Memória afetiva da cidade

Em 12 de abril de 2016 às 15:36, por Otoni Mesquita.

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Memória afetiva da cidade – Gostaria de iniciar essa nossa conversa com uma questão que nos instigue a pensar em nossa relação com a cidade e as direções preferencias que toma o nosso olhar quando tentamos captá-la. Talvez nossas escolhas revelem mais de nós mesmo do que sobre a cidade, mas que seja um exercício que nos faça refletir sobre nossas práticas cotidianas e qual é a identidade urbana que buscamos. Que cidade queremos para viver.

Se vocês tivessem que descrever a cidade de Manaus, hoje, qual seria a imagem escolhida? Será a cidade da tradição ressaltada pela imagem dos prédios históricos, destacando o Teatro Amazonas como seu símbolo máximo, com sua crista colorida sobre a paisagem? Ou será a metrópole moderna, das torres que se alongam em verticais cada vez mais altas, ou será das grandes vias iluminadas que invadem os espaços verdes e traçam novas direções. Quem terá a franqueza de mesclar becos e vielas tortas, sem os serviços básicos, traçando novos espaços, passando dos limites da periferia?

Será que a lenda se fez verdade e agora é a cobra grande a comer a cidade. Faminta essa serpente vai se espichando, abarcando condomínios fechados, espaços inabitáveis completamente ocupados, viadutos congestionados, trânsito caótico, shoppings lotados e uma legião de desempregados?

Qual será a Manaus para quem sempre morou na Sete de Setembro, ou pra quem jamais saiu de um dos extremos da Zona Leste? Para quem nunca se afastou do porto ou jamais chegou em outro aeroporto?

Há prédios bem arrumados e com belas vistas, na Vila, Vieiralves e Ponta Negra, grandes feiras e aglomerados de barracos sem eira nem beira, com vista para o nada. Belas casas no Tarumã e conjunto de casebres, muitas vezes, lado a lado a contrastar; enquanto uns bem tratados e outros completamente desamparados.

Seremos capazes de escolher somente uma dessas partes como representativa da cidade? Ainda que levado pelos laços de afeto, tento algo priorizar, mas logo vejo que não é possível eleger uma só das faces, ignorando que a cidade é tudo isso e muito mais. São muitas imagens, nem sempre agradáveis, como a personalidade de qualquer um de nós, há coisas boas e outras complicadas, mas é somente a totalidade que nos faz a pessoa que somos.

Mesmo que a maioria escolha um mesmo ângulo, e tivéssemos um dispositivo capaz de reproduzir cada imagem, logo nos surpreenderíamos com uma coleção infinita, difícil de sintetizar numa só forma. A escolha do ângulo é uma opção pessoal, depende de muitos elementos, havendo uma boa dose do racional, mas quanto a escolha das imagens, não parece que se possa optar. É como o sentir e o saber, não são apenas palavras. Ainda que apreendidas de forma natural, parece resultado de um processo complexo: inconsciente e sem grandes reflexões. Mas o carinho com que se guarda certas imagens, parece resultado de experiências afetivas e de significados que nos foram passados. Por outro lado, parece ser a imagem que nos escolhe, não sendo possível traçar projetos de captação, elas surgem, nos capturam e se instalam independentes de nossa vontade, não há como premeditar. Imagino uma relação interior/exterior, na qual os sentidos, como uma câmara atenta captam formas, cheiros e ruídos de instante, e uma película que existe dentro da gente, tal qual um filme fotográfico sensibiliza e grava as imagens,

Isso nos força a reconhecer a multiplicidade de imagens da cidade, não somente nos aspectos evidentes da paisagem urbana, dos diferentes lugares sociais, da diversidade de matérias, mas sobretudo, das coisas imateriais com que se grava as suas imagens. Que matérias são essas, aparentemente tão tênues e tão resistentes, preservando formas que não há reforma que a dissolva?

 

Articulista Otoni Mesquita

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.