Fazendo fita

Em 14 de dezembro de 2016 às 15:03, por Otoni Mesquita.

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Tom Moreno

Fazendo fita -Foi numa cidade trópico-equatoriana que tudo começou, no meio de uma ensolarada manhã de Sábado. Havia vitrines coloridas e as pessoas se produziam como que para lá se expor, em seguida jogavam-se na rua, ávidas de caras e consumo. Naquela hora os letreiros luminosos permaneciam apagados, mas não foi difícil localizá-la. Encontrei-a entre tantas outras de igual qualidade e nada mais além do tempo que oferecia me convenceu; mentiria se dissesse que foi amor à primeira vista, pois assim como foi ela poderia ser outra e se não fosse eu, outro qualquer a levaria, mas era inevitável que eu a levasse comigo naquela manhã. Era pura necessidade.

Não tinha sotaques e sobre sua origem nada perguntei, mesmo suspeitando que fosse nativa, apesar de tão parecida com outras de diversas procedências. Levei-a para casa iniciando-a naquilo que deveria me dizer, lhe apresentei alguns amigos e logo seu repertório foi sendo ampliado. Ela se submetia a minha vontade, aparentemente de bom grado. Depois de algum tempo de convivência, eu já revelava um encantamento e até certo nível de fidelidade. Eu podia escolher, mas me punha a ouvi-la horas e fio, sentido nisso um grande prazer em entender o que dizia. Fiquei encantado com seu canto, mas confesso que para que isso acontecesse não foi somente o conteúdo o tom das coisas que me dizia. Havia naquelas falas o reconhecimento de diferentes vozes e momentos agradáveis.

Ela era capaz de reproduzir sensações bastante familiares. Havia uma grande carga de afetividade já com sotaque, conhecia-lhes frases e entonações, mas sempre me escapava alguma coisa. Comigo seguiu para alguns lugares; pequenas e longas viagens. Às vezes, eu a exibia como representante de uma nova geração daquela cidade tropical, em outras ocasiões, eu a mantinha trancada em seu mutismo, guardada em casa como jóia rara, sem qualquer possibilidade de expressão.

Muitas vezes, eu saia com os amigos e até esquecia dela, mas sempre ela atendia aos meus pedidos. Houve época em nossas vidas que não a deixava esfriar. Era como se me desse algum alimento que eu não encontrava com os outros ou em outros lugares. Era quase uma dependência. Solicitando sua presença a todo o momento, mormente na hora de ninar. Era como uma gueixa dócil e submissa, pronta a atender nas mais diversas horas. Mesmo que eu não tivesse banhado ou perfumado. Para ela, não havia diferença.

Conhecia-lhe os dois lados como a palma de minha mão e sabia seu discurso de trás pra frente. Já sabia muito bem o que iria me dizer em seguida. Mas não era uma relação previsível. De vez em quando eu a trocava por outras. Mas isso não era segredo, ela sabia muito bem qual era a sua condição e não fazíamos qualquer mistério disso. Assim eram tratadas os de sua espécie, portanto, não sentia qualquer remorso em colocar outras vozes sob o mesmo teto que nos abrigava. Entravam e saiam, sem dramas, pois ela nada dizia. Não éramos caso consumado, mas consumíamos um caso vulgar até que sumisse por inteiro.

Um dia chegamos a um lugar de sal e sol, mas às vezes tínhamos que nos guardar em casa até que as nuvens passassem nos devolvendo o azul. Foi numa dessas recolhidas que aconteceu o nosso primeiro desentendimento. Já estava cheio de chuva e pedi-lhe que me cantasse algumas canções que NOS aproximavam. A princípio ela não demonstrou nenhuma contrariedade em atender aos meus pedidos. Tudo parecia dentro da normalidade. Ela atendeu como sempre fizera até que no meio de uma frase engoliu algumas palavras que dariam sentido e continuidade a frase. Foi como um engasgo inesperado e confesso que eu me assustei, mas logo voltei a insistir, sem sucesso. Deixei pra lá e procurando evitar tumultuar o ritmo das férias, eu a dispensei da tarefa.

Passado alguns dias, ela voltou a ocupar o centro de minhas atenções; sentia saudades das vozes e das lembranças que ela guardava em si, insisti e a perturbei de muitas maneiras. A princípio com carinho e delicadeza; mas aos poucos fui perdendo a paciência e comecei a sacudi-la, espetei-a, mas não obtive qualquer resultado positivo. Ela parecia cada vez mais enroscava mais em si mesma, completamente travada. Não reagia, permanecia enrolada sobre si, emburrada, embolando a fala de maneira indecifrável. Um antropólogo talvez descobrisse ali o comportamento típico de um autêntico índio Mura emburrado no cativeiro.

Tive vontade de jogá-la pela janela do oitavo andar, mas me contive, não pela possibilidade de cometer um crime ou sofrer punição, mas pela esperança de voltar a ouvi-la outras vezes. Depois de algum tempo e esgotando o meu repertório de alternativas, conclui que a metodologia aplicada não estava surtindo efeito almejado, talvez fosse à rudeza do tratamento ou alguma outra razão por mim desconhecidas.

Parti para um novo procedimento, demasiado avançado para minha formação. Sem qualquer resistência transportei-a para sala, e estirei-a sobre o sofá, esperando que emitisse algum sinal capaz de explicar a razão de seu estado de mutismo. Queria diagnosticar algum indício do mal que lhe afligia. Mas foi tudo em vão, do traumatismo nada consegui saber e depois de algum tempo, perdi o resto de paciência que tinha.

Enfurecido, decidi invadir-lhe o interior, desordenei-lhe a seqüência lógica, misturei alhos com bugalhos; deixei-a tonta e pensei tê-la na palma da minha mão. Parecia bastante radical e alternativo o tratamento que eu adotei. Espalhamo-nos sobre o tapete da sala, estirei-a sobre os móveis. Depois, arrastei-a pela casa, parecia o fim de tudo. Só temia que, a qualquer momento, as crianças chegassem da escola.

Tinha que ser ágil e versátil, agir antes que as crianças retornassem. Não poderia deixar vestígios. Perdi completamente o controle, armei-me de ferramentas cortantes e avancei sobre ela. Primeiro cortei-lhe algumas falas na tentativa de desembaraçá-la do mal que eu não sabia bem qual era. Encarei aquela situação como se fosse um exorcismo, ainda que pudesse parecer uma seção de tortura. Por mais de uma vez estive com uma faca na mão prestes a abrir-la ao meio. Pensei em desmembrá-la.

Ela se mantinha muda, completamente submissa perante o carrasco, parecia desafiar todas as tentativas. Era desesperador recordar cada um dos momentos que somente ela guardava. Ela sabia muito bem que só ela era capaz de nos contar. Isso me enfurecia, ainda que lhe fizesse alguns curativos, esperando sensibilizá-la de alguma forma, mas qual “umbuá” se mantinha enrolada sobre si mesma ou se enrugava feito pele envelhecida.

Tanto fiz que depois de algum tempo consegui que ela voltasse a falar comigo e até cantasse um pouco das nossas recordações mais felizes, mas desde este dia ela jamais foi a mesma. Continua comigo, talvez por conveniência minha ou por solidão dela, nem sei por que, pode ser por puro saudosismo ou talvez aguarde sua prometida substituta que ainda não chegou. Como uma gueixa, se mantém submissa e fiel ao seu destino. Mas permanece intocável, não há cassete que a faça girar pra cantar. É apenas uma fita cassete inutilizada, mas antes tocava músicas do grupo Tariri.

A Natasha ficou me devendo uma cópia melhorada desta dramática criatura, mesmo assim eu a mantive até o dia que me deixou. Emprestei-a para Jane Jatobá que não me devolveu mais. Talvez ainda cante alguma coisa, pois eu havia remendado cada pedaço da fita, ainda que aqui e ali ela ainda continuasse engatando.

 

Articulista Otoni Mesquita 

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.