Confissão de um relacionamento moderno

Em 30 de abril de 2017 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Há algum tempo nossa relação parecia abalada ou estremecida. Razões variadas nessas atitudes contemporâneas. Muitas coisas sem respostas e mudanças de hábitos. No meio de nossas conversas deu para me ignorar. Não se importava com o que eu tentasse ou insistisse, como o relacionamento tivesse somente uma via. Não era coisa pra sofrer, considerando as tendências e formatações atuais. Mas era muito chato ficar sem resposta no meio de uma conversa que parecia ir muito bem. Se distanciava completamente, numa atitude altista me ignorava.

Me acostumei com a situação e deixei pra lá. As coisas voltavam a funcionar como se nada tivesse acontecido. Mas eu sabia que havia algo de errado e temia perder grande parte do que tinha investido nesta relação. Insistia, mas não sabia exatamente o que fazer. Não queria pressionar, pois não gosto de ser pressionado. Além disso a nossa relação não é daquelas que se discute. Ficamos frios por um tempo. Eu com outros afazeres e contatos e ele guardado em seu mutismo temperamental. Viajei, mas quando retornei fui em busca, senti necessidade. Fez menção de falar e se abrir pra mim. Mas que nada. Calou mais uma vez. Não foram suficientes minhas tentativas e já não sabia mais o que fazer. Disposto a terminar com tudo, mas lembrava sempre de tantas coisas que dividimos, tantas memórias e declarações, tantas coisas que jamais foram reveladas a outros. Tive temores que se calasse para sempre.

Ontem à noite, parecia calado definitivamente. Nenhuma resposta, por mais que eu insistisse e até pensasse em violência, por mais que eu permanecesse à sua frente e até me debruçasse fraternalmente sobre sua silhueta. Depois de tudo isso fui dormir, pensando que um novo dia talvez revelasse um fato novo. Mas que nada, pela manhã voltei a insistir, mas nada consegui. Foi então que decidi buscar ajuda externa. Resoluto abracei-o quase como uma despedida e o enfiei em minha mochila azul. Fui em busca do amigo Max que mexeu daqui e dali, uma peça mais daquilo, um pouco mais disso e ele voltou a si depois de um tratamento de choque. Literalmente foi uma lobotomia. Eu não sabia, mas se faz com os PCs quando sofrem determinado problema. Enfim, voltamos pra casa e estamos de novo na boa.

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.