Meu pai Júlio

Em 30 de agosto de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

compartilhe

Meu pai se chamava Júlio. Nasceu na cidade de Cruzeiro –São Paulo –no dia de finados de 1902, morreu no dia das mães de 1974. Viveu a infância, adolescência e parte de sua vida adulta na área rural. Antes de ser operário na fábrica de pólvora, foi tropeiro, condutor de tropas de burro, sem veículos a motor. Até um bom pedaço do século vinte, cargas eram deslocadas em dorso de burros. Assim, meu pai, até os 25 anos, se ocupava basicamente de conduzir esse tipo de tropa, entre Piquete e as matas do alto da Serra da Mantiqueira, no processo de abastecer a “fábrica”, de lenha, então o principal combustível da empresa. Era religioso, sem ser carola. Mandava-nos à missa, mas não gostava de ir a igrejas. Aprendeu a ler sem frequentar escolas. Assinava o nome, sabia aritmética básica, calculava áreas e volumes. Segundo relatos dos meus irmãos mais velhos, sabia até um pouco de química.  Na juventude teria dançado e parece que chegou a arranhar viola caipira e violão. Acho que nunca praticou esportes. Adorava jogar “truco” (tipo de carteado, muito comum no interior do Sudeste, Sul e mesmo Centro-Oeste) e, simultaneamente tomar uma pinguinha. Mas nunca foi alcoólatra. Depois de aposentado, assisti e compartilhei com ele do jogo de “malha”. Depois de aposentado aprendeu também a jogar “buraco”.

Via-o praticamente só de noite, quando antes de se aposentar. Algumas vezes – muito poucas – o vi no seu trabalho. Esteve na linha de produção da fábrica por algum tempo, mas sofreu um grave acidente, creio que na década de 40, quando tentava abrir a tampa de um vagão de trem abarrotado de ácido sulfúrico, que talvez estivesse sob pressão. Uma explosão o encobriu com aquela substancia, queimaduras profundas se espalharam por todo o corpo. Para se recuperar ficou vários meses internado no Rio de Janeiro. Parece que ao voltar para Piquete passou a atuar em atividades de apoio, em cavalariças (dizíamos “baias”) e no cabo de enxada. Contou-me que em alguns momentos, sua situação econômica era tão precária que dispunha de apenas uma camisa. Ao chegar no trabalho tirava-a, pendurava-a e trabalhava até o entardecer desnudo, para não a gastar ou ter que ser lavada e secada, à noite. Seus proventos, creio, jamais superaram a três salários mínimos da época.

Conheceu minha mãe no decorrer da Revolução Constitucionalista de 1932. Como é amplamente conhecido, aquele glorioso ano do Senhor, a oligarquia cafeeiro-industrial paulista rebelou-se contra o governo de Getúlio Vargas. Pela versão paulista (que aprendi primeiro!), Getúlio queria governar sem uma Constituição, com poderes ditatoriais, o que os paulistas jamais poderiam admitir, pois o inverso seria conspurcar a gloriosa tradição dos bandeirantes. Já o resto do Brasil achava diferente, pois era necessário acabar com os privilégios de São Paulo, cujo poderio econômico (como hoje) o tornava sobrepujante sobre o resto do país. O fato é que o pau quebrou, forças oriundas de todo o Brasil, convergiram sobre São Paulo, que rapidinho pediu arrego.

O Vale do Paraíba foi um dos mais importantes trajetos das tropas federais vitoriosas, sem contar que a “fábrica” tinha importantíssimo valor estratégico.

Não conheci meus avós.

 

Comentários:

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.