O glorioso ano de 1962

Em 31 de maio de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Nunca joguei bola enquanto moramos na casa “do calipeiro”. Ela estava encravada, literalmente, na encosta de um morro.  À frente descia-se quase que abruptamente em direção ao Ribeirão da Fábrica e a várzea, quase um brejo, que o margeava. Por trás ascendia-se a um morro quase vertical. Nada era plano, a possibilitar, minimamente que fosse, um campinho de “peladas”. Meus primeiros contatos com futebol, se assim se podia chamar aquilo, foi no primeiro semestre do primeiro ano escolar. Com sete anos, portanto.

Meus irmãos não me levavam para suas “peladas”, que eram em campos mais distantes. Olhando retrospectivamente, o que se jogava na escola era uma coisa caótica, sem regras, com quantos jogadores coubessem no pequeno campo de terra. Sem traves, juiz e com bola de meias, que se desmilinguia no decorrer do jogo. Podia-se passar todo o jogo, que durava até o soar da sineta chamando para as aulas, sem SE tocar na bola. Minha imagem mais nítida daquele estranho esporte era a de dezenas de moleques sujos de suor e poeira, todos tentando, ao mesmo tempo, meter um pedacinho do pé que fosse, na torturada bola de pano. Gol era um evento raro.

No segundo semestre do glorioso ano de 1962, nos mudamos para a casa “de tábuas”. Aí o bicho começou a pegar. A proximidade com um campo oficial de futebol possibilitou-me assistir aos treinos dos profissionais. Entender a importância e o papel de cada jogador em suas respectivas posições. Havia ainda ali numerosos resquícios dos anglicismos que foram muito prevalentes na crônica futebolística brasileira por muitos anos. Assim, dizíamos “half” ao invés de lateral, ”back” em lugar de zagueiro. O mais pomposo era “Center four”, o que me empurrou para jogar no meio de campo.

Meu grande ídolo no futebol local era meu irmão mais velho. Sem grande estatura, acho que um tiquinho roliço, fazia defesas espetaculares. Adorava assisti-lo jogar, ficando imediatamente atrás de sua trave. Lembro-me ainda do Daniel, um mulato claro, zagueiro central classudo e de técnica refinada. Não dava chutões, desarmava os atacantes adversários quase sem fazer faltas e saia jogando com extrema simplicidade. Televisão era coisa raríssima em Piquete, àquela altura ouvíamos futebol pelo rádio. E por este veículo acompanhei, junto com todos da casa, a Copa do Mundo de Futebol de 1962. Sem ver, ficava imaginando os dribles endiabrados de Garrincha, a coragem suicida de Amarildo, a elegância de Didi, a garra de Zito e as “pontes” miraculosas de Gilmar. Pelé, mesmo depois de machucado, era o Deus que dominava este Olimpo.

Com 40 milhões de desdentados, o Brasil desta época era bi-campeão mundial de seleções no futebol. O Santos (de glórias mil) era bi-campeão mundial de clubes, Maria Esther Bueno arrasava em Wimbledon, Eder Jofre era campeão de mundial dos pesos leves. Éramos bi-campeões Mundiais de basquete!! Manoel dos Santos (que nome bem brasileiro! Nada de Cielo ou Xuxa.) tinha batido o recorde mundial dos 100metros nado livre. Nelson Prudêncio e Ademar Ferreira da Silva – do salto triplo – eram reconhecidos por qualquer moleque nas esquinas de Istambul ou Estocolmo. Era delicioso folhear as páginas das revistas “O Cruzeiro” ou “Manchete”, saboreando os feitos esportivos dos brazucas no exterior.

 

Articulista José Carlos Sardinha

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.