O escultor da cidade

Em 21 de junho de 2016 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Hoje, quase todos reconhecem ser a cidade mais que um aglomerado de matéria, que possui múltiplas faces, algumas mais transitórias que outras. Um constante modificar, tal qual as águas do rio que passaram pelo pensamento de Heráclito. Nova a cada instante, mas carregando sua origem, ela vai sendo transformada. Além do tempo e do meio ambiente, são os usuários os seus verdadeiros escultores. Começando pela escolha da localidade e o uso que se pretende fazer de sua paisagem. Traçam um perfil que reflete suas vontades e verdades. Ainda que, em geral, as pessoas se eximam dessa responsabilidade, acusando a atuação dos grupos de interesse, os especuladores e o pulso forte do Estado. Mesmo assim, a história das cidades que sofreram radicais e autoritárias transformações, atribui um relevante papel à resistência popular: manifesta de forma alternativa, apropriando-se dos projetos impostos e preservando aspectos da tradição.

Ainda no século XIX, Marx mostrou que a sociedade da mercadoria tudo dilui, numa fome insaciável, num eterno substituir. Inspirado nessa observação Marshal Berman escreveu ”Tudo que é sólido desmancha no ar”, mostrando e criticando as transformações urbanas do XIX. Hoje, os fatos apontados por Marx são mais contundentes, e as cidades, ainda que maiores e estão cada vez mais frágeis, reduzindo ainda mais a proporção de seus habitantes. Parece insano, mas é esse o sistema eleito, o processo escolhido. Caso não seja ingenuidade da ganância, deve ser a mais pura perversidade da sociedade.

De novo o nosso tempo tenta vestir a cidade com nova roupagem. O processo pode soar natural, se lembrarmos que já não se usa calças de tergal, camisas “Volta ao Mundo” ou brilhantina “Glostora”, nem usar calça justa é coisa de “fi-fi”. Ainda que eu morra de saudade daquele macacão e a sandália de pneu. Quem entre vocês continua a fazer suas compras no Mercadão? Quem arrisca passear nas praças do centro no sábado à tarde? Me digam quem há dez anos atrás, se aventurava a fazer Cooper à noite na Ponta Negra? Quem mora em casa e tem biribá no quintal? Tudo transforma em outra coisa, forja-se novas relações, estabelecendo comodidades e outras necessidades, retirando de nossas vidas, hábitos e vinculações que pareciam essenciais. Somos nós com nossas pequenas vontades dirigidas, nem sempre brotadas de verdadeiras necessidades. Repetimos velhos modelos de época remotas. São pragas plantadas em outras plagas a nos perturbar.

É previsível que com o crescimento da cidade mudem os hábitos de seus habitantes, justificando-se pela segurança, economia, privacidade, consumo e tantas outras necessidades que o tempo cobra e o homem se dobra. Vive-se uma nova era, seguindo-se novos padrões, mas não parece assim tão complicado, até nos acostumamos falar com máquinas, namorar pela internet, não precisar ir ao banco ou a pizzaria, mas qual é a graça desse raio de sistema. Já pensaram quando todos agirem assim. Que papel terá a cidade, certamente terá evaporado da memória, assim como os aglomerados urbanos se chamarão outra coisa.

Certas mudanças parecem inevitáveis e até necessárias, são fáceis de conciliar. Outras, disfarçadas em comodidades e beleza, enganam, pois na realidade são frias e vazias como flores de plástico das ofertas. Perdendo-se a essência de coisas, que não era possível comprar. É preciso refletir e contestar, pensando nossas necessidades e fazendo valer a nossa parcela no modelar da cidade. Vejamos com calma os paradigmas da pós-modernidade: que a pretexto é esse que tudo mistura, dizendo atender às diferentes tendências e vontades, mas como resultado uma uniformidade banal. Conservador como sou, vejo nisso a fraude de uma grande embalagem vazia, mostrando claramente a diferença entre o gostar e o gastar.

Mas isso não depende, somente, de bons urbanistas, arquitetos, paisagistas e belos projetos, ainda que esses devam resistir, mantendo o senso e a sensibilidade, criando maneiras de burlar o sistema e a própria escola que tenta modelar esses atores como meros executores das tendências de um grande projeto. São grandes as pressões econômicas e maiores as tentações consumistas, gordos investimentos, pesadas articulações para montar grandes fachadas aparentemente arrojadas. Contemporaneidade de Shopping de Miami, espetaculares fachadas de circo para um show que não acontece. Receita de bolo com os mesmos ingredientes, havendo até mesmo referências à história. Para isso recortam uma vaga noção de frontão, colam falsas colunas repletas de caneluras, mas sem qualquer compromisso com as ordens estabelecidas.

Particularmente, penso que estamos integrando uma crise mundial, mantendo a mesma história que vem da época colonial, é algo que jamais terminou. O que parece ameaçador nesse momento é a intensidade do processo, insinuando múltiplas possibilidades, mas na realidade, revelando uma só direção – a uniformidade. Cenários impessoais e banais como um resultado globalizado que apaga as diferenças culturais.

Por que essa sede de novidade constante, como se na vida só fossemos consumidores? São muitas as justificativas para as mudanças de hábitos. Coisas que vão da aparência à maneira de pensar. Parece impossível para nós que alguém mantenha a aparência e o comportamento de vinte anos atrás. Há uma exigência de mudanças, sobretudo da aparência. Mas será essa cobrança aplicada a um senhor de sessenta ou setenta? Retirando exceções como Mick Jagger, me parece que não. Aos mais velhos deixa-se em paz, que vivam tranqüilos, sem a tirania da atualização.

Parece que assim também funciona com as nossas cidades, quando comparadas à outras cidades de história mais recuada, evidencia-se a nossa condição de eterna puberdade, impondo constantes processos de renovação em busca da atualidade, ainda que em algum lugar tenhamos que esconder quadros medonhos. Esse modelo não estaria fadado ao mesmo final trágico de Dorian Gray?

Desculpo-me pela nostalgia e fantasia do caminho tomado, mas minha intenção era fazer um grande passeio pela minha cidade, recuperando velhas imagens, que ela não é somente essa realidade aparente e recente. Não falo somente daquela história tradicional, às vezes seca, metódica e impessoal. Na verdade, queria escapar por outras histórias, aquelas narradas por quem as viveu ou ouviu contar. São tantas as fontes, vivas a circular, tantos ângulos para olhar e tantos os modos de narrar. Algumas trazem cheiros, sofisticados temperos exóticos, outras são cores e sentimentos, muitas guardam bem claro as caras e acontecimento.

Mas podem ter certeza, cada um carrega sua cidade, com cenários, diálogos e personagem. O homem não passa em branco por uma cidade, ela o acompanha independente de seu gosto ou vontade.

 

Articulista Otoni Mesquita

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.