Entrevista com Raimundo Cardoso

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Entrevista com Raimundo Cardoso – Registrado em seu nascimento como Carlos Augusto Lima Paz, ele foi ativista político durante a ditadura e teve de mudar de nome para fugir dos militares. Líder estudantil, militante do PCdoB e um dos fundadores do PT no Amazonas, o cearense Raimundo Cardoso de Freitas é o nosso primeiro entrevistado.

IDD: Como foi o início da sua militância política? Dizem que o senhor atuou diretamente no front de batalha da Guerrilha do Araguaia…

Raimundo Cardoso: Não é bem assim… Minha militância no movimento armado começou efetivamente no Espírito Santo, numa região de posseiros localizada no norte do estado, no município de Ecoporanga, mais precisamente em Cotochés. Dali eu fui para o Mato Grosso e levei várias pessoas comigo. Eu já era do PCdoB e, naquele momento, meu papel era de recrutamento e de organização para a guerrilha. Eu não lutei no Araguaia de arma na mão, isso é um exagero. Participei, sim, de treinamento militar, em várias atividades, e também na formação política dos quadros. Em 74 a guerrilha foi dizimada. Foi até um erro crasso, um erro primário da companheirada… me desculpe, eu tenho todo o respeito…, mas foram fuzilados praticamente em massa numa reunião clandestina na floresta. Com isso, o partido ficou esfacelado.

IDD: Como o senhor veio parar em Manaus?

Raimundo Cardoso: Nós havíamos sido derrotados pela ditadura no Araguaia. O PCdoB, que era o partido que eu militava na clandestinidade, estava praticamente desmontado. Alguns mortos, outros desaparecidos… eu fiquei praticamente sem contato com a comissão executiva que era responsável pela guerrilha no Brasil. A pessoa que tinha ligação comigo, o Carlos Nicolau Danielli, tinha sido fuzilada, em 72, na organização da guerrilha, porque ele era o cabeça da organização guerrilheira. Só depois de muito esforço é que consegui um contato em São Paulo novamente. Depois me orientaram a ir para o Projeto Jari fazer um trabalho lá de organização e de movimentar ali um protesto contra o Projeto Jari. Em seguida, fui a São Paulo e lá me deram outra ordenação, para ir a Manaus. Então eu me desloco para Manaus, com a coragem e a cara. Eu vim via Belém: ônibus até Belém, de lá embarquei no navio da Enasa para Manaus. Sem dinheiro, sem nada… o rádio, que era a única coisa que eu tinha, vendi para chegar até aqui (risos). Cheguei aqui no dia 10 de abril de 1975 e me hospedei numa pensãozinha na Joaquim Nabuco. E fui arrumar um trabalho para poder viver.

IDD: Mas o senhor já tinha mudado de nome?

Cardoso: Minha carteira de identidade já era de Raimundo Cardoso. Essa carteira eu assumi em 1972 com o registro de nascimento de Raimundo Cardoso de Freitas. Quem me ajudou nessa troca foi o PCdoB mesmo. Foi feita num quiosquezinho no interior do Ceará, na divisa com o Piauí, numa vilazinha onde tinha um cartório, tipo um quiosque. Estou registrado lá. Com isso, eu tirei o restante dos documentos… a carteira de trabalho, em Almenara, no Baixo Jequitinhonha, em Minas Gerais… certificado de reservista de terceira categoria do Exército, no município de Normandia, dispensado… E fui tirando. Cheguei aqui todo regular. Quando eu estou aqui, trabalhando na Zona Franca, constato que andava muito nordestino por aqui, e vários cearenses que passavam que eu conhecia… não podiam me ver. Aí eu tive que sair daqui, porque sabiam meu nome verdadeiro, sabiam de tudo.

IDD: E o senhor foi para onde? Quem lhe ajudou?

Raimundo Cardoso: Aqui em Manaus eu encontrei a Dra. Marília Teixeira, uma médica casada com o Dr. Orlando, que estava em Itacoatiara, clinicando. Ela me levou até o Orlando, e ele, entendendo minha situação, me apresentou ao Marcus Barros. O Marcus era médico com mestrado já, lá da Fundação Oswaldo Cruz. E ele estava organizando uma equipe para ir para o Alto Solimões atuar junto ao hospital da prelazia, em São Paulo de Olivença. Eu tinha um curso de laboratório, que tinha feito durante dois anos e meio, já tinha a prática. Então consegui vaga na equipe, para sair daqui. E fui para lá, acompanhando a equipe dele. Marcus, Marli (que era esposa dele, também médica), Jordeval (recém-formado médico), Carmelinha (odontóloga), Alcidélia (que depois casou com o irmão do escritor Márcio Souza, também médica), uma equipe muito boa. Chegamos em São Paulo de Olivença, o hospital todo montado, de primeira qualidade, e então fomos organizar. O centro cirúrgico importado da Itália, tudo bonitinho, mas parado por falta de médico. Conclusão: o hospital criou vida. Tinha muita coisa hospitalar vinda da Inglaterra, mas tinha também recurso internacional da prelazia. E aí nós começamos a desenvolver o trabalho.

IDD: É verdade que o senhor liderou um movimento para derrubar o prefeito de lá? Qual o motivo?

Raimundo Cardoso: Não sei por que cargas d’água e estupidez o prefeito local era inimigo do bispo. E o bom político pode brigar com todo mundo, menos com o bispo ou com o padre (risos). Chegamos e nos deparamos com esse problema de sofrer resistência da prefeitura. Começamos a trabalhar e a coisa repercutiu na região, começamos a ganhar apoio da população, que começou a aderir. Para se ter uma ideia, vinha paciente de Benjamin Constant, onde havia hospital militar. Vinha gente até da Colômbia para São Paulo de Olivença. E aí a coisa ganhou corpo. O prefeito usava o alto-falante da prefeitura para nos acusar, nos combater. E, numa certa feita, alguém, inimigo do prefeito, chega para mim e diz que tinha algumas coisas contra o prefeito, do ponto de vista da ilegalidade, da sacanagem. Eu disse para ele me trazer. Aí um dia chegou um rapaz lá com umas notas frias. Depois ele me diz que o prefeito tinha funcionário da prefeitura na praia da Germana, no Alto Solimões, prendendo tartaruga e coletando ovos para trazer para vender aqui em Manaus. Nesse ínterim, a Marli Barreto, esposa do professor Marcus Barros, ia dar à luz um bebê e o sangue dela era Rh negativo, difícil aqui. Então, a mãe a chamou para ela ir ao Rio de Janeiro, terra dela, para ter a criança lá. Aí ela saiu, se afastou. O Marcus teve de acompanhar a esposa também. Eu aproveitei isso e comecei a dizer na cidade que os médicos estavam indo embora por causa do prefeito (risos). Espalhei um zum-zum-zum só para criar um clima. Quando foi à noite, veio um pessoal para o hospital perguntar se era verdade. Eu disse que era, porque nós não estávamos ali para brigar, e sim para fazermos um trabalho de saúde para o povo local. Que nós tínhamos um compromisso com o estado do Amazonas, com a prelazia etc. Mas que os médicos achavam que iriam se desgastar com o prefeito. No dia seguinte, abri o alto-falante da prelazia e começou a denúncia. E aí, à noite, encheu de gente, foi uma passeata para o hospital. Eu disse para a turma que só tinha condições dos médicos voltarem se houvesse uma atitude do governador. E o governador era o Henoch Reis.

IDD: E como vocês conseguiram levar isso até a capital para o governador?

Raimundo Cardoso: Eu consegui um abaixo-assinado da Câmara, da população e também um ofício da prelazia, pedindo a volta dos médicos. O prefeito tinha um inimigo político muito forte e muito ligado ao governador, que era o Mário Hadad. Então vim a Manaus e procurei o Fábio Lucena que trabalhava no jornal A Crítica. Eu disse a ele que precisava de uma pessoa peituda, raçuda, corajosa para fazer uma matéria em São Paulo de Olivença. Ele disse que A Crítica não tinha dinheiro para mandar ninguém, mas me apresentou um jornalista por nome de Mário Jorge Correia. Esse cara foi. Quando chegou lá, ele foi disfarçado como representante de uma firma de enlatados, de Curitiba-PR. Então ele entrevistou o prefeito, todo mundo, o hospital todo, pegou um barco da prelazia e desceu o rio. Aí pegou as tartarugas presas, o pessoal trabalhando, fotografou tudo. Depois voltou à capital e fez uma matéria grande no jornal A Crítica. Foi um estardalhaço. Eu pego a matéria do Mário Jorge, desço o rio, pego um voo e venho para Manaus, encontro o Mário Hadad e entrego a ele o material. No mesmo dia, ele pede uma audiência com o Henoch Reis. Quando o governador viu aquilo e viu que o negócio era forte, o governador chamou um secretário e disse para ele fazer uma portaria demitindo o prefeito de São Paulo de Olivença. No dia seguinte, estava publicado no Diário Oficial e o prefeito foi demitido. Eu volto para São Paulo de Olivença, fui ameaçado pela família do prefeito. O prefeito tinha um filho que era coletor e outro que era representante do município em Manaus. A filha era chefe da rede escolar e o outro filho era chefe das construções da prefeitura lá. Era um feudo. Se ele sonhasse que alguém não gostava dele, mandava prender, bater etc. Então nós enfrentamos isso lá.

IDD: Quando o senhor voltou para Manaus e quando aconteceu a sua entrada na Universidade do Amazonas?

Raimundo Cardoso: O tempo foi passando e em 76 eu resolvi ir embora para a África, para lutar em Angola, onde estava havendo guerra civil de libertação contra o colonialismo português. Os médicos do Marcus Barros realmente já não iam ficar mesmo em São Paulo de Olivença. Eu vim embora para Manaus a fim de tirar meu passaporte e ir à África. Foi aí que eu li no jornal que a Secretaria de Educação do Amazonas estava inscrevendo para prova de supletivo do segundo grau. Eu olhei aquilo e pensei comigo mesmo: “Gente, eu sou um pião. Não tenho certificado de nada. Sou um pião qualquer. Eu vou para a África… se eu escapar vivo de lá, eu vou ser o quê?!”. Aí eu fui à Seduc, que era aqui na Praça da Saudade, e me inscrevi. No dia que eu apareci, fiz as provas e passei. Depois eu vi que ia ter vestibular para a Universidade Federal. Fiz um cursinho no Einstein para relembrar algumas coisas. O Francimar também fez cursinho lá e vários outros colegas que foram para Agronomia fizeram lá também. Fiz minha inscrição no vestibular e passei em 76. Era a primeira turma de Agronomia, que tinha, entre outros, Jasiel, Trajano, Marilice, Cardoso, Néliton, Neves e Francimar. Eu trabalhava, depois, arrumei uma bolsa no Inpa para poder me manter. Em seguida, consegui um crédito educativo. Na convivência com o Francimar, eu me aproximava muito da turma mais estudiosa, que eu precisava ter um ponto de apoio para poder estudar, e ele sempre me trazia aqui na casa dele. Ele via que eu não tinha família e sempre me trazia aqui. Eu morava num pequeno apartamento que ficava em cima da clínica do Nelson Fraiji, na Floriano Peixoto. Eu ia para o Campus num corcel, que era chamado de “cata-corno” (risos) … a gente saía daqui e ia catando os amigos… isso demorou ainda uns três anos. Era o carro mais conhecido na universidade. Geralmente iam no carro eu, Francimar, Trajano, Neves… ele chegava cheio, lotado. Era corno demais (risos). O primeiro semestre foi no prédio da Epaminondas, depois nós fomos para o Campus, em março de 77.

IDD: Ainda havia ligação do senhor com o PCdoB nessa época?

Cardoso: Quando eu estava em São Paulo de Olivença, o combinado com meu contato do partido era que sempre no último domingo do mês ímpar eu tinha que vir a Manaus e ir direto ao ponto de encontro que ficava em frente aos correios. Eu vim a primeira vez, não apareceu ninguém. Aguardei o próximo mês ímpar, fui lá, no último domingo, às 10h em frente aos correios… não apareceu ninguém de novo. Repeti isso até dezembro de 76, quando houve a queda do “aparelho” da Lapa, em São Paulo, aonde foi morto o Pedro Pomar, entre outros. Aí eu suspendi a operação, por questão de segurança.

IDD: E como era o clima no Campus quando o senhor chegou à UA? Já havia algum núcleo político entre os universitários?

Raimundo Cardoso: Ali todo mundo tinha medo de todo mundo, uma insegurança total. Tinham muitos professores ligados ao regime, alunos também. Chegavam sujeitos lá, disfarçados de aluno, com bloquinho de anotações. Assistiam aula, depois desapareciam e nós só víamos muito tempo depois, e aí voltavam a desaparecer. A gente começou a desconfiar que eram da “Informação”. Eu fui vendo quem era quem. Certa feita, acho que no segundo ano já (ou no final do primeiro para o segundo semestre), eu peço uma reunião com os estudantes de Agronomia para discutir o curso: não tinha restaurante na universidade. Apareceram só dois. Outra reunião, vieram cinco. Eu constatei que o pessoal não tinha coragem para discutir determinadas coisas, os problemas da ditadura e os problemas internos da Universidade. Então, conversando com o Francimar e com o Eronildo (que também foi da primeira turma), fomos atrás do curso de Educação Física para realizarmos os “Jogos da Agronomia”, às sextas-feiras, à noite. Quando a Agronomia ia para os no Campus, ia todo mundo, inclusive membros das famílias. Foi uma jogada inteligente para poder congregar o pessoal e integrar a moçada. Isso deu resultado, porque nós começamos a nos integrar, a nos conhecer, entre uma conversa e outra, explicando sobre Agronomia, explicando sobre a Amazônia. Até que um dia a gente começou a dizer que o estudante não podia ser apenas mecanicista, mas sim um elemento pensante, político etc. E fomos trabalhando. Quando foi um dia, nós marcamos outra reunião, já foi bem mais gente. Aí eu pensei: “consequência da quadra”. E nunca mais abandonamos as quadras.

IDD: O jornal “O Grão” foi dessa época também, assim como o famoso Cuca?

Raimundo Cardoso: “O Grão” nasceu antes mesmo do centro universitário de Agronomia e ele saiu num momento oportuno e estratégico, porque se aproximavam as eleições. Então eu disse que nós íamos preparar um trabalho político dentro da Universidade. Existiam algumas cabeças interessantes – o Bessa, Márcio Souza que fazia ali a parte cultural – e a gente discutia, debatia… e eu sem dizer quem eu era. Eu nunca falei na Universidade quem eu era. Questão de segurança. Várias pessoas escreviam no “Grão”. Eronildo escreveu… eu não me lembro se escrevi alguma matéria naquele momento. Saíram várias edições. Quando “O Grão” saiu foi uma repercussão. E aí lá vinha a ameaça de expulsão. O jornal era em offset… nós conseguimos patrocinadores. Quando nós íamos fazer um evento qualquer, tinha a Coca-Cola que nos ajudava, CCE também. Quando saiu “O Grão”, logo em seguida saiu o Cuca, Centro Universitário Cultural de Agronomia, e aí gerou uma repercussão muito grande na Universidade. E então veio uma ameaça de cassação. E aí nós resolvemos: se cassarem, nós tiramos “O Grão” e o Cuca de dentro da Universidade e alugamos uma casa lá fora e montamos uma sede. Essa era a estratégia. Nesse momento, já estavam trabalhando o Eronildo, João Pedro, Crisólogo (eu tinha uma certa resistência ao Crisólogo, porque ele era filho de coronel, mas foi um equívoco meu). Francimar era um aliado importante e potencial nessa parte aí, ajudava muito. Tinha uma menina, a Sônia Alfaia, que vivia querendo me levar para a igreja evangélica… e tentava Eronildo, todos nós. Quando foi um dia de uma passeata, nós chamamos a Soninha e dissemos para ela segurar uma faixa. E nessa passeata ela começou a se “movimentar”. Nesse momento de lutas e passeatas, debates, reuniões, assembleias etc. ela começou a se aproximar da gente. Conclusão: a Soninha deixou de me convidar para a igreja e depois passou a participar com a gente no movimento.

IDD: Como aconteceu a formação da primeira diretoria do Cuca e qual foi o primeiro movimento importante realizado por vocês?

Raimundo Cardoso: Na formação do Cuca, o pessoal era unânime que eu fosse o presidente do centro acadêmico. Eu dizia que não podia, que não tinha como, que o candidato era o Eronildo (risos). O Eron, ele dava suas contribuições, era uma pessoa interessada, sempre tinha algumas iniciativas. Eu digo com toda sinceridade: desde que não fosse um elemento inexpressivo, tivesse boa vontade e quisesse ajudar o curso de Agronomia, a Universidade, que desenvolvesse algumas coisas interessantes, seria a pessoa ideal naquele clima, naquela conjuntura para poder assumir o Cuca. Menos eu. Acabou que eu fiquei na secretaria e o Eronildo foi o presidente. Nossa primeira reivindicação foi o Restaurante Universitário. Nós chegávamos 7 horas da manhã, terminava a aula meio-dia e algumas recomeçavam às 13 horas. A gente ficava lá, comendo sanduíche de uma cantina. Era uma coisa muito desconfortável para o aluno. E a obra do restaurante parada, sem ninguém saber o porquê. E a gente se esperneando, se movimentando para que ela continuasse. Para a obra continuar, nós tínhamos que criar um fato, fazer a coisa repercutir. Daí veio a ideia da gente fazer uma manifestação interna. Então nós criamos uma comissão. Conseguimos dinheiro e fomos comprar prato de alumínio e colher. Paramos as aulas, chamamos a imprensa, vários jornais… isso é em 1977…. Suspendemos as aulas, fizemos faixas e botamos o pessoal segurando os pratos e as colheres para cima. As fotos que saíram no jornal foram dos pratos vazios para cima. A reação da Reitoria foi grande, o reitor se mobilizou. O próprio Mourão mandou me chamar e então assumiu um compromisso com a gente, que iam entregar o restaurante. Ele deu prazo… foi rápido. Ele disse que a construção seria na outra semana. A obra ficou pronta em dois meses, muito rápido.

IDD: Vocês chegaram a expulsar professor?

Raimundo Cardoso: Sim, sim. Foi a primeira greve que nós fizemos na Universidade, acho que foi em 79. Esse professor, o pessoal endeusava: “um baita de um cientista, um pesquisador emérito”… Eu dizia que não era bem assim, porque sempre desconfiava desse professor. Ele passava prova complicadíssima para ferrar um aluno, “pegar” uma aluna etc. E um dia ele passou uma prova tão esculhambada, que até os geniozinhos se ferraram. Eu me ferrei todo. E aí gerou um protesto. E a gente pedia o resultado das provas, e não deram… Nós fizemos uma reunião com esse professor. Ele veio para a reunião com as provas. Quando ele veio falar para a gente o que nós tínhamos errado, a gente perguntava se ele sabia responder as questões, ele respondeu que não… várias questões. Teve gente que amassou a prova e jogou na cara dele. Teve gente que quis bater nele, agredir. Pedi calma do pessoal, para a gente agir de outra forma. Aí entramos em greve… Para você ver, uma das perguntas da prova era essa: “Quais as diferenças que se assemelham entre ascomicetos e ficomicetos? ”… Diferenças que se assemelham, como assim?? (risos). Essa pergunta foi a mais cabeluda, mais absurda de todas. E teve outras questões sem-vergonha também. Fizemos uma assembleia e solicitamos o afastamento do professor. Foi o reitor Hamilton Mourão que determinou a saída dele. Para ele voltar levou um tempo. Acho que quem ficou no lugar dele foi o professor Vicente. Por falar no Mourão, quero ressaltar que ele foi a pessoa que mais soube administrar essa questão estudantil aqui. Se eu disser que o Mourão mandou perseguir alguém, eu não conheço. Depois do episódio do Restaurante Universitário, toda decisão importante ele mandava me chamar, para consulta. Dava a impressão de que ele tinha pânico de alguma coisa que eu pudesse fazer (risos).

IDD: E como foram as articulações para a retomada do Diretório Universitário?

Raimundo Cardoso: Com a fundação do Cuca, consequentemente foram sendo criados novos centros acadêmicos, como os de Medicina, Filosofia, Comunicação Social… aí foi se disseminando, e outros jornaizinhos foram saindo em outros cursos, a exemplo de “O Grão”. E aí já havia os membros que comporiam a chapa que disputaria a presidência do DU. Trabalhamos clandestinamente, articulando, conspirando. Fomos pegando as peças. O pessoal querendo me colocar como “cabeça”. Mas eu já tinha informação, embora não o conhecesse, do José Carlos Sardinha, de Medicina, que estava em Cuiabá, mas ia chegar. No curso de Medicina tinha uma moçada muito interessada, participativa, que passou a contribuir muito na questão do DU. E o pessoal querendo me colocar na “cabeça”?! Seria um desastre, uma porrada muito grande em cima de mim. E eu já sabendo do Sardinha, disse que o nome era o dele, pois teríamos o apoio do curso de Medicina. E cá pra nós, o Sardinha era o cara, um bom articulador também. Um bom discurso, uma boa liderança. Nós tínhamos uma aproximação muito forte com os Bessa. O João Tomé fez parte da chapa, atuou muito com a gente. O pessoal tinha certa resistência, por causa do pai dele. Mas eu dizia para o pessoal que não tinha nada a ver. O pai era o pai e o filho era do “PCBão”. E o Tomé deu uma contribuição muito grande. Nós também tínhamos muita aproximação com os Cirino.

IDD: Qual foi o resultado dessa eleição?

Raimundo Cardoso: Na eleição tinham cinco chapas e a soma de todas as quatro foi inferior aos votos que obteve a nossa chapa vencedora, a “Reação”. Votaram 4.665 alunos, nós tivemos 2.415 votos. Mas a gente já sentia isso. Eu lembro que nas preparações, uns dois meses antes da eleição do DU, era um domingo, jogo da França com o Brasil, na França. Nesse tempo a seleção era muito boa e ninguém perdia de assistir ao jogo em momento nenhum. Nesse mesmo dia nós tínhamos uma reunião dos componentes da chapa no Beco do Macedo, na casa do padre César. Quando eu vi a turma toda ali, percebi que as coisas estavam se encaixando, que a turma estava assumindo a responsabilidade. Imagine só: um domingo, jogo da seleção brasileira, e todos lá na reunião. Como estratégia nós publicamos “O Grão” na véspera da eleição. Quando saiu, que foi distribuído em toda a Universidade… A manchete era algo sobre mudar o DU. E logicamente que tinha a propaganda da chapa. Aí, meu amigo, fomos para a eleição. Tinham cinco chapas disputando e essa divisão nos ajudou. Como os alunos estavam querendo mudança e havia um clima de insatisfação, de protesto generalizado no país, principalmente dos jovens, nós acabamos vencendo.

IDD: Mas nesse momento a sua relação com o PCdoB já não era mais a mesma ou o senhor chegou a participar da reorganização do partido no Amazonas?

Raimundo Cardoso: Eu estava ainda com as intenções de reorganizar o PCdoB. Daí o motivo do trabalho com o Eronildo, com o João Pedro e com outros mais para criarmos uma base do PCdoB, pensando também no George Tasso, que tinha muita ligação com os trotskistas. Mas eu via na turma ainda muita imaturidade para participar do PCdoB. O PCdoB que eu participei era muito mais exigente em termos de quadros, de disciplina, de organização. E aí, dentro da Universidade eu achava que devia reorganizar o partido. Mas aí, veio o congresso de reorganização da UNE, em Salvador. Trabalhei e atuei muito para ajudar a formar delegados para ir a esse congresso. Da Agronomia foi o Eronildo, foi o João Pedro, foi o Chico Braga… eu não fui, não sei se o Tasso chegou a ir. Eu não fui por questão de segurança também. Lá, o pessoal daqui conheceu o João Amazonas e ficaram deslumbrados com ele. Então falaram que tinha aqui um estudante, e deram meu perfil para ele. Aí o João Amazonas virou para outro e disse: “Deve ser o Parangaba. Vamos atrás dele”. Daí, quando chega em outubro de 80, chega aqui um militante do PCdoB que cobria os pontos quando eu ia em São Paulo, que estudou no Ceará, que era o “Zó”. O “Zó”, então, veio aqui à minha procura. Só que, antes disso, em 79, vieram as teses de formação do PT, a criação do Partido dos Trabalhadores. Eu isolado aqui desde 75… e eu querendo reorganizar o PCdoB, mas… cadê essa turma? Cadê isso, cadê aquilo? Conclusão: quando eu li as teses do PT, que eram teses bem adequadas, bem maduras, que estavam dentro da realidade brasileira naquele momento histórico, teses bem elaboradas, bem trabalhadas, com proposições bem feitas, eu vi que tinha que olhar melhor aquilo. E fui relendo e discutindo.

IDD: Foi isso que fez o senhor deixar o PCdoB e se filiar ao PT? Como aconteceu essa mudança?

Raimundo Cardoso: O PT vinha com um projeto de construção de um Brasil, de reforma agrária, da juventude, da cultura, do conhecimento, da educação. Era uma coisa bem fundamentada. E estavam acontecendo a Revolução da Nicarágua, mais isso, mais aquilo, as guerras de libertação por aí tudo. Eu decidi ir por ali. E comecei a ajudar nisso aí. Isso fez eu sair de uma vez por todas do PCdoB. Incorporei as teses do PT, me filiei ao PT aqui em 79. Então em 80 chega aqui o “Zó” para falar comigo, eu já no PT… ele traz o jornal “A Classe Operária” com matérias fortes contra Genoíno, contra Oséas… eu conhecia os dois das lutas estudantis no Ceará, o Oséas há mais tempo. Quando eu vi aquilo, falei que não aceitava, porque o Oséas tinha passado cinco anos na prisão, o Genoíno a mesma coisa… não traiu, nem dedurou, nem isso e nem aquilo. Estavam sendo acusados porque tinham pedido um congresso para discutir Araguaia e atualizar o partido para a nova conjuntura… porque há 20 anos não acontecia um congresso. Por causa disso, eles começaram a ser acusados pela comissão executiva. E aí publicaram essa coisa. E ele me deu o jornal, disse para eu ler e levar a minha opinião a ele no outro dia. Nesse dia que ele me encontrou, me abraçou, foi uma emoção grande dele… me chamou de herói, dizendo que o partido tinha que me tomar como exemplo. Disse que eu era um revolucionário autêntico, exemplar. Eu disse a ele que ele estava atrasado cino anos, tantos meses, tantos dias, tantas horas. Mas mesmo assim, eu o encontraria. Nosso encontro foi na Praça da Polícia. Eu disse a ele que, para eu poder tirar uma conclusão, o jornal teria que dar direito de resposta a eles, senão não tinha conversa. Disse a ele que não admitia essa prática negativa contra companheiros que deram a vida toda… e quando fazem uma crítica, é condenado… Então eu falei para o “Zó” que eu estava filiado ao PT. Que eles, do PCdoB, tinham feito de mim um sujeito insignificante, sem expressão no partido. Eles me procurarem depois de tantos anos era uma falta de coerência, de respeito e de solidariedade a uma pessoa que havia dedicado a vida ao partido. Eu falei: “Eu desafio qual foi o quadro do partido, fora os que morreram, que fez tanto pelo partido quanto eu, deu a vida”. Ele abaixou a cabeça e foi embora. Depois eu soube que ele também saiu do PCdoB.

IDD: É a partir desse momento que o Eron Bezerra toma as rédeas do PCdoB no Amazonas?

Raimundo Cardoso: Sim, o Eronildo e a turma dele assumiram o PCdoB. Aqui vale uma observação: quando esses caras vieram do congresso de reorganização da UNE e assumiram a direção do PCdoB aqui, eles “sabiam” mais de marxismo do que os dois físicos que fizeram a bomba atômica sabiam de Física. Agora, imagine só, eu, com toda essa militância, era analfabeto em marxismo, mesmo depois de tanta leitura que eu já tinha feito… Conclusão: passaram até a me perseguir. Fizeram assembleia contra mim, fizeram julgamento da minha pessoa… e eu assistindo aquilo, às vezes calado, quieto, me rasgando por dentro, vendo o primarismo político de alguns companheiros aí que não entendiam patavina de lutas políticas e de lutas contra o inimigo maior, num momento em que precisava juntar forças. O tempo foi passando e o companheiro quando acha que é o dono da verdade, ele assume atitudes muito isoladas, atitudes pessoais e assim por diante. Andaram aí querendo diminuir a pessoa do Cardoso, e eu nunca levei desaforo para casa. Bateu, leva. E então eu tive que tomar algumas atitudes. Mas, aquilo passou. Eu fiquei quieto, até um pouco isolado. E depois veio uma outra eleição no DCE…

IDD: E aí veio o troco…O senhor derrotou o PCdoB na eleição do DU.

Raimundo Cardoso: O pessoal do PCdoB começou a preparar uma chapa já perto da eleição. Eu já vinha conspirando uma chapa pelo PT muito antes, nos bastidores. E aí surgiram uns comentários sugerindo me chamarem para uma conversa com o PCdoB. Mas disseram: “Não! Deixa o Cardoso para lá, que ele não tem voto”. A Sônia foi e disse: “Cardoso tem voto, sim. Não brinquem, que o Cardoso tem muito voto dentro da Universidade. Tem muita aceitação”. Aí o João Pedro deu umas indiretas para mim, e eu disse a ele que não ia apoiá-los. O nome da chapa que eu organizei foi “Pé na Terra”. Deu um blá blá blá danado, porque o “Pé na Terra” era uma chapa que significava PT (risos). Antes disso, sugeriram que o nome da chapa fosse “Pé na Base”. Mas aí, conhecendo o nível dessa outra chapa aí, se eles dissessem que aqui é do PT, eles iam dizer que era “Pé na Bunda” dos estudantes. E nós escolhemos “Pé na Terra” mesmo. Tinha sala que dizia: “Ora porra, se for PT, o que é que tem?”.  Na minha vida, aprendi uma coisa: eu sou falho, tenho minhas debilidades, minhas limitações. E quando alguém me corrige, quando alguém me ajuda numa coisa que seja importante para a construção de algo, eu agradeço muito. Não faço nada só, ninguém faz nada só. Então, fomos para a campanha. Eu dizia: “Companheirada, vocês me desculpem, mas eu não vou para a chapa, não tenho como. Seria até oportunismo meu, vaidade, individualismo. Não é por aí. Mas vou ajudar na campanha, vou para as salas”. Aí eu chegava nas classes, acompanhando a chapa e apresentava aquela chapa apoiada por mim. E eu explicava que era “Pé na Terra”, porque aqui na Universidade vinham as coisas lá de fora, trazidas pela UNE e eram aceitas. A Amazônia era diferente. Estava dentro do contexto brasileiro, mas a cultura, o espaço, a realidade aqui era bem diferente das aspirações dos estudantes do Rio, de São Paulo. Quando eu digo “Pé na Terra”, é a mente voltada para a terra, cultura e povo amazônicos. E eu fui de sala em sala, embora o Públio Caio, nosso candidato a presidente, também tivesse um bom discurso. Mas acredito que ajudei muito, explicando o nome da chapa e fazendo um histórico das lutas estudantis na Universidade. E como você sabe, foi a lavada que aconteceu. Mérito de um conjunto de fatores que contribuíram para aquilo ali, inclusive o discurso do candidato, os membros da chapa etc. Se a companheirada do PCdoB tivesse tido simplicidade, humildade, companheirismo, mais competência em articular algo maior, a história poderia ter sido outra. Mas o erro… o dono da verdade, o suprassumo dessa coisa estudantil da Universidade levou a essa derrota, porque os estudantes… ninguém gosta do personalismo, do individualismo.

IDD: Dentro da UA, quais professores apoiavam o movimento estudantil e quais estudantes eram os melhores oradores?

Raimundo Cardoso: Dentre os professores da Universidade que sempre ajudaram o movimento, posso destacar Moacir Lima, Nelson Fraiji, Marcus Barros, Sinésio, Nonatinho, Mesquita. Os melhores oradores da classe estudantil no meu tempo eram Públio Caio, o Eron, que aqui e ali falava um discurso bom. Aliás, quero abrir um parêntese aqui: eu quero louvar o Eron, que, ao modo dele, do jeito dele, fez crescer o PCdoB. Eu louvo o Eron, ele e outros… tem seus predicados. Todo mundo tem virtudes, apesar dele ainda não saber o que é marxismo até hoje. O Sardinha também era muito bom orador. O Tomé Mestrinho era um grande organizador, articulador de bastidores… a escola PCB era isso, conspiração de bastidores. Tinha um colega de Medicina que era um bom conspirador também, não aparecia. Não me lembro do nome agora.

IDD: E quando o senhor saiu do Amazonas e foi para o Acre?

Raimundo Cardoso: Eu colei grau em março de 81 na UA e fui para o Acre no mesmo ano, cortando de vez minhas relações com o Amazonas. Eu estava muito queimado aqui, muito conhecido. Os órgãos de informação tinham conhecimento de mim. E vinha eleição para governador em 82. E eu não ia participar dessa eleição ajudando A ou B, porque eu não acreditava. O Mourão me convidou para lecionar. Eu não aceitei, porque se eu fosse descoberto depois aqui, ia sobrar para ele. Eu teria cometido um ato desonesto com ele. Fui para o Acre porque lá ninguém me conhecia, era um dos poucos estados brasileiros que eu nunca tinha ido. E lá estava havendo umas escaramuças rurais contra os paulistas que estavam grilando e expulsando seringueiros. Como disse antes, minha intenção era ir para Angola. Não fui mais porque a guerra civil tinha acabado. Aí decidi ir ajudar no Acre. Cheguei lá, não conhecia ninguém. E como tinha carência de profissionais, eu ingresso na Comissão Estadual de Planejamento Agrícola, uma equipe boa, e fiquei trabalhando projetos agrícolas lá. Mas também começo a dar assistência no meio rural, lá nas lutas. Em maio de 81 conheci Chico Mendes. Fui ao Acre para passar um ano, até com intenção de voltar para cá depois. Conheci Chico, Marina, Bino… Marina que fazia Faculdade de História lá, Bino também. Eu passei a dar assessoria para ele. Me apresentei ao PT também, fui ajudar o PT, estava organizando, prestando assistência ao DCE de lá. Conheci Chico Mendes em maio de 81. Participei de reuniões com o pessoal de Xapuri e comecei a entender aquele trabalho todo ali, aquela desigualdade enorme. Era estilingue contra metralhadora e fuzil.

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