Leon, um negócio da China

Em 19 de julho de 2016 às 08:00, por Lúcio Menezes.

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Leon, um negócio da China – Articulista Lúcio Menezes

Em 1983, Norton César Marques Pinho era Juiz da Comarca de Eirunepé/AM. Numa tarde de maio daquele ano o telefone tocou:

– Lúcio, é Norton falando.

– Fala Pinho, que surpresa agradável é essa?

– É o seguinte: tem uma “galinha morta” aqui. Um negócio da China.

– Explica melhor, disse eu.

– É um barco regional de treze metros de comprimento por três de largura, motor importado, novinho em folha, só o motor vale o que o cara tá pedindo pelo barco, o comando e a área de lazer ficam no piso superior; em baixo tem um banheiro, uma cozinha e um camarote. Tá em ótimo estado, uma pechincha. Outra oportunidade dessa só na próxima encarnação.

– É mermo é? E aí, quanto custa?

– Cr$ 600.000,00 (seiscentos mil cruzeiros) – numa conversão nada ortodoxa diria que corresponderia a R$ 18.000,00 (dezoito mil reais) – a gente racha meio a meio, vamos ser sócios nessa porra. Já pensou? Pescaria, passeio, pescanagem, lazer, Praia da Lua, do Tupé, do Arrombado … Pega logo um avião e vem pra cá antes que a cara venda pra outro.

– Preciso de um tempo pra levantar essa grana.

– Tudo bem, mas apressa que eu tô te esperando. Foi assim que me tornei sócio do Norton e sonhei ser o Onassis dos trópicos.

Embarquei no táxi aéreo que fazia a linha Manaus/Eirunepé, com escala em Carauari, um voo com duração de três horas – a distância em linha reta entre Manaus e Eirunepé é de 1.160 km. Norton tinha um prestígio danado, era respeitado e por isso o proprietário da embarcação teve paciência para aguardar o sócio do magistrado que chegaria de Manaus. Leon era realmente um barco cativante e estiloso para um regional, o branco predominava, mas o azul dava um toque de elegância. Branco exprime a pureza, consagra o divino, azul é minha cor predileta. Na cosmogonia, o Deus Criador é azul, além do mais, azul simboliza o caminho na fé. Foi sob a inspiração do lendário Leon que, anos mais tarde, mais precisamente em 1996, Ariosto comporia a belíssima toada “Vento Norte”, do boi Caprichoso, cujo verso mais poético diz assim: “…azul é sempre cor de navegante…”. Perfeito.

Fechamos negócio e no dia seguinte estávamos singrando o Juruá rumo a Manaus. Conosco embarcaram Augusto, cunhado do Norton e o Léo, uma espécie de faz tudo. O cara era pescador profissional, tarrafeava como eu nunca vi, era cozinheiro, prático, mecânico, contador de causos, bem humorado, solícito e, em Manaus, tinha uma irmã que despertava instintos selvagens. Norton é dono de uma excelente pontaria e no trajeto até Carauari deu inúmeras provas dessa aptidão. Numa delas matou um alencor, não o comemos porque ele dizia que a carne daquele pássaro era remosa e inservível para consumo humano. À noite focávamos jacarés. Nunca tinha visto uma população de jacarés tão grande como naquela viagem, o Juruá era infestado, um número incalculável, mas longe dos mais de dois milhões, trezentos e oitenta e sete mil, cento e setenta e um que o Ex-Governador Gilberto Mestrinho afirmava ter lá pras bandas de Nhamundá, no rio do mesmo nome. O Ex-Governador era notório em superestimar números. Quanto ao alencor, bem, o alencor virou banquete daqueles répteis pré-históricos.

Emitindo um som estranho pela boca e dando algumas palmadas nas pernas, Norton provocava os jacarés que respondiam dando rabanadas frenéticas na água. Absolutamente fascinante! Paramos em um tabuleiro de quelônios, retiramos ovos e praticamos viração de tracajá. Até aí tudo perfeito, só não contávamos com o que ocorreria dezoito horas após deixarmos o porto de Carauari.

Norton me disse que era um negócio da China, só não me disse que o motor era made in China. As reformas econômicas da China começaram em 1979, mas somente em 1984 o foco da política econômica voltou-se para o incentivo a indústria. Logo, o Leon era um inocente útil, cobaia da incipiente indústria chinesa. O motor era um gasolatra insaciável, só louco (ou liso) apostaria na tecnologia chinesa de então, nós apostamos, o chinês não resistiu e… pifou.

Foi um Confúcio nos acuda. Buda que pariu! Exclamamos sem combinação previa, nos fu… Hoje, quando queremos pôr um ponto final numa discussão, mandamos logo que o desafeto vá de retro, vá tomar…, vá pra…, naquela época mandávamos pra bem longe, pra China. Era lá mesmo que tínhamos quebrado, na China. Bateu uma tristeza tão grande que os nossos olhos começaram a se fechar, era o retrato desolador de quatro tristes metamorfoseados chineses.

O rio Juruá é o rio mais sinuoso do mundo e lembra o Dragão Chinês. Se o Dragão Chinês é visto como a criatura mítica divina que traz a abundância, prosperidade e a boa sorte, o Juruá, naquele momento, pelo menos para nós, era diametralmente o oposto.

A rotina era a seguinte: acordar cedo, pescar, beber, conversar sobre todas as coisas, contar piada para descontrair, comer iaça, tracajá, peixe com farinha, pimenta e arroz – como não tínhamos os palitinhos (k’uai-tzu “algo rápido” na China, hashis “ponte” no Japão) comíamos com garfo e faca mesmo – rezar e aguardar que Buda ou Confúcio tirassem na porrinha quem iria nos enviar ajuda. Sim porque excluindo a excelência das companhias e a descontração reinante, invariavelmente pela manhã chegavam, aos milhares, os tarados piuns que trabalhavam ininterruptamente até as 18h00min. Para o segundo turno, também com presença maciça, assumiam os putos dos carapanãs. E haja repelente pra suportar aquela tortura, tão desesperadora quanto a tortura chinesa da gota d’água. Minha pele estava sofrendo mutações, pareciam escamas, tamanho era o tempo que eu ficava de bubuia ou imerso naquela água morna fugindo dos insaciáveis insetos.

As noites eram longas, sem dominó, sem baralho, sem livro, sem toca cds, sem telefone celular, sem televisão, sem ar condicionado, sem luz, com luar e sem violão, na mais remota praia do Juruá, uma paisagem bucólica como as do rio Min jiang .

Dois dias depois, quando já começava a bater o desespero e o português já se confundia com o mandarim, não sei se pelo excesso de arroz ou de peixe; se pela paisagem ou pela tristeza dos olhos que se fechavam, eis que Buda ou Confúcio (sei lá quem perdeu a porrinha) nos enviou uma balsa. Foi uma euforia inenarrável, parecia a Festa da Primavera, a primeira festa do calendário lunar chinês. O prático do empurrador da balsa era um sujeito magro, tinha a cara do David Carradine e a postura de um lutador de kung fu. Os demais tripulantes eram três macérrimos e empoeirados ajudantes que, ao se depararem conosco, inexplicavelmente ficaram estáticos, como se fossem soldados de terracota. A viagem, em condições normais, duraria seis dias e quatorze horas, a nossa levou duas semanas.

Faltando três dias para chegarmos enfrentamos uma tempestade que destruiu completamente a quilha do Leon, além de outras avarias. O banzeiro provocava choques violentos contra a balsa, era uma luta involuntária e desigual, pobre Leon.

Enquanto o Leon nos pertenceu Norton soube aproveita-lo: passeou, pescou, namorou, curtiu a valer. Eu fiquei traumatizado e pouco usufrui do saudoso Leon, não por conta da viagem, porque essa foi inesquecível, ali brotou um enorme bem querer pelo Augusto e pelo Léo e consolidou ainda mais a minha amizade com o Norton. Norton é um ser humano especial absolutamente admirável. O trauma ficou por conta daquele motor chinês. Não tinha peça de reposição nem oferta de mecânico especializado, era barulhento, lento, tinha um vazamento crônico e dava prego constantemente. Conseguimos vende-lo para um cara de nome Saint Clair, gordo como o Buda (apesar do consumo incontinente de chás).

Guardo com enorme carinho e imensa saudade aquelas duas semanas, o Leon e a “viagem” de querer ser o Onassis dos trópicos. Curiosamente o único jogo virtual que aprecio é o mahjong, um jogo chinês que muito exercita a minha memória. Recomendo.

Norton, meu irmão, ser teu sócio foi um privilégio, viver aquelas duas semanas foi marcante, conservar essa amizade por tanto tempo, definitivamente é merecimento reservado aos bons. Seja feliz, tenha saúde e conserva esse jeito Norton César de ser: às vezes urbano, às vezes monástico. Seria o monastério influencia chinesa?

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Crônica escrita e compartilhada no dia 19/07/2011, data do aniversário do Norton.
Norton, meu amigo e irmão, faleceu no dia 17 de janeiro de 2013.
Obrigado por tudo, amigo-irmão Norton César Marques Pinho, pela sociedade, pela amizade, pelo sorriso, pelos segredos, pelo carinho, pela palavra, pelo canto, pelos ensinamentos, pela irmandade. Até um dia!

 

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sobre o autor

Articulista-Lucio-MenezesManauara, criado na José Clemente, Rua integrante do mais famoso quadrilátero do planeta terra. Torcedor do Fluminense, filho de Luiz e Joanna, canhoto, apreciador de vinho, cantor de banheiro, ex-atleta, ex-cabeludo, arremedo de poeta e escritor, heterossexual, sonhador e eterno aprendiz.