O dia que briguei com o Délio e os hinos pátrios

Em 24 de maio de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Nunca fui de briga. Aliás, acho que ninguém da família era. Meu pai, embora muito firme em suas convicções, era, creio, um pacifista. Pouquíssima vez um de nós se envolveu em brigas de rua e, até onde me lembro, sempre levamos a pior. Minha primeira briga foi no primeiro ano primário, com meu melhor amigo na turma. Chamava-se Délio. Não faço a menor idéia do motivo. Sei, que para surpresa dele, eu tomei a iniciativa. Talvez achando que ele iria se acovardar, como tinha visto outros meninos provocados pelos brigões do pedaço. Surpreendentemente ele, mesmo sem entender porque, me encarou, e não deixou por menos.

Na saída da aula, rodinha formada, cumpridos os rituais de praxe (“quem for homem cospe aqui! ”, ”quem for macho cruza esta linha” etc.) assumi a postura que meu irmão mais velho tinha me ensinado ser a característica do Eder Jofre, então campeão mundial dos leves, glória nacional. Punhos erguidos a frente do rosto, elegantes movimentos laterais de pernas e à frente. Recebi um trompaço no meio do nariz, que sangrou de chofre (sem querer rimar com o nome do campeão!), seguidos de meia dúzia de chutes na bunda e tapas em toda parte. Aí aconteceu algo que não esperava também. Conforme os gibis que meus irmãos liam para mim, neste momento a refrega deveria se encerrar, pois já estava claro o derrotado. No entanto a turba ignara, patuléia desalmada, queria mais sangue e entusiasticamente empurrava o Délio sobre mim, que por sua vez também não sabia exatamente como se comportar. Era, como me disse depois -imagine só-, também a sua primeira briga, não lhe restando alternativa que não continuar a me cobrir de socos, cascudos e pontapés. Não sei quanto tempo durou e nem como acabou. Depois ficamos amigos para sempre.

Além de meu instrutor de boxe, salto triplo e em altura meu irmão mais velho fazia questão que todos nós soubéssemos cantar de cor, não só todos os hinos pátrios, mas também os respectivos hinos das diferentes Armas do Exército Brasileiro. Infante que era, e ainda o é, mesmo sendo coronel da Reserva, dizia, obviamente, que o mais bonito era o da Infantaria. Cantado em um ritmo mais ou menos rápido dizia algo assim: ”Nós somos esses infantes, cujos peitos amantes, nunca temem lutar. Vencemos. Morremos. Para o Brasil se consagrar!”. Já o da Artilharia era cantado num ritmo mais lento, quase funéreo. Dizia: “Eu sou a poderosa Artilharia, que na luta se impõe pela metralha. ”. Mas o que eu mais gostava mesmo (mas nunca tive coragem de dizer para ele!) era o hino da Cavalaria. Não me recordo o início, mas que pelas tantas, num tom arrastado, dizia: ”..Cavalaria! Cavalaria! Tu és na guerra a nossa estrela guia!” Sabia também hinos de outros países, e nos ensinava.

Há menos de um ano atendi um individuo cujo prontuário medico dizia ser nicaragüense. Não perdi a oportunidade e cantei solene: “Salve a ti, Nicarágua!” En tu suelo já no ruge el clamor del canon!”.

 

Articulista José Carlos Sardinha

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.