O lugar

Em 21 de abril de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Piquete fica no Estado de São Paulo, entre as serras da Mantiqueira e do Mar, no vale criado pelo Rio Paraíba do Sul. Tem por epítome a singela expressão de “Cidade Paisagem”. Seu modesto casario, à época ocupado por cerca de 10.000 habitantes, distribui-se por incontáveis encostas e pequenos vales, alinhavados por estreitos “ribeirões”. Clima pelo geral ameno, com invernos e verões por vezes severos. Flora e fauna típicas da Mata Atlântica. Seu nome derivaria de um piquete de cavalaria que aí teria existido lá pelos tempos do Império, algo como um local onde as tropas, que se deslocavam a cavalo ou burros para Minas Gerais, pudessem descansar e fazer as mudas necessárias. Fronteirava-se em São Paulo com Lorena, Cachoeira Paulista e Cruzeiro. Itajubá seria a cidade mineira mais contígua.

Vivia-se essencialmente de atividades agropastoris, um pouco diferente do que teria se dado com as demais cidades do Vale do Paraíba, no século anterior. O plantio de café nunca foi muito forte aí, tendo nossos fazendeiros optado mais pela criação de gado leiteiro. Em 1909 o Exército implantou na periferia do município uma gigantesca fábrica de pólvora (ufanissimamente nos ensinavam que era a maior de toda a América do Sul), que daí por diante seria a principal atividade geradora de emprego e renda da cidade, com notória influência microrregional.

Jamais conheci a casa onde nasci, sei que nas conversas do dia-a-dia a denominavam de a “casa da usina” e que ficava em um sitio de rara beleza. Entre os anos 1956 e 1962, minha família habitou o que no jargão doméstico seria a “casa do calipeiro”. Situava-se nas bordas de uma gigantesca plantação de eucaliptos (daí a corruptela “calipeiro”), primeira grande ação de reflorestamento que tive contato. Como a fábrica de pólvora era movida basicamente por vapor, consumiam-se quantidades bíblicas de madeira, o que seria substituído posteriormente por carvão. Por ser tabagista de longas décadas meu nariz tem pouca valia, mas o cheiro de eucalipto ficou impregnado em minha memória de forma indelével.

Pelos meus padrões de hoje, seria uma casa minúscula. Quatro pequenos quartos, um banheiro, uma cozinha e uma sala. Tudo “pititiquinho”. Mas quanta coisa cabia nela! Catorze pessoas. Nove homens e cinco mulheres. Meu pai e minha mãe, meus sete irmãos e minhas quatro irmãs. E se aparecesse alguém mais (nem precisava avisar com antecedência!) dava-se um jeito. Dividíamos camas, cobertas, pratos, talheres, toalhas e roupas. Nosso quintal era o mundo. Sem cercas ou muros, gatos, cachorros, patos, galinhas e até um eventual bacorinho, transitavam livremente pelos cômodos da casa (para o horror, é certo, de minha irmã mais velha!). Cozinhava- se num fogão à lenha os citados bichinhos e as verduras plantadas nas proximidades.

Não tínhamos vizinhos próximos. As casas mais imediatas distavam algumas centenas de metros ou mais. Mas, parecia-me que todo mundo passava por nossa porta, não me recordo de conflitos ou desavenças significativas. Meus pais e irmãos pareciam ser amigos de todos e com todos tinham sempre algo aparentemente agradável para tratar. Não raro recebíamos visitas, primos, tios ou simplesmente conhecidos de longa data. Sem transporte coletivo, chegavam de cavalo, charretes ou, o que era mais frequente, a pé. Sem causar constrangimento aos visitantes, minha mãe e irmãs tratavam de, sub-repticiamente, fazer um inventário da comida disponível. Se necessário, matava-se um franguinho ou um pato, colocava-se mais água no feijão ou um dos “moleques” (um e nós) corria aos vizinhos mais próximos em busca de uma xícara de arroz ou açúcar suplementar. Sabíamos, serenamente, que se o caso fosse  contrário, seríamos recebidos da mesma forma.

Por volta de meados de 1962, meu pai fez um acordo (do qual nunca entendi claramente a motivação) com um tio, irmão de minha mãe, e trocamos de casas. Eles vieram para o “calipeiro” e nós fomos morar na casa “de tábua”. No inicio foi um horror. Recordo-me de algumas de minhas irmãs extremamente indignadas e resmungando pela casa. Cheguei a ver um pequeno texto, redigido por uma delas, designando a pobre casa como “inferno de tábuas”. Quente, com um minúsculo quintal, sem árvores, cercada de muros e vizinhos desconhecidos, próximo ao hospital local, numa rua estreita e asfaltada, no centro da cidade. Mas no final não aconteceu nenhuma revolução e tudo se ajeitou, até que em dezembro de 1964 nos mudamos para a cidade vizinha de Lorena.

A “casa de tábua”, pelo menos para mim, com o tempo revelou ter seus encantos. Era colada ao “lenheiro”, um grande galpão e terreno igual, onde armazenava-se a lenha que seria consumida pelos fornos da grande padaria mantida pela Fábrica de Pólvora, que daqui por diante será chamada simplesmente de a “fábrica”. Acho pertinente, pois além de não me lembrar de qualquer outra fábrica no município, ela era determinante em praticamente todos os momentos da vida da maioria dos piquetenses.

Parecia-me não haver vida para além da “fábrica”! Esta padaria e a “cantina” (um grande empório também mantida pela “fábrica”), distavam menos de cem metros da “casa de tábua”. No “lenheiro” ainda havia um forno para torrefação de café, que nos brindava, casa a dentro, com um aroma extremamente agradável. Mas o melhor mesmo, é que bastava atravessar a rua em frente à casa para adentrar-se ao estádio de futebol da cidade, sede do glorioso Estrela Futebol Clube.

 

Articulista José Carlos Sardinha

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.