Fogoieira das verdades (1)

Em 12 de julho de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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Cerca de 19hs do dia 19 de maio de 1977, na modesta república na Av. Ayrão, ao lado da faculdade de Medicina, em Manaus. Eu (paulista), Dimas (mineiro), Chafi e Manoel Felício (goianos), aguardávamos que o Álvaro Amande (manauara, hoje cardiologista de referência destas plagas) viesse nos apanhar em sua Kombi bege e levar-nos para o aniversário da Sigrid, colega de turma no segundo ano. Não me esqueci da data, jamais, por três essenciais razões que listo a seguir: Dia Nacional do Índio, aniversário de meu amigo/irmão Antônio Pedro Mendes Schettini e segundo Dia Nacional de Luta do renascente Movimento Estudantil contra a Ditadura Militar, que iniciava seus estertores.

Aquele tinha sido um sábado tenso. O Flamengo (de Zico, Adílio e Adão) tinha dado mais uma goleada em algum outro carioca e estava começando a primeira parte do capítulo diário da novela global” Dancing days”.  Até aí tudo muito normal, corriqueiro.  Pesada e atípica tinha sido a manhã. Contrariamente aos sábados anteriores, nós três não tínhamos tomado o ônibus ou carona com algum colega mais privilegiado e ido tomar banho na praia da Ponta Negra. Tínhamos ido tomar parte em um ato público de protesto estudantil, contra a ditadura, no recém inaugurado Campus Universitário. O primeiro de minha vida, convocado nacionalmente por uma autointitulada Comissão Nacional para a Reconstrução da União Nacional dos Estudantes (UNE), que tinha sido destruída e jogada na clandestinidade pelos militares. Eu era o representante de nossa turma na comissão de estudantes que organizou e executou o Ato, em sua versão manauara. Os outros três me acompanharam sem muito entusiasmo, mais por solidariedade a mim do que por ideologia.

Explicando melhor, eu jamais tinha me envolvido com qualquer tipo de ativismo político até então. Também não era um alienado total. Amava os Beatles e os Rolling Stones, Chico Buarque e Geraldo Vandré. Adorava História e gostava de dar palpites nos intervalos das aulas sobre temas polêmicos. O que gerava alguma antipatia, principalmente entre colegas amazonenses. Ligeiramente gauche. Meio intelectual, meio de esquerda. Mais fanfarrão do que consequente. Acho que por conta disso, um colega amazonense que não se engraçava muito com meus pitacos múltiplos, mas que hoje é um grande amigo, quando da pequena assembleia para indicar o representante da turma na comissão organizadora do Ato, apontou-me. Tipo “vai Taffarel, pega que é sua!”. Não teve jeito, peguei. Meus três colegas de república tentaram me demover, dizendo que era uma fria, tinha o famigerado decreto 477, ferramenta da ditadura para combater a resistência no meio universitário. Por qualquer coisa mínima podia-se ser expulso. Depois era o caos. Estudar de novo ou até mesmo um emprego público, ficariam dificílimos. O que eu ia dizer lá em casa?

Em uma semana visitamos literalmente todas, todas, as salas de aula da Universidade, que à época tinha cerca de 2.500 (dois mil e quinhentos) alunos (preciso descobrir porque meu Professor Sinésio Talhari abomina a expressão “cerca de”!). Universidade micro para os padrões de hoje. Vívido em minha memória o clima hostil nas turmas de Direito noturno. Muitos alunos ali eram alunos policiais, outros policiais alunos. Mobilização quase impossível. Mas encaramos e conseguimos levar para o gramado do campo de futebol do Campus algumas dezenas de estudantes. Corajosos, ousados ou irresponsáveis. Muito medo. Não passava um fio de cabelo. Todo o Campus cercado de viaturas, tanto da polícia comum, como do Exército. Facilmente identificáveis, circulavam entre nós “estudantes” com mais de trinta anos. Bolsa de couro ao tiracolo, jeitão simpático de irmão mais velho. Policiais federais infiltrados. Típicos. Quase parte normal da paisagem humana do meio universitário daquele período da história de nossa Pátria Mãe tão distraída.

O Ato em si foi quase um anticlímax. Com toda a imprensa local a postos para documentar o embate, suávamos em bica quando o reitor veio ao nosso encontro no meio do gramado, para receber nossas reivindicações. Ele estava tão ou mais nervoso que nós. Aluno da Escola Superior de Guerra, pós- graduação que a ditadura exigia de todo professor que almejasse fazer carreira na Universidade brasileira. Não podia desapontar os milicos. Nós não podíamos desapontar nossos seguidores e, principalmente, os que de nós duvidavam. Cagaço empatado, tratamos de ler nossa lista de queixumes, que versava sobre melhorias nas instalações, bibliotecas, laboratório, contratação de professores, etc. Nem um ai sobre a “Redentora”. Ficou nítido o seu alívio e foi cordato, simpático até. Disse que ia reunir o Conselho Universitário e analisar tudo com carinho. Paizão.

Todos de volta pra casa. Peito estufado. Ouçam e vejam demais estudante do Brasil: um filho teu não foge à luta! Agora almoçar um X-burguer, X-egg, X- qualquer coisa e uma garrafinha de guaraná Baré, que ninguém é de ferro. À tarde futebol no sítio do pai do Álvaro (Estádio El Lamazal) e à noite umas cervejas no aniversário da Sigrid e possivelmente sermos bajulados por nossa intrepidez e heroísmo matinal. Testosterona juvenil a explodir. Mas eis que surgiu um problema quase inesperado para turvar nosso sábado perfeito. O Fogoió!  Tínhamos nos esquecido dele. Naquele momento ele representava a única entidade no Universo que podia fazer baixar nossa bola. Droga!

Estudante do quinto ano. Goiano. Macho alfa por excelência. Artista da arruaça. Bebia feito um gambá (de onde será que surgiu essa expressão? Tenho que perguntar ao Weimar, que tem uma Enciclopédia que trata sobre essas coisas!).Alto e muito forte, brigava como poucas vezes vi na vida. (segundo o Tirso Rodrigues Alves, insigne urologista e poker man fifth-fifth, seu colega de turma, teria uma vez levado um pau do Zé  Miúdo, hoje cirurgião vascular.Mas acho que não conta, pois estaria morto de bêbado!). Era o desaforo em pessoa. Entrava e saía de todas as repúblicas como se casa sua fosse. Tínhamos que esconder os comes e bebes menos triviais quando ele apontava na esquina. Andar em sua companhia então, nem pensar. Era encrenca braba na certa. Ser seu inimigo então…! Tinha um faro canino para festas e detonava em todas.

Problema posto. Como iríamos ao aniversário da Sigrid sem que ele fosse junto? Estava sentado na porta da entrada da república nos esperando. Nem quis saber do Ato Público e foi logo perguntando em que festa iríamos à noite. Cara séria e olhar inquisitivo tipo “não mintam pro papai!”. Pegos com a boca na botija, tentamos disfarçar, enrolar. Sabia do aniversário. Dimas tentou ser esperto dizendo que não nos dávamos bem com a Sigrid. Era de outra turma. Um pessoal xarope. Na verdade, naquela noite nem iríamos sair juntos. Cada um pra um canto diferente. Eu vou pra casa da Dalva, minha namorada. O Zé vai fazer uma dessas reuniões chatas com seus amigos subversivos. Se souber de alguma coisa te dou um toque. Ninguém achou que ele tivesse acreditado e tentamos nos preparar para o pior.

A Sigrid morava na última casa de uma vila na rua dos Barés, centro antigo de Manaus. Era uma série de 6 ou 8 casas geminadas, com um corredor estreito para onde davam todas as entradas e terminava no muro da Faculdade de Direito. A poucos metros da Praça dos Remédios e Igreja homônima.  Quando chegamos o grosso dos convidados ocupavam uma série contínua de mesas dispostas no tal corredor de acesso. Na segunda ou terceira mesa o Reitor, professor Doutor Hamilton Botelho Mourão, que posteriormente seria defenestrado por um movimento (o primeiro acho) dos professores, liderado pelos meus ídolos, professores Marcus Barros e Ribamar Bessa. Passamos pela mesa dele sem nem olhar pro lado e adentramos à casa, esquecidos da maldade do mundo.

Lá pelas tantas um burburinho crescente se formou. Vozes alteradas, masculinas e principalmente femininas vinham do corredor e o Fogoió irrompe na sala guinchando a mãe da Sigrid grudada em sua camisa, tentando expulsá-lo aos berros. Fora de minha casa, seu louco, vagabundo! Arruaceiro! Ninguém lhe chamou aqui! Vou chamar a polícia para expulsá-lo! Vir à minha casa sem ser convidado e ainda ter o desplante de ofender meus convidados! Fora! Instintivamente tentamos nos agrupar num cantinho mais discreto da sala. Que ele não nos visse. Impávido colosso, seus olhos, verdes como as turmalinas de Goiás, incrivelmente mansos para o instante que passava, nos encontrou de imediato, abriu um sorriso vitorioso e troou: “E aí, meninos? Demorei?”. De heróis matinais para vilões noturnos num zás. Sigrid nos fuzilava com seu olhar e exigiu que nos responsabilizássemos pela retirada do intruso. E, claro, podíamos aproveitar o embalo e irmos juntos. O que, não lembro como, acabamos fazendo.

 Na rua, candidamente, nos relatou que quando entrou no corredor e viu o Reitor, na única mesa que tinha uma garrafa de whisky, pediu licença, pegou uma dose e disse pro Magnífico: “Aí, né? Seu filho da puta! Enchendo o cú de canal e a merda da Faculdade sem professor, hospital  e biblioteca, pros meninos aprenderem. Um dia você ainda vai se foder!”. E foi pra festa.

Tô errado, Zé?”  “Não era pra isso que vocês armaram esse barulhão todo hoje de manhã?”.

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.