No tempo em que ser feliz bastava um rala-rala

Em 10 de maio de 2016 às 08:00, por Otoni Mesquita.

compartilhe

Como era longo o trajeto do ônibus Ana Cássia “Circular Joaquim Nabuco” e havia uma parada próximo ao “Canto do Quintela”. O “Tabuleiro da Baiana” ficava na “Estação”, próximo do “Aviaquário”. O ferro de engomar na Joaquim Nabuco. Era muito engraçado ir pra “Baixa da Égua” ou se enfiar lá pras bandas do “Buraco do Pinto”, quando “Ferro de Engomar” servia de referência pra chegar ao “Cine Popular”, bem ali perto do Alto de Nazaré, quando o “Morro do Tucumã” perdeu a vegetação e virou parte da “Ayrão,”. Como era longe o “Caiçara”, ficava completamente isolado, depois da “Maromba”, praticamente no meio do mato. O batuque da “mãe Joana” ainda ficava na entrada do São Jorge.

O teatro Amazonas no seu vestido cor-de-rosa ainda se abria em porta de saloom, deixando entrar tanto para ingênuos vesperais do “Titio Barbosa” e “Vovô Branco”, como para o ousado teatro rebolado do “Tem xique-xique no pixoxó”. Mas onde é mesmo que tocavam as orquestras do Glenn Miller, Ray Connifer, os boleros e o Waldick Soriano? Não era somente para os rostos colados nas “manhãs de sol” do Parque Dez”.

Havia as “brincadeiras”, festas pra dançar “ que quase sempre aconteciam nos sábados; e a moçada inventou o verbo “paquerar”, para definir o processo de aproximação com segundas intenções. Depois vieram outros ritmos mais agitando, as “papinhas” e os “minguais” dos “Bancreveas”, dos “Ideais”, “Olympicos” e “Rio Negros” se propagaram. Roupas brancas, tecidos com diferentes cortados, fosforescentes estampados pra abafar na “luz negra”. Antes, eram as dublagens nas festas dos “Barés” ou do “Rio Negro Club”, quando se destacavam as performances de Litlle box, Ednelza Shado e tantos outros que não alcancei.

A tradicional coluna social do Nogar, com seus clichês das mimosas debutantes e dos mais variados eventos. Das garotas de roupa de banho e das misses no sereno do Rio Negro. A “festa da Camélia”, da Cuba-Livre e das rumbas que imaginei esconder na fachada do “Acapulco”.

O ritual de abertura das cortinas dos cinemas, a sala de espera no “Cine Odeon”, o “Festival Norte de Cinema”, Helena Inês com sua blusa transparente provocou um frisson ao passar em plena sete de setembro. A boca vermelha da Dona Yayá, montada na portaria do Cine Avenida. Dos “Kungs-Fus” e as pornochanchadas do Guarani. Os salgados do Mocambo, o ti-ti-ti do Bar Avenida,  os sanduíches do Agô-gô. O Sundae da Lobrás, quando o café do “Pina” ficava quase na esquina da Guilherme Moreira e ainda não era ilha. Que ano foi aquele que o Jander ganhou o festival com “Domingo na Vila de São José da Barra”? Letra do poeta Anibal Bessa.  Já era setenta e uns, quando “A Selva” foi à Paris, mas isso foi antes da chegada do “Galvez” e outras “Folias” do Márcio.

Quando falo “naquele tempo”, vocês podem imaginar infinitos momentos, mas em geral tendemos a buscar boas imagens, quando tudo parecia menos complicado e nos recolhemos numa cidade que mistura infância, puberdade e tempos recentes. Quando ser feliz, bastava um rala-rala encarnado ou uma vaga na arquibancada do General Osório. Ai que saudade da tribo dos Andirás, dos pássaros e quadrilhas do festival, tão longe ficaram as mariranas que caiam nas calçadas altas da João Coelho; do susto que o diabo dava, saltando em estrondo do alçapão da pastorinha do Luso. Da sereia que parecia nadar num mar de gelatina, meio verde, meio azul. Dos grandes Vidros de água colorida pendentes na Drogaria Fink. Depois da fase do candeeiro e das brincadeiras de sombras na parede, chegou a eletricidade e a noite virou um dia de animação, depois do tu-tu-ru-bim-te-tê brincava-se de manja, trinta e um alerta; alguns ainda iam pra berlinda, outros pros sopapos do garrafão.  Ainda não havia a “TV Ajuricaba”, mas aquela musiquinha da “Crônica do Dia” torturava lembrando a hora de ir pra aula. Das peles queimadas dos “banhos” aos domingos, que depois ganharam o bronzeado do “Ton-a-Ton”, no tempo que a praia da Ponta Negra era um barato tanto no sábado quanto no domingo.

Naquele tempo, pobre na cidade parecia viver com dignidade. Ainda que pequena, a população era bem dividida. Aparentemente serena, uma parte vivia à margem, recolhida numa outra cidade. Por ela passava-se quando se ia ao mercado ou pegar “motor” pro interior. Hoje, sua imagem é uma lembrança colorizada, misturada à velhas fotos de matérias de “O Cruzeiro” e à cartões postais de “A Favorita”. Mas é ela que emerge, pintada e traçada, com seus caminhos em desalinho, inteiramente erguida em madeira, sobre troncos de árvores diversas, exóticas formas de uma cidade coberta de palha que flutuava, e ainda navega em minha memória.

Catraias eram transportes usuais, no ritmo da cidade iam e viam cruzando igarapés, passavam remando do “Educandos” para o centro, levando uns do “São Raimundo” pra “Aparecida”, transportando outros do “São Jorge” para o “Pico das Águas”, mas havia muitas outras travessias, mas grande parte foi esquecida sob pontes ou sob os aterros. Havia as catraias que deslizavam em torno do Mercado, “merendeiras ambulante”; vendiam pão-doce, broa, refresco além de garapa e outros troços, perseguidas por abelhas e varejeiras. Circulavam por aquele pedaço do litoral, ora em torno da cidade flutuante, ora em volta do porto ou do mercado. Corajosas passaram, sem medo aparente, sobre as águas escuras do Roadway, sobre aquela profundidade estúpida que nos colocaram na imaginação, justamente onde se escondia um mostro de forma tão sombria e pavorosa, era como uma negra aranha gigante, cuja visão terrível teria deixado louco o único escafandrista que ali mergulhara. Mas naquele tempo não se podia mentir, pois a própria natureza denunciava e vingava. Lembram do jacaré que pegou, mostrou e devorou a Neca? Pois é…

Naquela época, bairro de pobre era o São Raimundo ou Educandos, pra lá seguiam muitas trouxas, levadas e lavadas. As Alvoradas e Compensas não eram nem sonhadas, mas o ônibus da “Chapada” ia somente até onde hoje é a rodoviária. Ali acabava a cidade. Era um mundo por começar, além dos balneários, do “Verônica”, “do Shangrilah” e do Hospício não tinha quase nada por lá. Naquele tempo, poucos eram os loucos, havia o Milton e a Carmem soltos pela cidade, e por trás da janela o Bombalá ficava guardado. Hoje são tantos, que não é possível nominar.

Alguém já disse que o passado parece sempre mais atraente e organizado que o presente, ora pois é evidente, ainda que nem sempre seqüenciado, é como um filme acabado, devidamente editado.

 

 

Articulista Otoni Mesquita

Comentários:

sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.