É jazz!

Em 15 de novembro de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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É jazz! – Alex foi o primeiro ambientalista que conheci. Sofria genuinamente ao ver árvores sendo derrubadas. A avenida onde morava tinha em seu canteiro central, mais ou menos a cada trinta metros, um pé de Ipê-roxo, que um dia– primavera de 1966 – amanheceram todos descascados, por ação humana. Corria a notícia de que da casca do tronco daquela bela árvore se fazia um chá que curava câncer. Revoltado, arregimentou-nos todos, seus coleguinhas de escola e rua, para constituirmo-nos em uma brigada, armados do que pudéssemos arrumar, para defender as árvores durante a noite. Quase ninguém topou. Solidarizei-me. Um pouco cabreiro, é verdade. O problema é que nossa valentia ia-se dissipando com o passar das horas e, mais ou menos ali pela meia noite o sono nos derrotava. Alguém mais inteligente tratou de disseminar um boato contrário, onde o tal chá era causador de lepra, impotência sexual, espinhela caída, barriga d´água e uma série de outros malefícios. Os Ipês se salvaram.

Odiava toda forma de injustiça, humilhação ou degradação, seja contra seres humanos ou animais. Volta e meia trazia para sua casa um cão, gato ou um mendigo, para cuidar. Não era um panfletário ou rebelde vociferador. Fazia o que achava correto, sem proselitismo ou demagogia. Como eu, era um aluno apenas mediano. Estudava as matérias do ginásio o suficiente para passar. Não praticava esportes. Gostava de automobilismo e era torcedor (vá lá saber por quê!) do Guarani de Campinas. No entanto, aos onze anos já tinha lido um pouco de Sócrates (via Platão, claro!) e Spinoza. Falou-me de Ética e dos imperativos pelos quais buscava regular sua vida. Foi o primeiro a falar-me, indignado, sobre a tenebrosa escuridão que começava a baixar sobre a democracia brasileira, naquele início de regime militar. Sobre a necessidade de resistir e as previsíveis consequências de não o fazer.

Um dia, adentrando seu quarto, encontrei-o ouvindo um disco que de pronto critiquei, perguntando-lhe que merda de música era aquela que estava ouvindo. Sem levantar a voz e sequer olhar-me, respondeu: “É jazz, imbecil! É jazz!”. Tratava-se de um recém lançado Long-Playing de Miles Davis (“Sketches of Spain”, se não me falha a memória.). Sem pressa fechou o livro que estava lendo na cama, olhou para o teto, cruzou os dedos de ambas as mãos sobre o peito, respirou fundo, levantou-se num salto, sentou na beirada da cama, olhou fundo nos meus olhos e disse mansamente: “Nunca, mas nunca mais, desrespeite ou ofenda aquilo que você não conhece!

Levou-me para a sala, abriu a porta de um armário e esparramou no chão algumas dezenas de discos. Disse-me que a música de Miles Davis, que tinha ouvido parte, era o produto natural de um século, aproximadamente, na evolução de um fenômeno artístico surgido entre os escravos negros, no sul dos Estados Unidos. Falou-me de gospel, soul e blues. De Louis Armstrong e New Orleans. De como aquela música, estranha a meus ouvidos, foi e continuava sendo, uma das ferramentas de libertação da negritude americana. E que eu precisava conhece-la e entende-la. E parar de falar bobagens. Recado dado, recado entendido. Foi uma das lições pontuais mais importantes de minha vida.

Ouvíamos também, em sua casa, o que vinha ocorrendo de mais recente na música internacional. Beatles, Rolling Stones, The Who, Jimmy Hendrix e Janis Joplin e Pinky Floyd. No plano nacional iniciava-se a era dos Festivais. Edú Lobo, Elis Regina, Geraldo Vandré, MPB 4, Chico Buarque e Tom Jobim, eram nossos ídolos. Em casa ouvíamos, além dos citados, muito “iê-iê-iê (Roberto Carlos, Erasmo Carlos, Wanderley Cardoso, Jerry Adriany, Vanusa e Wanderléia. Renato e seus Blue Caps cantavam ótimas versões dos Beatles), música italiana (Sergio Endrigo, Rita Pavone, Domenico Modugno, Nico Fidenco).

Por essa época (65-66) uma de minhas irmãs arranjou um namorado que era guitarrista do melhor conjunto jovem de Lorena. Este presenteou o Dão com um violão velho e ensinou-lhe os primeiros acordes e harmonias. Tentei pegar carona no aprendizado dele, mas jamais cheguei próximo da habilidade do Dão ao violão. De toda forma, à medida em que ele ia aprendendo, íamos nos unindo mais em cantorias. Das músicas caipiras, tão ao gosto de nosso pai, como as moderninhas que faziam sucesso com as “meninas”. Quer dizer, quem fazia sucesso era o Dão, e não eu.

Por outro lado, na casa do Alex, tive o primeiro contato com uma flauta doce, e cheguei a esganiçar um bom pedaço do clássico anônimo da canção folclórica inglesa, “Greensleeves to a Ground”.

 

Articulista José Carlos Sardinha

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.