Galopante

Em 31 de março de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Galopante – Uma coisa escatológica, ainda que básica e vulgar, não há como evitar. Deve ser uma oportunidade para quebrar a rotina ou redirecionar o ritmo de vida, talvez pra lembrar que nem tudo é glamour e pode se planejar. Ocorre no âmbito de sua intimidade e muitos preferem esconder, não confessam com temores de ridicularizar. Não perderão tempo tentando entender a causa ou razão. A praticidade da vida moderna com seus medicamentos cuidará para que tudo volte à normalidade. Não é uma coisa que possa ser evitada, pois assim que o sujeito sentir os primeiros sintomas, não terá mais o que fazer. Às vezes, chega suave, pode ser uma dorzinha, mas aos poucos, outras se manifestam abruptamente, logo, uma emergência. Não tem escolhas, nem espera. Pode te pegar no meio da rua, num passeio fluvial ou no meio de um show movimentado, cercado por amigos e desconhecidos. Não avisa que vai se manifestar no meio de uma solenidade ou no casamento que você é o padrinho. Que não sejas o noivo nem a noiva. Pode escolher a bela Miss prestes a receber a faixa, como pode derrotar o atleta, aquele que treinou tanto e se mantinha concentrado na disputa da medalha. Ela se manifesta a qualquer hora e pode derrubar até os mais ágeis lutadores de MMA. Pra ela não há fortes, quanto maior o sujeito, maior a queda, pois quanto mais energia, maior a reação. Pode ter escapado da justiça e ter uma rede de proteção.

Para muitos se manifesta inicialmente com uma série de arrepios e calafrios. Logo vão se tornando mais constantes, com ondas de calor e sensações inexplicáveis que tomam toda a atenção, tomam o corpo e espetam todos os pelos, não há como esconder. Intestino se revira, tripa grossa parece que morde a fina. As pernas ensaiam um twist, mas você não vai querer saber de qualquer ritmo pra se movimentar. Nunca sua vida terá um objetivo tão claro e na mira. Perde a norma e a etiqueta. O que fazer? Não há outra alternativa.

Não importa se limpo, sujo ou escangalhado, que tenha tampo ou tenha descarga. O problema é se estiver ocupado. Você só vai querer uma coisa em sua vida: o vaso. Somente depois disso você vai pensar na reforma política, na distribuição de renda ou se terá papel. Mas aí, nada mais importa, você já estará aliviado e nada mais importa. Estará mais leve e paciente, pra falar e pra ouvir. Qualquer história e mesmo opiniões disparatadas. Rirá de qualquer coisa, mas é o seu alívio que comemora. Ela não escolhe a hora e pode te pegar, ninguém está imune, mesmo que coma somente pão seco e legumes, ou vá na China jantar, a caganeira galopante pode te pegar.

 

Articulista Otoni Mesquita 

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.