A “exótica” cidade flutuante de Manaus

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O fim do monopólio da borracha, a crise econômica dos anos vinte do século passado, o crescimento demográfico em razão da corrente migratória de ribeirinhos e nordestinos para Manaus e a escassez de recursos contribuíram, inapelavelmente, para a crise de falta de moradia em Manaus. Nesse cenário adverso, em 1920, João Aprígio, natural da Paraíba, com mulher e filhos para sustentar, passava por enormes dificuldades. O que ele ganhava mal dava para a alimentação da família. Sem casa própria, Aprígio juntou dois troncos de açacu de um igapó e os rebocou, na popa de sua canoa, até o litoral do Educandos, local que entendeu como o mais apropriado para construir a sua morada. Por vinte dias e vinte noites ele trabalhou, até edificar aquela que seria a primeira casa flutuante de Manaus.

Com o crescente aumento populacional e a previsível carência de moradias, em pouco tempo proliferaram residências e estabelecimentos comerciais ao seu redor. Assim surgia a cidade flutuante de Manaus, resultado da ausência de políticas públicas voltadas para as populações carentes e investimentos destinados à construção de casas populares. Dessa forma, países como o Brasil, desde anos idos, vêm a deterioração urbanística das suas cidades.

O professor Samuel Benchimol, no prefácio do livro Aspectos Econômicos e Sociais da Cidade Flutuante, editado em 1964, de autoria de Celso Luiz Rocha Serra e Wilson Rodrigues da Cruz, assim definiu: “Sem a devida preparação para fazer face à competência urbana e não encontrando condições mínimas de participação e promoção social e econômica, essas populações tendem rapidamente a marginalizar-se nos grandes centros urbanos. O aparecimento das estancias, cortiços, favelas e mocambos constituem expressões dessa luta pela conquista, a qualquer custo, do teto e do emprego.

Em Manaus este problema adquiriu cor local revelando esforço de adaptação do homem ribeirinho às condições do meio ambiente. A cidade flutuante que resultou dessa adaptação ao regime das águas do rio, sujeito a enchente e vazante, possui expressão ecológica e econômica. Ela representa uma forma de sobrevivência do homem em busca de localização mais barata e mais acessível que lhe proporcione ao mesmo tempo moradia e sustento.

A cidade flutuante nasceu e cresceu enquanto os administradores dormiam para serem despertados vinte anos depois pela curiosidade dos turistas e pelas reportagens das grandes revistas nacionais que passaram a explorar o inédito e o pitoresco. Deste modo ela adquiriu a notoriedade internacional, partilhando da fama do Teatro Amazonas como símbolos de duas eras que se distanciam no tempo, mas que se confundem nas ruas raízes e origens”.

A cidade flutuante em sua versão primitiva, era um aglomerado de casas de madeira cobertas de palha do buçu, fibra leve e resistente – posteriormente a maioria das coberturas das casas foram substituídas por folhas de zinco. Essa cobertura era sustentada por caibros de andiroba, madeira muito usada pelos ribeirinhos, provavelmente escolhida em decorrência do seu forte odor, capaz de repelir os inconvenientes carapanãs. A acariquara, madeira pesada, era usada para a construção de parapeitos e varandas. O louro vermelho, destinado ao assoalho e paredes laterais.

Toda a estrutura da casa, composta de cobertura, paredes, piso e varanda era posta sobre toras de madeira assentadas sobre “boias” de açacu. O peso fazia com que as “boias” afundassem por aproximados 1 metro, deixando a casa a mais ou menos 50 centímetros da água. Essas “boias” (toros de açacu) garantiam a segurança, a funcionalidade e a condição flutuante da casa.

As ruas da cidade flutuante eram feitas com tábuas de sumaumeiras enormes e grossas, as larguras variavam entre mais ou menos 50 centímetros – conforme Serra e Cruz. Segundo Matias Martinho Lenz, em “Os Flutuantes de Manaus” (Revista da CODEAMA – Estudos Específicos), uma tábua com pouco mais de 2 metros de cumprimento era suficiente para começar a interligar os flutuantes. Quando o rio enchia a cidade subia atingindo o mesmo nível de Manaus, quando vazava, ela descia. Era o rio quem marcava o nível e o ritmo da cidade.

Havia tudo o que uma cidade necessita para sua existência: farmácia, boate, roupas, sapatos, comércio de tudo o que o rio lhe dava. Era comum vê-se a salga de mantas de pirarucu, ensaque de castanhas, venda de quinquilharias, marcação de peles. A cidade desempenhava a função de entreposto de grandes casas exportadoras de couros de jacaré, borracha, sorva, balata, pirarucu, peles de onça, cobra, ouro e contrabando. Abrigava, ainda, bandidos e malandros e tinha até estradas flutuantes com cobranças de pedágio por exploradores e sabidos.

As habitações flutuantes não apresentavam as mínimas condições de conforto e higiene aos seus usuários e constituíam um grave problema de ordem social. Na excelente tese de mestrado de Leno José Barata Souza, intitulada “CIDADE FLUTUANTE” Uma Manaus Sobre As Águas (1920-1967), registra que havia casas “e estancias flutuantes de vários cômodos onde se alugavam quartos para mulheres, prostíbulos de mais ou menos 6 m²”. Informa-nos ainda que “até o início de 1940, a malha urbana da capital não tinha sofrido transformações impactantes. Manaus, além do seu Centro, tinha o Educandos e Cachoeirinha a leste, Mocó/Vila Municipal ao Norte e a oeste destacava-se o bairro de São Raimundo.

Nos anos seguintes, no entanto, aconteceria o que Samuel Benchimol chamou de “…  o começo da explosão urbana na Amazônia”.

A pressão de novas necessidades sociais, propiciadas pelas imigrações dos anos quarenta, fez-se sentir em todos os limites da capital estendidos sobre os terrenos de florestas ao norte, ampliando antigos subúrbios e criando outros; seguindo os cursos fluviais dos terrenos marginais na forma de palafitas, tapiris e, sobre as águas, com moradias flutuantes”.

Poetizando com a tragédia, a revista O Cruzeiro dizia que “a noite o rio se enchia de anzóis atirados das janelas dos casebres, na busca do alimento para o dia seguinte. Do rio se banhavam, comiam e viviam”. Na verdade não pescavam uma sardinha sequer, do pão ao peixe compravam dos botes que os vendiam. O alimento diário era farinha d’água e peixe, carne era artigo de luxo. As casas eram acanhadas e o ambiente insalubre, anti-higiênico e promiscuo. Mas o viés abordado nas revistas era outro: “A cidade flutuante de Manaus é uma espécie de Veneza selvagem e tropical…” (Revista “Manchete); a “Favela Veneziana” ou “Veneza brasileira” (Revista O Cruzeiro); ou ainda a “petit Venezia” (Revista suíça “Amazonie”). Entretanto a realidade era bem diferente, a cidade flutuante, afirma Souza, “era vista como expoente máximo de desorganização urbana e promiscuidade social e sanitária, segundo a fala de César Oiticica, um desses profissionais: A urbanização do caboclo é a sua tragédia, tragédia esta que se reflete, principalmente, em sua habitação (…) Estes agrupamentos tiveram seu ponto culminante na já famosa cidade flutuante do porto de Manaus. As condições sanitárias precaríssimas e a promiscuidade geram toda sorte de contágios e o caboclo desfigura-se física e psiquicamente”.

A proliferação da cidade flutuante, conforme Serra e Cruz, se estendia em direção às águas dos igarapés Manaus, Quarenta e Cachoeirinha, atingindo proporções gigantescas. Em 1960, conforme o anuário do Serviço Nacional de recenseamento de 1963, Manaus contava com uma população de 175.343 habitantes. Os nordestinos que aqui chegavam fugidos da seca e que deveriam se estabelecer no meio rural, optavam por ser “marreteiros” (camelôs), vendedores ambulantes de bugigangas. Naquele ano a cidade flutuante   tinha a seguinte distribuição geográfica: cidade flutuante 881 (em frente à escadaria dos remédios), igarapé do São Raimundo 246, Igarapé de São Vicente 104 e Educandos (Igarapé de Manaus, Bitencourt, Mestre Chico, Cachoeirinha e Litoral dos Educandos) 914. Totalizando 2.145 casas flutuantes.

Souza relata que “nos primeiros anos da década de mil novecentos e sessenta, as incríveis dimensões territoriais e demográficas dos flutuantes de Manaus os transforma em um fenômeno urbano e uma problemática social para as autoridades, em que o título: “cidade flutuante”, construído ao longo deste momento, é o índice histórico mais emblemático.

Diante desta nova realidade, alguns levantamentos oficiais começaram a ser feitos sobre a “cidade flutuante”, visando melhor conhecer o “problema” para, em seguida, dar conta de sua “resolução” materializada na sua completa destruição em 1967”.

Eram portanto quase 12.000 moradores, uma população que superava a maioria dos bairros de Manaus e até de municípios do Amazonas. Isso para os políticos representava um reduto eleitoral nada desprezível. Conforme dito pelo professor Samuel Benchimol, “as grandes revistas nacionais passaram a explorar o inédito e o pitoresco” e a cidade flutuante ganhou “notoriedade que provocava arrepios nas autoridades oficiais e pesadas críticas em uma historiografia tradicional; para esta, Manaus deveria ser recuperada pela sua requintada e civilizada arquitetura art noveua da “Manaus da borracha”, cujo maior símbolo é o Teatro Amazonas, e pelo “Novo Amazonas”, propaganda de governo de Arthur Reis, cujo carro chefe era a Zona Franca, símbolo de progresso e futuro” assina Souza.

Registre-se que nos grandes flutuantes comerciais no centro da cidade flutuante havia luz elétrica, esta obtida através de geradores. Algumas casas a obtinha por meio de “gatos” puxados a partir de algum comércio em terra firme.

Por ser a porta de entrada de Manaus, não havia hipótese de correção, só havia uma coisa a ser feita: acabar com a cidade flutuante, um pedaço da cidade atirada sob as águas do Rio Negro que se constituía em chaga. Um mês após a posse de Arthur Cezar Ferreira Reis, a Capitania dos Portos proibiu a instalação de novos flutuantes nas águas de Manaus e pôs uma lancha para fiscalizar e impedir a construção de novas casas flutuantes, ainda assim, “em sete meses (agosto de 64 a abril de 65) foram construídos quase 400 flutuantes pelo litoral de Manaus” (Souza).

Em 1967, o governador Reis (1964 e 1967), sob forte pressão do Comando Militar da Amazônia e da Capitania do Portos, respaldados pelo governo militar, desarticulou a cidade flutuante, transferindo seus moradores para diversos bairros, dentre eles destacamos Alvorada, Coroado, Conjunto Costa e Silva e Santo Antônio.

Com o crescimento da Zona Franca, durante o governo Henock Reis (75/79), houve uma ameaça de ressurgimento da cidade flutuante – em frente à escadaria dos remédios – dessa vez ainda mais desastrosa, quando ambulantes, vendas de guloseimas, serviço de carga, frotas de catraias com hansenianos vendendo refresco e pão doce, prostituição, droga e contrabando começaram a se alastrar. Em 1980 o prefeito José Fernades transferiu essa população de vendedores para a praia da Panair, hoje Feira da Panair.

No ano de 2000, a revista Amazonas 21 noticiava:Hoje, passados mais de 35 anos, Manaus novamente experimenta um quadro que começa a guardar paralelos com a extinta cidade sobre toras (…) As casas ribeirinhas, elevadas ou flutuantes, verdadeiras habitações subumanas, depois de dominarem os nascentes interiores dos córregos, provocando todo tipo de assoreamento, voltam a se alastrar pela frente da cidade. Logo, se não houver uma providência urgente do poder público municipal, teremos de volta o cancro urbano que em boa hora foi extirpado”. No mesmo ano o jornal A Crítica estampou a seguinte manchete: “A Volta da Cidade Flutuante”. Essa nova tentativa estava ocorrendo “em frente de uma das curvas da nova e ampla Avenida Lourenço da Silva Braga, braço viário do projeto da “Manaus Moderna”; o próprio paredão que a avenida faz com o rio Negro estava sendo usado pelos moradores como apoio e ancoradouro das casas…”.

Essa é mais uma página da cidade de Manaus, aos interessados em conhecer com mais profundidade a história da cidade que flutuava sobre as águas como se fosse uma mão de Manaus estirada sobre o Rio Negro, recomendamos a leitura da tese de doutorado de Leno José Barata Souza, disponível no site do Portal Domínio Público.

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