ESCRAVA MUDA

Em 25 de julho de 2018 às 14:30, por Otoni Mesquita.

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Um dia, te trouxeram para casa em que eu morava. Eu ainda era menino. Não sei como te encarei, nem que sentido te dei. Mas devia ter um significado, assim como as outras coisas que chegavam.  Acho que vi como uma novidade trazida por uma prosperidade carregada pelos novos tempos. Chegastes com outros, e permanecias inerte, na sala, como tímida visita.  Já sabiam de tua função, mas provavelmente, foi a matriarca que estabeleceu onde deverias permanecer. Não tinhas maiores funções, naquela casa, quase uma peça decorativa. A casa de madeira, também era muito simples, ainda que amada, mas depois de um tempo, foi demolida. Uma nova história se processava na vida daquela família.

Depois, quando mudaram, te levaram junto, como uma peça qualquer da mobília, como devias servir. Quase uma escrava, sem qualquer vontade, tinhas que seguir, sem reclamar. Eles mudaram suas roupas, seus discos e hábitos, mas de ti, parece que nada tinham para cuidar. Permanecias firme, ainda que gasta, as vezes num canto e outras, lembrada. Frequentemente, eras deslocada para diferentes lugares.  Mudaram os quadros da parede. Crianças chegaram e cresciam animadas, correndo pela casa, passando por ti.  Às vezes, até te inseriam na brincadeira, mas, não tinham qualquer respeito. Quase sempre te ignoravam, tropeçavam em suas pernas e até te arrastavam. Não ligavam tanto para ti. Te davam muito menor atenção, do que aos programas que passavam na Televisão. Permanecias singela, limitada em sua simplicidade, claramente externada e fora de moda. Quase sempre, parada na sala, talvez só a observar. Uma verdadeira escrava, sem qualquer trato ou deferência. Um ser, quase invisível.

Finalmente, depois de outros tempos, novas mudanças. Eu saí de casa, e ela seguiu comigo, mas não foi uma escolha afetiva consciente. Talvez mais uma atitude da minha pouca praticidade, mas que pretendia tirá-la daquele eterno abandono. Por mais alguns anos, praticamente bolou em minhas descuidadas moradas, mas, muito me apoio nas atividades artísticas, não como modelo, mas assistente de apoio.

Não sei por que, quase um milagre, em dias recentes, se fez evidente, adquirindo um novo sentido. Creio que foram as velhas fotos consultadas. Te encontre entre outros personagens, quase esquecidos, alguns completamente perdidos.  Mas tu, apesar do maltrato, resististes bravamente. Te vi, integravas o conjunto, assim como as poses e cenários, os interiores das casas, detalhes da rua e da praça. Eras o exemplo vivo de um tempo passado e lembrado. Quase uma coisa encantada, que foi praticamente apagada. Não reivindicastes maior atenção, mas finalmente, foste notada e lembrada, ganhaste algum trato, ainda que sem um projeto de te recuperar a matéria. Eras a mesa de centro da casa de minha mãe.

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.