É um menino!

Em 9 de abril de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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É um menino! – “No principio era o verbo e o verbo se fez carne”1, “Baaaanng!!!”2. Dois supostos começos para o nosso velho Universo. “No dia em que Santiago Nasar iria morrer…”3. ”Nonada”4. Parágrafos iniciais de dois grandes romances latino americanos. “Penso ser possível alcançar as Índias e o Reino de Cipango velejando para o oeste! ”5. ”A sorte está lançada! “6. Começo de duas grandes aventuras.

“É um menino!!!” Gritou a parteira para os que me aguardavam na sala, na noite de 31 de dezembro de 1954. Assim começou a minha grande confusão pessoal a que chamarei, para os fins que se fizerem necessários, de, vá lá… vida. Não que eu pudesse ser uma grande novidade, pois era o décimo primeiro, no que seria um grupo de doze, ou, décimo sétimo se vingassem os quatro primeiros que não atingiram o primeiro ano de vida. Ou décimo quinto de dezessete, se for verdade a lenda de que minha mãe teria sofrido um aborto espontâneo. Parece-me, ainda, que meu pai houvera casado anteriormente.

Tivera filhos, o que me coloca ainda mais na rabeira da fila. Absolutamente sem importância.

Sem nenhum atributo físico marcante que me distinguisse para melhor, em relação a meus irmãos e mesmo aos moleques da vizinhança, a partir de dois anos meu esquálido corpo passou a ser agitado e desligado por crises convulsivas periódicas, que receberiam o diagnóstico de epilepsia. Não faltaram vizinhos e conhecidos que atribuíram aquelas mazelas a feitiços, mau olhado, coisas do povo que frequentava o canjerê. Indivíduos depositários do mais profundo ódio de meu pai, que a eles atribuía a doença mental, que teria ceifado a vida de sua primeira esposa. Profundamente religioso, se bem que à sua maneira, meu pai detestava as pessoas que acreditavam ou que militavam no candomblé, macumba, feitiçaria espiritismo e correlatos.

Se saudável eu não era ninguém, a epilepsia tornou-me centro das atenções, o que demandava cuidados. E, até onde consigo me recordar, eles foram fartos. De minha mãe, de meu pai e de meus irmãos. Alguém sempre estava escalado para cuidar de mim. Se sobreviesse alguma crise epilética, o plantonista seguraria o rojão. Era também responsável por ministrar-me as doses adequadas de Gardenal com chá de hortelã e raspa de chifre de boi.

Vantagem adicional proveu-me ainda a epilepsia. Periodicamente tinha que viajar para consulta com o especialista que cuidava do meu caso, em outra cidade. O ônibus (Empresa Malerba ou Pássaro Marrom), pastéis de carne ou empadinhas com caldo de cana, no boteco da rodoviária, privilégios inesquecíveis aos quais os saudáveis da casa raramente tinham acesso.

Meu irmão mais velho adorava música lírica ou napolitana. Tinha um amigo que era o barítono (ou tenor) do coro da igreja local que, por sua vez, adorava tomar o meu Gardenal, e que se ofereceu para ser meu padrinho. Este mesmo irmão era o goleiro do melhor time de futebol da cidade, verdadeiro ídolo local, donde o técnico do time viria a ser o meu outro padrinho.  Apadrinhado pelas artes e o esporte, alguns me propugnaram um luminoso futuro nessas esferas do fazer humano.

O grande maestro e compositor Carlos Gomes teria sido a inspiração primeira para o meu nome, mas alguém mais sensato, certamente, recomendou incluir um José, antecedendo o Carlos. Humildade e caldo de galinha jamais fizeram mal a ninguém.

Conforme os relatos familiares, nasci por volta de 23h 45min de 31 de dezembro. No entanto meu pai registrou-me no cartório local como tendo nascido no dia 1º de janeiro. Assim, passei a desfrutar de duas datas seguidas para comemorar aniversário, jamais me empenhando seriamente em esclarecer qual seria a data correta. Se esquecer a data de aniversário é falta gravíssima numa amizade, esquecer duas daria a medida exata do pouco afeto que uns afirmavam me ter.  Em verdade nossas minguadas posses familiares não possibilitavam o hábito comum de comemorações festivas de cada aniversariante, até mesmo porque seriam catorze festas no ano, impensável. Meu padrinho barítono (ou tenor) nunca se lembrava, a não ser se estivesse carente de uma dosezinha de Gardenal. Já meu padrinho, técnico de futebol, jamais se olvidou. Sempre por volta de oito horas da noite do dia 31, comparecia com uma lata de goiabada ou marmelada, que era sofregamente degustada por todos os presentes.

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¹ Gênesis
² (Teoria do BIG BANG).
³ Gabriel Garcia Marques. “Crônica de uma morte Anunciada”
4João Guimarães Rosa. “Grande Sertão:Veredas”
5 Cristóvão Colombo perorando junto à Corte de Espanha.
6 Julio Cesar ao cruzar o rio Rubicão

Articulista José Carlos Sardinha 

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.