Fogoieira das verdades (2)

Em 19 de julho de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

compartilhe

Creio que a primeira vez que o vi foi, talvez, na segunda semana de curso, apontado por um amigo recente. Segundo Dimas, que morava na república em que eu moraria a partir do segundo ano, teriam recebido sua visita e cartão de apresentação, no dia anterior. Estariam os cinco: Dimas, Chafi, Manoel Felício, Eurico e Augusto, todos goianos, menos Dimas, reunidos na sala de estar da república, quando, sem convite ou cerimônia, ele adentrou. Se aboletou e foi logo perguntando quem era quem, de onde eram, etc. Talvez para ser simpático um deles teria lhe pedido para olhar o livro de medicina que trazia consigo. Ao que respondeu prontamente que não.  “Pra quê?  Não tem figuras.

Acho que de alguma maneira nos adotou ou talvez fosse assim com todo mundo. Adotava um estilo protetor, gostava de nos aconselhar sobre como deveríamos nos portar, problemas que pudéssemos eventualmente enfrentar. Não falava muito sobre si mesmo.  Mas logo começamos a ouvir as histórias pregressas, que eram saborosíssimas. Provavelmente todo estudante de medicina daquela época sabe, participou, ouviu falar ou inventa alguma coisa com ele. Ainda hoje, em alguma mesa de bar, ainda ouço alguma que não conhecia. Verdadeiro mito urbano. Seu primeiro nome era Lourival, o sobrenome (irrelevante) eu esqueci, mas tem lá nos arquivos da Universidade. Goiano, seu pai era um fazendeiro que o bancava integralmente. Não precisava trabalhar, como eu e muitos outros, dando aulas em cursinhos ou coisa semelhante.

Era alto e extremamente forte. Olhos verdes e cabelos encarapinhados cor de fogo, daí, suponho, o apelido que o eternizou: Fogoió. Logo no primeiro semestre de seu primeiro período na faculdade, talvez 71, teria feito algo impensável para aquele momento. Auge da ditadura militar, governo Médici. Muitos professores eram médicos militares e, destes, um em particular, era péssimo e lecionava Anatomia. Lecionava é um jeito tolerante de descrever sua práxis letiva. A aula era das mais longas do currículo, cerca de 3 horas. Levava mais de meia hora fazendo chamada, nome por nome, buscava identificar algum sobrenome que lhe parecia ser familiar ou de alguma família importante. Quando não tinha mais como enrolar começava a aula propriamente dita, que consistia na leitura enfadonha de um velho livro texto (Testut-Latarget). Não deu outra. No dia da primeira prova escrita eis que o Fogoió, após receber a prova, tirou debaixo da carteira o mesmo livro e começou a pesquisar as respostas placidamente.  Alvoroço quando o professor quis tomar-lhe a prova e dar zero, por cola. Saiu-se com essa pérola:” Ué! Se você dá aula lendo o livro, por que eu não posso fazer a prova lendo o livro como você? Eu também não sei anatomia, como você.

Em outro momento, durante uma aula prática de cirurgia abdominal, numas das pequenas salas do Centro Cirúrgico do Hospital Getúlio Vargas, deu outra demonstração de seu senso prático. Professor Molinari, com mais de cem quilos de peso, operando e explicando para a turma o que estava fazendo. Sala lotada e Fogoió encostado numa parede sem nada ver, pois outros alunos estavam à sua frente. Teria então tomado o cirurgião pela cintura, removido-o para o lado, dizendo: “deixa eu ver essa porra aí!”.

Garanhão por excelência, não fazia muitas escolhas. Todas as empregadas domésticas das repúblicas, vizinhas, solteiras ou casadas, nada o bloqueava. Mas parece que tinha um limite mínimo. Como me explicou, não se envolvia com estudantes de medicina ou moças de família da terra. Temia ser envolvido num casamento indesejável.  Foi como me aconselhou quando iniciei o namoro com aquela que viria a ser minha esposa. “Zezão, Manaus é o paraíso pra pegar mulher.” Quando você voltar pra tua terra você acha uma menina lá e casa. Não precisa se enrolar aqui.

Poucos de nós teriam coragem de aceitar os sucessivos convites que nos fazia para sairmos em sua companhia. Temíamos nos metermos em confusão. Claudio, que era dos poucos que tinha carro e era frequentador da república, um dia saiu com ele. De madrugada batidas fortes na porta da sala. Os dois bebadaços nos acordam chamando-nos para retirar uma carga de dentro do fusca. Tinham ido parar num bar, famoso à época, chamado Barrica, na Av. Duque de Caxias.  Tinha esse nome por ser totalmente decorado com móveis, mesas, cadeiras e balcão feitos de barricas. Eles tinham roubado uma mesa e várias cadeiras do bar e trazido para nós. Ele achava que necessitávamos delas, pois quase não tínhamos móveis. Ter aqueles móveis na sala seria algo como roubar a Torre Eiffel e colocá-la no jardim, como enfeite. Ainda assim, por vários anos, aqueles móveis ficaram na república e devem ter sido herdados pelas gerações posteriores de alunos que lá moraram.

Um dia roubou uma galinha e a levou, viva, para uma das repúblicas que frequentava. Lá chegando jogou-a no colo do Zé Gonçalves, outro estudante de Goiás. Este, sentindo-se ofendido ou por qualquer outra razão, de imediato jogou-a fora, pela janela do sobrado. Enfurecido pela desfeita, Fogoió agarra Zé Gonçalves e o carrega em direção à mesma janela para jogá-lo fora. Não fosse alguém ter chegado e se atracado, Zé Gonçalves não teria suportado ficar agarrado por mais tempo, nos batentes da janela do sobrado.

Gostava de cirurgia e parece que era muito bom nisso. Talvez seja exagero, mas ouvi dizer que quando estava bêbado operava melhor ainda. Quando se diplomou, parece-me, foi convocado para o Exército, Batalhão de fronteira em Cucuí. Contou-me numa tarde (1979), quando eu estava só na república. Todos tinham viajado de férias para seus respectivos estados. Tinha acabado de ser liberado de um período de detenção e aguardava a conclusão de um inquérito policial militar. Chegou logo perguntando se eu dispunha de algum baseado, pois andava carente, mas que uma cachaçinha ou cerveja no bar da Tia Maria – ao lado- serviam também. Estava sem dinheiro nenhum. Jogamos bilharito e conversa fora. Sua vida militar tinha durado só alguns meses. Tinha arranjado uma encrenca com um capitão médico, logo ao chegar lá. Por qualquer razão, este capitão tinha humilhado um soldado ou sargento, que era seu chapa.

Seduziu a mulher do capitão, mas não fez nada, queria gerar um motivo para que o capitão o confrontasse. Só que o tal capitão não se mexeu. Passadas algumas semanas encontrou o capitão e sua família, junto com outros oficiais, no clube militar. Sem pestanejar foi agarrando-o pelo colarinho, dizendo: ”Seu corno, filho da puta! Tô pegando sua mulher e você. não faz nada? Merece levar porrada.” E deu. Xilindró.

A gota d’água veio alguns meses depois. O Batalhão recebeu a visita do General, chefe do Serviço Nacional de Saúde. Inspecionava os serviços médicos dos batalhões de fronteira. Solenidades de praxe. Todos em forma. Banda de música. Elogios para aqueles guerreiros intrépidos defensores da integridade territorial do Brasil, os perigos da subversão comunista e etc. Em sua fala o comandante do batalhão enumerou as consultas e cirurgias que realizavam e as benesses que propiciavam para os brasileiros daquele rincão, esquecido por Deus, mas não pelo glorioso E.B. “É mentira!” Grita o Fogoió saindo de forma e dirigindo-se ao palanque. “Não acredite nisso, não, Seo General. Tudo cascata. Aqui não tem remédios, material para cirurgia. Só parente de oficial é que é atendido. E assim mesmo muito mal. Só tem safado”. Imediatamente preso e encaminhado para o hospital de Manaus, para avaliação psiquiátrica, com recomendação para expulsão.  Os psiquiatras o consideraram normal.

Ficou preso numa cela especial, no Hospital militar de Manaus. Para o gáudio de seus colegas ou dos que dele tinham ouvido falar. Todos queriam vê-lo ou bater um papo, levar-lhe um fuminho ou uma cachacinha, às escondidas. Até companhia feminina. Por tudo isso, talvez, o General Comandante da Décima Segunda Região Militar, posto militar máximo de nossa região, quis conhecê-lo. Ordenou que fosse levado à sua presença. Em seu gabinete recebeu-o e, todo paizão, foi lhe perguntando: “Me conte, meu filho. Não me esconda nada. O que se passa nessa sua cabeça?”. Ao que o Fogoió respondeu:” Pois não Seo General. O Sr. sabe, né, que o lobo frontal  direito responde pelos padrões e relações abstratas, enquanto que o esquerdo tem maior habilidade para análise lógica?Não, meu filho, não sei não?E sobre o mesencéfalo, a ponte, a medula oblonga, o Sr. sabe alguma coisa?”.” Não meu filho!”. “Então, porra, pra que pergunta? Não vai entender nada mesmo!”  Incontinente, o General tomou do telefone e fez uma ligação, que o Fogoió não conseguiu ouvir. Voltou-se para ele e comunicou:” Acabei de mandar te soltar. Você não tem jeito. Nem o exército pode contigo. Vá pra casa e aguarde. Faremos contato.” Sem dinheiro, foi a pé, do quartel na Ponta Negra até a Av. Ayrão. Tentou outras repúblicas, mas ninguém encontrou. Apostamos cerveja e ele levou uma parte significativa dos trocados que eu guardava para passar o resto do mês.

Nunca mais o vi. Soube que morreu de infarto alguns anos depois. Seu pai tinha lhe comprado um hospital ou coisa assemelhada. Teria mantido o mesmo. Correu um boato de que tinha sido assassinado por algum marido chifrado, mas isso não foi confirmado. Como meus ídolos Jimmy Hendrix, Janis Joplin, Jim Morrisson e Elis Regina, tudo uma questão de álcool, sexo, droga e rock’ roll, ou, melhor dizendo, bolero e música brega.

Quando me lembro dele fico menos materialista do que o habitual, chego a pensar que seu espírito tá por aí aprontando alguma. Alguma cheia de verdade. Saravá, Fogoió!

 

Articulista José Carlos Sardinha

Comentários:

sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.