Gramsci, Zé. Zé, Gramsci. Prazer!

Em 5 de julho de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Ter atuado na organização e execução do Ato Público meia bomba, catapultou-me à condição de líder estudantil. Ou algo parecido. Para não arrefecer o passo inicial dado, nossos líderes maiores (Rogelio Casado, psiquiatra recém falecido e Humberto Mendonça, que também se tornaria psiquiatra, mas que morreria assassinado na periferia de São Paulo, nos anos oitenta), deliberaram não desativar a comissão inicial, visando torná-la semente de alguma coisa, que ninguém sabia bem o quê. Resistir à Ditadura, era a palavra de ordem mais ouvida. Gostei do novo status e me joguei de cara. Estudar que era bom, foi ficando assim… de lado.

Logo descobri qual era a meta preliminar do grupo. Grupo formado por estudantes, agora acrescido de alguns professores, tanto da Faculdade de Medicina, quanto de Filosofia. Alguns estudantes da área de Agronomia também foram se chegando. Tínhamos que tomar o Diretório Universitário e precisávamos organizar uma chapa para concorrer às eleições que seriam naquele ano de 1977, com posse no início de 78. Mas logo surgiram alguns probleminhas. O primeiro tinha a ver com um tal de Gramsci, do qual eu nunca tinha ouvido falar.

Um dos professores participantes do grupo, que se reunia, clandestinamente, na casa de outro, era o Dr. Aguirre, psiquiatra e mentor de Rogelio e Humberto. Conforme nos explicou na primeira reunião que participou, embora tivesse apreço, não concordava com as teorias de Gramsci, que postulavam pela existência do intelectual orgânico. Para este teórico italiano do movimento marxista internacional, que escreveu seus livros nas masmorras do fascismo de Mussolini, no estágio que se vivia, rumo à revolução Socialista que estava a caminho, aos intelectuais caberia um papel organizacional efetivo, no seio do partido revolucionário, no meio da massa proletária redentora. Mas ele, o professor Aguirre, não se via nesse papel e achava que seria melhor ficar um pouco distante das coisas do dia a dia do movimento, dando apoio teórico, já que era possuidor de caudaloso cabedal de conhecimentos, no que tangia às obras de Marx, Lênin, Kaustky, Trotsky, Rosa de Luxemburgo, etc., etc. Fiquei maravilhadamente pasmo com tanta erudição, embora pouco tivesse ouvido falar daqueles distintos senhores. Não sabia do que se tratava, mas parecia algo grande.

O dono da casa, professor Nelson Fraiji, hoje o principal nome da Hematologia em Manaus, contestou vividamente. Derrubar a ditadura não seria obra de teóricos, mas de pessoas engajadas na luta pelo porvir do socialismo e a redenção do proletariado, como dizia Gramsci.  Precisávamos de combatentes e não livros. Minha cabeça ia de um lado para outro, como quem assiste uma partida de tênis, em Wimbledon. Outros professores, como Marcus Barros (Medicina), Aloísio Nogueira e Rozendo (Filosofia) e, principalmente, José Ribamar Bessa Freire o Babá (Comunicação) aparteavam, com argumentos que me pareciam muito bem embasados.  Eronildo Braga Bezerra e Raimundo Cardoso de Freitas pela Agronomia, Beto e Rogelio pela Medicina também tentavam opinar. Eu só ouvia, encantado como um colibri na boca de uma cascavel. Puro fascínio. Por fim o prof. Aguirre sacou, de uma bolsa ao tiracolo que levara, dois maçudos volumes do “Capital” (Marx) e fez sua proposta revolucionária. Deveríamos nos compor em um grupo de estudos. Estudar toda a obra de Marx e seus descendentes, antes de formularmos um plano de derrubada da Ditadura e consequente tomada do poder. Colocada em discussão, sua proposta foi rejeitada por unanimidade e ele declarou-se fora da luta. Venceu o tal de Gramsci.

Voltando para o mundo real, iniciou-se a discussão sobre a tomada do Diretório Universitário. Por aqueles tempos, os militares tinham conseguido neutralizar completamente os movimentos estudantis que a eles tinham tentado resistir. As maiores lideranças da época estavam presas, mortas, clandestinas ou exiladas. Nomes como Zé Dirceu (É, esse mesmo que v. tá pensando!), Vladimir Palmeira e até o Zé Serra, líderes pré 64, eram só parte da memória. A rede de Centros Acadêmicos e Diretório Centrais e a União Nacional dos Estudantes (UNE), tinha sido totalmente esfacelada. Em seu lugar tinham sido criados os Diretório Universitários, um por cada Universidade, vedados os centros por curso, como havia antes. Só podiam candidatar-se à direção estudantil, alunos que preenchessem pré-requisitos estabelecidos pelo Regime: boas notas, sem reprovação, assiduidade às bibliotecas e muito civismo. Ser estudante de Direito e de direita contava muitos pontos. Tanto que, havia mais de uma década, todos os presidentes de Diretório no Amazonas, eram estudantes de Direito. O presidente naquele momento era João Bosco Valente e sua chapa se chamava “31de Março”.

Compor uma chapa e elaborar a plataforma eleitoral, eis a tarefa gramsciniana. Primeiro o presidente. Rogelio e Humberto seriam nomes óbvios, mas estavam de partida para residência médica em Psiquiatria, em São Paulo. Militariam nas trincheiras de lá e seriam algo assim como nossos embaixadores às margens do Ypiranga. Tirso tinha mostrado muita coragem e vigor quando do ato público, assim com Ethel, sua esposa. Mas também estavam de partida para a sequência da formação médica. Havia o Geraldo Gutemberg, que parecia saber muito sobre Gramsci, Lênin e Stálin. Que odiava Trotsky, para desgosto do Babá.

Terceiro ano de medicina. Adoraria a missão. Mas tinha um probleminha. Já era fichado no Dops, por sua militância periférica no Partidão e principalmente pelo fato(uau!!) de que sua esposa Sônia, minha colega de turma, filha de comunistas, tinha recém chegado da União Soviética, onde teria estudado um ano de Medicina na Universidade Patrice Lumumba (Tratava-se, à época, de uma Universidade mantida com recursos soviéticos e de Partidos Comunistas de todo o mundo, para formar quadros que iriam disseminar as belezas do socialismo. Nela só cursavam alunos indicados pelas lideranças comunistas afinadas com a URSS.). Ela só teria sido autorizada a voltar ao Brasil e matricular-se na Medicina de Manaus se garantisse que não se envolveria mais com subversão.

Eronildo, principal liderança no Campus Universitário também declinou da honra, pois também já seria fichado e poderia perder seu emprego de técnico do laboratório de pesquisa sobre abelhas no Inpa. Não me recordo das desculpas dadas pelo Cardoso. Sobrou para quem? Pois é. Adivinhou.

Para o cargo de vice–presidente, Eronildo indicou João Pedro Gonçalves, aluno de Agronomia. Chegou a ser presidente do Boi Garantido, em Parintins e senador da República pelo PT, atualmente é dirigente do PT no Amazonas. Em sua fundamentação, Eron alegou que reconhecia o papel dos alunos de Medicina nos heroicos embates até ali ocorridos, mas que no Campus Universitário a Agronomia era liderança inconteste.

A união Medicina e Agronomia seria imbatível e coisa e loisa. Concordância rápida e já para o dia seguinte eu iria conhecê-lo e iria gostar dele. Cabra bom. Marcou o encontro para que nos conhecêssemos. Se não gostasse poderia repor o assunto em discussão na reunião seguinte. Como dois recém enamorados falamos, a sós (isso era muito importante, segundo o Eronildo), sobre as injustiças do mundo, nossos sonhos revolucionários e a derrocada iminente da ditadura, tão logo uníssemos nossas forças estudantis com o proletariado vilipendiado.  Mas, o noivado não prosseguiu. O João tinha reprovações em seu currículo e baixa assiduidade à biblioteca. Não preenchia os requisitos mínimos que as regras do Regime impunham e ainda não tínhamos forças suficientes para mudá-las, o que só conseguiríamos no ano seguinte.

O que Eron juntou, a Ditadura separou. No berço. Na reunião seguinte aprovou-se o nome de Paulo Segadilha França, estudante de Comunicação e já dono de uma coluna diária no principal jornal da cidade (A Crítica). Com ele marchei para a vitória, histórica me permita dizer, e única em minha vida, pois nunca mais me candidatei a nada. Nem pra síndico. Mas isso é outra história.

 

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.