Leal da Cunha – Contando histórias (5)

Em 15 de agosto de 2016 às 08:00, por Cláudio Barboza.

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Maço de cigarros Hollywood no bolso, pés enfiados numa confortável sandália franciscana e um cabelo preto plasticamente arrumado. Leal Cunha costumava chegar ao jornal às 14h e, ao passar pela porta da redação, disparava gritos, críticas e broncas a torto e a direito, fazendo tremer os mais jovens, fazendo brotar sorrisos disfarçados nos mais experientes que se escondiam atrás das então Olivetti. Esse era o perfil do chefe de reportagem de A Crítica, na década de 70, Leal da Cunha. Com certeza, um dos maiores jornalistas produzidos no Amazonas, que durante anos foi da Imprensa Oficial e chegou a ser secretário de Comunicação, no segundo governo de Gilberto Mestrinho.

Leal da Cunha mandava repórteres para a apuração do dia-a-dia, lia textos e escolhia fotos, sem aliviar nos comentários. Quando considerava que a matéria não estava boa, para desespero do autor, lia alguns trechos em voz alta. Dependendo da entonação, isso podia se transformar num horror. E Leal caprichava nas entonações. Depois, tirava os óculos, fazia cara de poucos amigos e ia tomar um café.

Durante muitos anos, Leal da Cunha acompanhou passo a passo a produção diária de A Crítica e apesar do estilo durão, nunca o vi ofender moralmente uma pessoa. Era um chefe ranzinza, mas falava com conhecimento e depois da bronca, até compartilhava um café com o “foca”. Só ficava intragável quando o seu Flamengo ia mal no domingo. Aí, a segunda-feira era de lascar!

Nesses anos, a pauta do jornal era definida pelos editores e o chefe de reportagem acompanhava diretamente as editorias de Cidade, Política e Polícia, mas também opinava em Esportes. A pauta era fixada em um quadro de avisos. Antes de a matéria ser editada passava pelo copydesk (revisor) que, em alguns casos, reescrevia ou chamava o repórter para fazer alterações no texto. Na maioria das vezes o editor era o responsável pelos títulos.

Lembro-me do Umberto Calderaro circulando pela redação. Era uma cena rara… Mas essa é uma história mais para frente…

 

Articulista Cláudio Barboza

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sobre o autor

Articulista-Claudio-BarbozaUm místico religioso, que hoje poderia ser arcebispo pelo tempo de estudo no seminário... Mas fez opção pelo jornalismo. Entre Manaus e Minas uma dúvida eterna. Ex-jogador de basquete, Garantido de coração e tricolor das Laranjeiras. Graduado em Filosofia na Faculdade Belo Horizonte, jornalismo pela UFAM, mestre em sociologia pela UFMG.