O Amazonas e o interior

Em 26 de junho de 2019 às 14:32, por Gilson Gil.

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Há alguns dias, fui convidado por amigos para passar um fim de semana em uma cidade do interior do Amazonas. Aproveitei e participei de uma festa em uma comunidade, por sinal, muito agradável.

Insegurança Pública

Usei esse final de semana para conversar bastante com as pessoas locais, observar muito e reunir elementos para uma reflexão. Fiquei impressionado com as reações espontâneas sobre o problema da insegurança pública. Espontaneamente, as pessoas no hotel, nos restaurantes, bares e lanchas, entre outros locais, citavam casos de assaltos, mortes e violência. Reclamavam muito de invasões de casas, roubos de celulares e motos. Eu, ingenuamente, pensava que o desemprego seria o grande problema do município. Contudo, fiquei espantado por ver que a segurança era o problema mais na mente dos habitantes.

O que não quer dizer que o desemprego estivesse ausente das preocupações locais. Só o comércio local e a prefeitura ofereciam vagas. O nível salarial, pelo que falavam, chegava a ser menor do que o do salário mínimo. Da mesma forma, tive contatos com trabalhadores oriundos da agricultura. As mesmas reclamações sobre a falta de oportunidades e a carência de saídas econômicas. O mesmo notei com o setor do turismo. A cidade não apresentava atrativo algum que pudesse atrair massas de turistas. Eu não consegui achar uma lojinha que tivesse um souvenir ou um artesanato típico. Uma pena, pois barcos de pescadores passavam ao largo da orla e não ficavam nem paravam na sede, evitando parar na cidade.

Ressaltando as honrosas exceções, creio que esse cenário pode ser espalhado para a maioria das cidades do interior amazonense. O setor primário fica encurralado, sem opções de escala, sem cadeias produtivas reais e amarrado a redes informais, dependente de ações localizadas dos governantes, para abertura de ramais ou distribuição de sementes.

O Turismo é a grande esperança!

O turismo é sempre a “grande esperança”. Contudo, a realidade é que temos um fluxo, mesmo na capital, insignificante. No interior, pescadores e atletas evitam parar nas cidades. Chegam, entram em suas vans previamente alugadas, pegam os barcos, pescam ou correm, e depois voltam imediatamente aos seus locais de origem. E possuem suas razões, pois as cidades dificilmente têm atrativos que façam um turista descer de seu barco e ficar ali, comprando, comendo e bebendo, ou seja, gastando seu dinheiro nos municípios.

Isso tudo sem falar no desemprego, problema crônico de nosso interior. O projeto Zona Franca previa que os benefícios de Manaus se espalhassem para o interior. Todavia, isso nunca aconteceu. São dois universos paralelos, dignos do multiverso da Marvel, com o agravante que lá eles se tocam e podem interagir, o que, no Amazonas e no interior não acontece. Os salários são baixos, as oportunidades inexistentes e o indivíduo acaba sem saídas para sua situação de vulnerabilidade. O que chego a refletir (e fico assustado), quando penso no fato da segurança ser o problema de maior evidência na mente dos habitantes, é que o desemprego no interior parece já estar sendo naturalizado, ou seja, banalizado e visto como “normal”.

São reflexões soltas que apontam para os problemas nunca resolvidos do interior do Amazonas. O tempo político das eleições municipais se acelera e esses temas logo estarão em voga. As promessas de obras, de ramais, de distribuição de sementes, de construção de portos e de convênios estão voltando. Será que são o bastante? Parece que não…

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.