A beleza e os concursos de Misses

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A despeito de existirem registros históricos informando que em 1865, ainda no período do Brasil Império, uma francesa naturalizada brasileira teria sido a primeira Miss do país. Entretanto, foi Violeta (Bêbê) Lima Castro, em concurso realizado no ano de 1900, a primeira Miss Brasil. Ela nasceu em Paris em 1879 e foi registrada no consulado brasileiro. Era filha do Dr. João da Costa Lima e Castro, um professor da faculdade de medicina. Talentosa, Bêbê falava e escrevia fluentemente português, francês e espanhol, além de falar e ler o inglês e o italiano.

A partir daquele ano, ainda que de forma não consecutiva, outros concursos ocorreram e outras Misses foram eleitas. Zezé Leone, em 1922, é considerada a primeira eleita em um concurso organizado. Foi tão festejada, que a locomotiva de Ferro Central do Brasil recebeu o seu nome; da mesma forma uma receita culinária, um título de música, além de ter ganho seu busto esculpido em praça pública.

Fato pitoresco foi protagonizado pela carioca Olga Bergamini de Sá, eleita “Miss Brasil”. Sua viagem para os Estados Unidos, envolta a enorme expectativa, foi um acontecimento nacional. Mas ela causou enorme decepção, ao não participar do concurso internacional, por se recusar a desfilar de maiô.

Motivado por descontentamento de brasileiros com a não-classificação de Olga Bergamini, aqui se realizou, paralelamente, no dia 7 de setembro de 1930, um concurso de Miss Universo. Essa versão “tupiniquim” foi promovida pelo jornal A Noite, no Copacabana Palace.  A “Miss Universo” brasileira eleita foi a gaúcha Yolanda Pereira. No mês seguinte ocorreu o tradicional e mundialmente conhecido Desfile Internacional de Beleza, na cidade de Galveston, Texas.

Martha Rocha

Somente a partir de 1954 o Brasil passou a eleger, regularmente, através do concurso denominado Miss Brasil, a representante anual da beleza da mulher brasileira. O concurso nacional daquele ano foi promovido pelo “Diário Carioca” e pelas “Folhas” de São Paulo, tendo como patrocinador a Universal-International Films, que garantia à vencedora, um contrato para o cinema. O evento contou com apenas seis finalistas estaduais: Lígia Beatriz Carotenuto, representante do Rio Grande do Sul; Dorama Cury Nasser, de Goiás; Martha Rocha, candidata da Bahia; Baby Lomani, de São Paulo; Zaida Saldanha, do Estado do Rio; e Patrícia Lacerda, do Distrito Federal.

A Miss Distrito Federal, Patrícia Lacerda, era reconhecidamente uma moça inteligente, culta e educada, mas inconformada com o resultado, deu entrevistas a jornais dizendo que o julgamento havia sido “marmelada”. Atribuiu o adjetivo ao fato de que teria havido má vontade contra a sua pessoa, uma vez que era neta de Coelho Neto –  escritor, considerado o príncipe dos prosadores brasileiros – e o júri composto por modernistas, que o combatiam (apesar de ele pertencer ao movimento modernista). Fez críticas injustas e com veemência a vencedora: “não tem classe, não sabe vestir um vestido, não sabe falar, não sabe andar, não sabia nem onde fica Long Beach, tem pernas finas e tortas, tem muito ventre e é deselegante”.

O júri que elegeu a mais bela brasileira era composto por sete personalidades das letras e das artes, dentre eles o poeta Manuel Bandeira e o jornalista Fernando Sabino. A vencedora daquele que é considerado primeiro concurso oficial, foi a linda baiana Maria Martha Hacker Rocha, em evento realizado na boate do Palácio Quitandinha, na ocasião um hotel-cassino, localizado em Petrópolis, no Rio de Janeiro, em 26 de junho de 1954. Suas medidas eram 1,70 cm de altura; 58 quilos de peso; busto 94 cm; cintura 60 cm e 21 anos de idade. Era a caçula de onze filhos.

As candidatas desfilaram em maiô e em vestido de noite, houve ainda um contato entre as candidatas e os juízes, uma vez que, além da beleza do rosto, do cabelo, andar, do vestir, distinção de maneiras, graça pessoal, plástica e elegância, a distinção de maneira e a voz também influíam no julgamento.

Bem, apesar de todas as suas inegáveis qualidades, segundo João Martins, em matéria para a revista O Cruzeiro “…Quando falou ao microfone, para agradecer a escolha de que tinha sido alvo, ficou evidenciado que ela não era uma edição feminina de Rui Barbosa nem de Castro Alves, mas afinal o concurso não era de oratória…”.

Quando viajou aos Estados Unidos para concorrer ao Miss Universo em Long Beach, na Califórnia, ocorrido no dia 24 de julho de 1954, Martha Rocha não havia despertado a atenção dos brasileiros. Mas em lá chegando, espalhou graciosidade e beleza de tal forma, que encantou os americanos. Ficou conhecida como “a namorada das Américas” e até convite para se tornar estrela de Hollywood recebeu.

Registre-se que o sol californiano, inclemente durante o desfile para a imprensa na praia do Pacific Cost Club, levou à internação as Misses Bélgica, Alemanha e Zova Zelândia, a nossa baianinha sofreu, mas resistiu bravamente.

Martha Rocha ficou em 2º lugar numa disputa com mais de 32 representantes de outros países e 18 idiomas diferentes. Mirian Stevenson, da Carolina do Sul, eleita Miss Estados Unidos, venceu, mas não convenceu.

Reza a lenda que o jornalista João Martins, da revista O Cruzeiro, teria ouvido o comentário do chefe dos juízes que escolheram a Miss Universo, Vincent Trotta, tido como a maior autoridade americana em beleza feminina: “sobravam duas polegadas a mais nos quadris da brasileira”. Ele deu publicidade, a notícia teve tanta repercussão que ainda hoje é comentada. Em reportagem por ele subscrita e publicada na revista O Cruzeiro, disse: “Talvez se possa dizer que Martha Rocha perdeu o título de Miss Universo porque quis. As recomendações dietéticas que recebeu ela não cumpriu. Duas polegadas a mais, no balanço milimétrico a que foi submetida, prejudicaram a decisão do júri, que, não fora isso, teria sido, fatalmente, a seu favor, porque desde o primeiro momento, ela se colocou entre as 14 favoritas”.

Depois daquele concurso e até os dias atuais, apenas no ano de 1990 o concurso de Miss Brasil deixou de ser realizado.

Foram tantas as modificações ocorridas nos últimos decênios que até o nome de Miss Brasil Oficial agora é Miss Brasil Universo e o concurso que tanto glamour e popularidade já teve, inclusive com transmissões ao vivo pela TV e que paravam o país, hoje vive em completa decadência. A prova disso é que poucos brasileiros sabem que a atual Miss Brasil se chama Marthina Brandt, natural do Rio Grande do Sul.

Maria Amália Durand Ferreira

Para homenagear todas as Misses Amazonas, igualmente importantes, elegemos duas belas “filhas de Ajuricaba”. A primeira é Maria Amália Durand Ferreira, mais conhecida como Maria Amália Ferreira, amazonense de Manaus, filha de Benjamin Constant da Costa Ferreira e Aldeída Durand Ferreira, nascida em 15 de abril de 1922.

Maria Amália foi eleita Miss Amazonas 1948 pela vontade soberana do povo amazonense (a votação ocorria através de cupons publicados nas primeiras páginas dos jornais que promoviam o concurso). A festa de proclamação deu-se no ano seguinte, em 5 de janeiro de 1949, no Teatro Amazonas, e teve transmissão da Rádio Difusora do Amazonas. Na ocasião Maria Amália recebeu “a faixa simbólica da sua soberania, da sua primazia em meio às representantes da graça e da eugenia amazônica”. “A solenidade foi uma consagração deslumbrante que o povo e a sociedade amazonense prestaram àquela que fora, por esmagadora maioria, eleita “Miss Amazonas”, no monumental certame que no Brasil foi lançado pelo O GLOBO, da Capital Federal, e no nosso Estado, patrocinado pelos diários de Archer Pinto Ltda”.  (Diário da Tarde 6/1/1949)

Como parte da solenidade, a senhora Marly Biton declamou o “Soneto à MARIA AMÁLIA FERREIRA”, de autoria de Américo Antony, o qual transcrevo o último terceto: “Não sei…se é rosa ardente da Tessália, Se é lírio, neve ou beijo, ou anjo risonho, Mas sei que és a Rainha, ó Maria Amália!”. O cantor e compositor Almir Silva, através dos microfones da Rádio Difusora, cantou a valsa de sua autoria (letra e música), RAINHA DA BELEZA, cuja última estrofe também transcrevo: “Tuas mãos mimosas Pétalas de rosa Sempre a desfolhar Vem com ansiedade A felicidade Contigo brincar E nessa fantasia Cresce dia a dia A tua grandeza OH! RAINHA DEA BELEZA”. Maria Amália fez um belo discurso de agradecimento ao povo amazonense e à classe estudantil que a elegeram Miss Amazonas.

A eleição do concurso Miss Brasil 1948 foi realizado em 12 de junho de 1949, no Hotel Quitandinha, nossa representante foi a quarta colocada. Depois do concurso Maria Amália fixou residência no Rio de Janeiro e lá casou com o carioca Álvaro Freitas Coelho da Rosa, fiscal sindical do Ministério do Trabalho. O casal teve três filhos: Cynthia, Sylvio e Solange. Nossa Miss foi funcionária do Tribunal Regional Eleitoral e foi para a outra dimensão em 1º de março de 2006, com 83 anos, vítima de câncer nos intestinos. Está sepultada no cemitério de São João Batista, no Rio de Janeiro.

Terezinha Morango

Filha de Manoel Ferreira Morango, um português nascido no Porto e de Emir Gonçalves, uma amazonense típica do interior, Terezinha Gonçalves Morango nasceu na Fazenda Canavial, São Paulo de Olivença-AM, em 26/10/1936. Morava na Rua Alexandre Amorim nº 354, no bairro de Aparecida.

Por sua inquestionável beleza, Terezinha foi Rainha dos Estudantes de Manaus (1953), Rainha das Calouras e Miss Cinelândia (1956).

Em 12 de maio de 1957, durante o “Chá da Mães” para a escolha da lista das “Dez mães do ano”, no Atlético Rio Negro Clube, o senhor Aristofano Antony, em nome da diretoria do clube, indicou Terezinha Morango como Miss Rio Negro 1957. Em 1º de junho nos salões do referido clube, Terezinha é aclamada – não houve concurso – Miss Amazonas.

O concurso de Miss Brasil era promovido pela municipalidade de Long Beach, Califórnia, lançado em todo o território nacional pelos Diários de Emissoras Associados e aqui patrocinado pelo “Leite de Rosas”, na época mundialmente conhecido.

Terezinha disputou o Miss Brasil com vinte candidatas, com idades que variavam de 18 a 23 anos. Suas medidas eram: altura 1,675 cm; peso 59 kg; cintura 63cm; busto 80 cm; quadris 93 cm; coxa 53 cm. A segunda colocada do certame foi Maria Doroteia Antunes Neto, Miss Minas Gerais. Sandra Hervé, representante do high society, foi considerada a candidata com o mais belo corpo.

O concurso foi realizado no Hotel Quitandinha. Um detalhe curioso: playboys motorizados trajando roupas coloriras subiram a serra e invadiram o Hotel Quitandinha para assediar as candidatas, mas não obtiveram sucesso. Por motivo de força maior deixaram de compor o júri o pintor Candido Portinari, a poetisa Cecília Meireles e Vicente de Paula Gaillez.

O jornal A Tarde de, de Aristophano Antony, datado de 5 de junho de 1957, assim noticiou: “O Amazonas, com o coração nos ouvidos, acompanhou o desenrolar do julgamento para a escolha da mais bela brasileira, justamente a que deveria representar o Brasil no certame internacional de beleza a realizar-se, brevemente em Long Beach…”. “…Os amazonenses quase estouram de alegria, fizeram um carnaval percorrendo as ruas, comemorando a espetacular vitória. O Atlético Rio Negro Clube abriu os seus salões ao povo e a champanha correu como se brotasse de uma fonte…”.

Terezinha embarcou para os Estados Unidos no dia 5 de julho para disputar o concurso de Miss Universo, evento realizado no dia 19 daquele mês. Naquele ano participou do júri o brasileiro Oscar Santamaria. Eram 44 candidatas americanas (uma seria eleita Miss Estados Unidos) e 32 do resto do mundo. E foi justamente na escolha do Miss Estados que deu o maior quiproquó: Leona Gage, Miss Maryland, 18 anos, foi eleita Miss Estados Unidos, mas um telefonema anônimo denunciou que esta era casada e tinha dois filhos. Fato confirmado depois de uma chamada interurbana para Dallas. Leona realmente era casada e já estava em seu segundo matrimônio. Foi substituída por Charlotte Sheffield, Miss Utah. Valéria

Terezinha ficou em segundo lugar, perdeu para a peruana Gladys Zender. Houve polemica em torno da idade da peruana, mas seu pai assinou um documento assegurando que a filha já completara 18 anos. A certidão provando sua idade chegou 24 horas depois.

Terezinha Gonçalves Morango foi a primeira Miss Amazonas a arrebatar o título de Miss Brasil.

O Instituto Durango Duarte-IDD produzirá, periodicamente, textos contendo curiosidades, particularidades e peculiaridades relacionadas ao cotidiano da nossa sociedade. Escolhemos como primeiro tema a beleza e os concursos de Misses. A temática deixa evidenciada que os concursos de beleza sempre se notabilizaram pelas polêmicas e pelos interesses econômicos, deixando a beleza em plano secundário.

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