acelerados por pés calçados por botinhas de salto alto como as dos Beatles. Nos dedos anéis feitos de “brucutu”, que vinha a ser uma pequena peça metálica que revestia a saída do jato d’água para limpeza de para-brisa, de fusca.

Bebia-se Cuba Libre e dançava-se o “iê-iê-iê”, chacoalhando a cabeça com tanto vigor como se o cérebro necessitasse de um tranco para pegar. Fumar era de bom tom e acender os cigarros com isqueiro Ronson melhor ainda. Rescendia-se a Lancaster.

Cabelos, obviamente tinham que ser compridos, coisa que nosso pai não queria nem ouvir falar. Sem esses atributos tivemos que criar nosso espaço de outra maneira. Ele e eu éramos bastante respeitados no futebol e no ping-pong.

O nosso amado Santos Futebol Club, de 1966, era uma maravilhosa máquina de jogar futebol. Claudio, Carlos Alberto, Ramos Delgado, Djalma Dias e Rildo. Clodoaldo e Negreiros. Manoel Maria, Toninho, Pelé e Edu. Joel Camargo, reserva de Ramos Delgado (que era argentino) era titular da Seleção Brasileira. Um luxo só! Vigia então o famoso tabu, em que o Corinthians não conseguia ganhar de forma alguma do Santos. Rivelino estava iniciando sua carreira. Dão era mais forte e mais competente que eu nos campos e quadras. Aliás, também tirava notas melhores que as minhas, no geral. Acho que só o superava, de vez em quando, porque redigia melhor e desenhava. Uma vez recebemos a tarefa de desenhar o mapa das Américas. Fiz o meu, colorindo cada país com uma cor e ao centro designando o nome das respectivas capitais. Terminei o meu e ele ainda não tinha iniciado o dele. O prazo dado foi escoando e ele não se mexia. Talvez uma ponta de orgulho o impedisse de pedir socorro ao irmão menor. Na véspera do prazo final ofereci-me para fazer a sua tarefa. Aceitou de pronto e pus-me a trabalhar. Era coisa fácil para mim. Diferentemente do meu próprio mapa, onde não tive esse cuidado, no dele, resolvi situar Brasília em sua posição correta. Recebeu nota dez e eu nota seis. Na mesma época ele foi guindado à seleção de futebol do colégio e eu rebaixado. Pra fechar o ciclo com chave de ouro, em um torneio de ping-pong, por duplas, ele optou por associar-se com outro colega. Minha dupla perdeu para a dele na final. AARRGGHH!!!

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.