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O craque Zezé, a bíblia e seus dogmas

Em 11 de outubro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Meus primeiros contatos com a molecada da vizinhança não foram muito animadores. Recordo-me com precisão de escarnecerem de minhas roupas, de minha fala e, principalmente, por ser originário de Piquete. Chamaram-me de “borrachudo”. Não entendi, até alguém me esclarecer sobre a existência, em Piquete, de um pequeno mosquito que incomodava muito com suas picadas, particularmente aos que não eram da terra. Nem tinha reparado nos bichinhos, quando vivia lá.

Senti-me envergonhado, era membro de uma casta inferior, desprovido de “noblesse oblige”. Mas me aceitaram, menos por qualquer qualidade intrínseca minha, mais por ser dono de uma bola de futebol de couro (dizia-se “capotão”), e (aháá!). Minha técnica futebolística, no mínimo, não era inferior à deles.

Expedito e Ataíde eram membros de uma mesma família de negros, cuja avó vivenciou os estertores da escravidão. O irmão mais velho do primeiro, Zezé, foi o cara mais habilidoso que vi, ao vivo, com uma bola. Fazia verdadeiras acrobacias em campo e me brindou com o primeiro gol de “bicicleta” que presenciei em minha vida. Todos tentavam imitá-lo, Expedito foi o que dele mais se aproximou. Na época não conseguia entender os motivos que impediam o Zezé de já estar jogando em um grande time de Lorena ou do estado de São Paulo. Paradoxalmente, o Eudes, por quem ninguém dava nada e que era um dos últimos a serem escolhidos para compor os times da pelada vespertina, acabou jogando na Portuguesa de Desportos, da capital; e no Cruzeiro, de Belo Horizonte. Disputou as Olimpíadas de Seul e ganhou medalha de bronze pela Seleção Brasileira.

Levado por meus novos amigos passei a frequentar o Oratório São Benedito. Todas as tardes, a partir de 16 horas, os padres Salesianos abriam os portões do Colégio São Joaquim, o mais requintado da cidade, colégio da elite local, para que os meninos pobres da cidade pudessem usufruir das quadras, campos de futebol, jogos de mesa e até, de vez em quando, da piscina que lá havia. Ali joguei futebol de campo, salão, sinuca e ping-pong. Fiz teatro, ajudei missa, cantei em coral. Ali perdi a Fé.

Sempre, por volta das 19 horas, os padres encerravam todas as práticas recreativo-esportivas, organizavam a molecada por faixas etárias e, nas salas de aula que eram usadas pelos meninos ricos durante o dia, implementavam nossa catequização. Fiz a primeira comunhão e fui crismado. Adorava os ritos litúrgicos, seus hinos cantados em uníssono por centenas de pessoas, ecoando e reverberando pelo grande pátio do colégio. Gostei de ler a Bíblia e o fiz várias vezes em diferentes épocas de minha vida. Acho-a ainda uma leitura saborosa. Mas…os dogmas eram de lascar! A Santíssima Trindade; a concepção de Jesus por Maria sem a correspondente relação sexual com José; o sexo pecaminoso quando não voltado para a reprodução exclusiva; a Hóstia e o vinho transmutados no corpo e sangue de Cristo… Tentei, sem intenção de polemizar, questionar os fundamentos dessas verdades. Invariavelmente as respostas não me satisfaziam. Eram dogmas, portanto, não se podia questionar. Acreditava-se ou não, e os que não acreditassem que fossem danar-se no fogo dos infernos. Começou a fazer sentido, para mim, o discreto anticlericalismo de meu pai.

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.