DUBAI É AQUI

Em 17 de julho de 2019 às 10:07, por Gilson Gil.

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DUBAI É AQUI- O Amazonas sofre com sua insegurança crônica. A Zona Franca é o suposto alvo de uma conspiração brasileira, liderada pelo maligno Paulo Guedes, que deseja acabar com suas isenções. De repente, no auge de tais ataques, surge o Plano Dubai. O Amazonas viraria um novo Dubai, com investimentos diversificados, que, até o ano de 2073, mudariam o cenário da economia local, superando os limites do polo industrial.

A elite política reagiu, criticando esse novo plano, essa utopia árabe em plena floresta. Muitos falaram que o governo deveria investir mais na Zona Franca em vez de achar substitutos. A Zona Franca mostrou assim que possui defensores abnegados. Sem nem saber o que seria o projeto oriental, já haveria oposições e críticos encardidos.

Agora, surge a notícia de que não há Plano Dubai. Voltamos ao ponto inicial. Só nos resta a velha e atacada Zona Franca. Depois, vem a notícia de que o presidente viria presidir a reunião do CAS (Conselho da Suframa). Ele traria boas notícias. Posteriormente, a viagem é adiada e, para melhorar, o “inimigo” da Zona Franca – Paulo Guedes – irá presidir o Conselho, que foi renomeado. As especulações continuam: o PIM vai acabar? O que o presidente irá anunciar? E o ministro liberal? O que vai fazer contra o Amazonas?

A pauta permanece a mesma, sem uma revisão de paradigmas. Admito já estar enjoado desse tipo de Fla x Flu. Grande parte da opinião pública e da elite amazonense montaram um jogo Amazonas x Brasil que possui ares de secessão. Quando as ameaças de ruptura falham, surge o argumento chantagista: se a Zona Franca acabar, a floresta vai ser devastada. Isso também tem um ar meio estranho. Um estado da federação ameaçando o país?! Não me parece muito “republicano”, como diriam alguns.

Penso ser mais do que hora de vermos isso por outros ângulos. Em primeiro lugar, há itens da agenda local que podem ser desenvolvidos pela Suframa e que não necessitam de amplas costuras globais, tais como o futuro do distrito agropecuário, as mudanças no PPB, a diversificação dos polos do PIM e a adequação à indústria 4.0. Por outro lado, há temas mais complexos, que precisam de um entendimento maior, sendo que o maior deles é o pacto federativo. O Amazonas não é inimigo do Brasil e vice-versa. A ZFM tem de estar integrada ao Brasil. Ela não é um obstáculo. Tem de ser vista como um apoio ao desenvolvimento do país. E a floresta tem de ser vista como um patrimônio nacional, incluindo suas potencialidades na biodiversidade e para a mineração. Ela não pode ser um objeto de chantagem. É desvirtuar um debate mais amplo, que é o do uso racional e  sustentável dos recursos da Amazônia.

Enfim, com ou sem Dubai, o debate, tanto em nível nacional como estadual, precisa crescer e se complexificar. Há muitos pontos em aberto e precisando de orientações mais precisas e profundas. Por ora, vamos deixar o Oriente e cuidar de nosso quintal, diria o sábio Voltaire.

 

Articulista Gilson Gil

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.