O crepúsculo de Júlio e Benedita

Em 20 de setembro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Meu pai morreu na madrugada do dia das mães de 1974, aos 72 anos. Dos dez anos que ainda viveu pós aposentar-se da “fábrica”, curtiu talvez quatro. Os seis seguintes foram despendidos em numerosas batalhas contra diferentes doenças, até que um aneurisma de aorta abdominal completou o serviço. Em seus poucos anos saudáveis ainda pegou no cabo da enxada, mas agora quase que por diversão, no sítio que meu irmão mais velho tinha adquirido, às margens da rodovia que une Lorena à Piquete. Demolindo cupinzeiros, preparando o solo para um laranjal que nunca vingou. Pescou no Paraíba, de barranco e de tarrafa. Um dia, pescando com meu irmão mais velho, caiu acidentalmente na correnteza do rio. Não sabia nadar. Mas, como relatou várias vezes depois, prazerosa e orgulhosamente, antes que chegasse ao fundo do rio, o Vandinho (meu heroico irmão mais velho), “já estava lá me esperando prá me salvar!”. Aprendeu a jogar buraco, não antes de ensinar a todos nós a jogar truco. Creio que jogava bem ambos, mas penso que por não ser malicioso (“virtude” mais que necessária em qualquer jogo de cartas!) perdia com certa regularidade partidas que supunha ganhas. E isso o irritava profundamente. Quando detectava indícios ou mesmo fraudes (“roubo”, como dizíamos) no jogo, ia à loucura. Esculhambava até as próximas dez gerações do perpetrador. Não importava quem fosse, quem mais estivesse à mesa ou nas proximidades. Todos ouvíamos em silêncio reverencial.

A revolução nos costumes iniciada naquela metade dos anos sessenta encontrou nele um forte opositor. Cabelos compridos para os homens, saias curtíssimas para as mulheres; músicas gritantes; danças eróticas; falta de respeito pelos mais velhos. Mulheres seminuas nas revistas e no cinema, simplesmente odiava. Fidel Castro e Che Guevara; João Goulart e Brizola; Lamarca. Os subversivos que queriam entregar o Brasil para a Rússia. Lia o “Estadão” todos os dias. Assinatura que o marido de minha irmã mais velha tinha feito para ele. Acompanhou diuturnamente a guerra do Vietnã e o que mais se passava na política mundial. Rejubilou-se com a morte de Che Guevara nas selvas bolivianas e a de Edson Luís no restaurante “Calabouço”, no Rio de Janeiro. Embora tivesse assistido, ao nosso lado, na TV em branco e preto, direto, a descida de Armstrong na Lua, jamais acreditou que isso, de fato, tivesse ocorrido. Pensava tratar-se de empulhação dos americanos. Acho que foi a única coisa feita pelos americanos que discordou. Amava-os simplesmente. Desejava ardentemente que seus heróis, um dia, destruíssem (“reduzidos a pó de traque!”), com uma chuva de bombas atômicas, o Império do Mal, conhecido por Rússia.

Meu pai era um aglutinador. Com sua morte, pensei: os irmãos iriam se dispersar. Até então, mesmo os que já viviam em outras cidades ou Estados, ao menos uma vez por ano, compareciam para vê-lo. E nos víamos. Seria minha mãe capaz de sustentar a magia? Surpreendentemente ela o fez. E mais! Tornou-se mais sociável. Tomou gosto por viajar, visitando os filhos e netos que viviam mais distantes. Viajou de avião e fez boa figura em alguns eventos chiques. Vi-a pouco nesta sua nova encadernação, mas dei uma pequena contribuição. Por muitos anos ouvia-a dizer que gostaria de ter um vestido de veludo cotelê verde, mas naqueles primeiros tempos (bem bicudos!) isso era um luxo impensável. Assim, quando tive meu primeiro trabalho assalariado (na construção civil), aos 18 anos, usei um bom pedaço de meu primeiro pagamento e lhe comprei uma peça do referido tecido, que virou o sonhado vestido. Visitou-me em Manaus, no início dos anos 80 e conheceu meu filho. Teve-o no colo e deve ter-lhe soprado doçuras. Morreu em janeiro de 1983. Estava em coma diabético desde dezembro. Pouca utilidade teve o diploma de médico que a Universidade do Amazonas me tinha outorgado dias antes.

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.