COMPLICAÇÕES EM SÉRIE

Em 31 de janeiro de 2020 às 10:57, por Gilson Gil.

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Fechamos o ano de 2019, fazendo um pequeno balanço das trapalhadas do governo estadual na saúde, incluindo a boataria sobre pagamentos e as constantes dúvidas sobre fornecedores e contratos. Afirmei que entraria o ano de 2020 falando sobre os dilemas municipais, afinal, é um ano eleitoral para os municípios e nada mais justo do que apontar quais seriam os principais temas desse pleito.

Porém, a realidade se impõe com força, fazendo com que certos planos tenham de ser revistos. Falo do aumento de até 400% que o governador deu ao segundo e terceiro escalões, usando da lei delegada de 2019, que criou a reforma administrativa.

Há ações políticas que possuem um efeito simbólico maior do que as consequências práticas e financeiras. Nem vou entrar na discussão se a reforma trouxe, ou não, resultados positivos financeiros. A economia, assumida pelos gestores, foi de cerca de 5 milhões anuais. O custo estimado pelos aumentos teria sido de cerca de 1.8 milhão mensal. Enfim, é uma conta que não bate. Porém, creio ter havido um estrago simbólico que supera qualquer contabilidade confusa. Em um momento no qual os salários dos servidores estão congelados e diversas categorias estão com suas promoções barradas e o pessoal da saúde reclama de falta de pagamento, sem falar na questionável contratação direta dos terceirizados, efetuar tal reajuste soou como um tapa na sociedade. Os argumentos sobre a disparidade salarial nos escalões governamentais é interessante. Os secretários executivos e adjuntos possuem muitas responsabilidades e respondem como ordenadores ao TCE e aos outros órgãos de controle. Certamente, que algo deveria ser feito para sanar tal distorção, aliás, criada por outro governante, em outro mandato.

Todavia, a forma grosseira como foi feita, com índices variados,  em um momento de contenção, quando o governo diz que tudo pode afetar a responsabilidade fiscal,  foi o pior possível. Em um cenário no qual a oposição já tem um pedido pronto de impedimento, o governo se fragilizou demais. Tal fragilidade ficou exposta quando a própria Assembleia emitiu nota dizendo não ter sido essa a finalidade para a qual a lei delegada foi feita. O governador ficou exposto, a revolta popular foi imensa, o aumento intempestivo foi exibido em rede nacional e as instituições o abandonaram.

O abalo foi feito. A fratura está exposta. Os ataques da oposição continuarão. O fato de o governo ter revisto o aumento e o anulado demonstrou fraqueza e inconstância. Parece que não tinha sustentação para manter a atitude. A base aliada o pressionou a rever o ato, temerosa das consequências eleitorais e da pressão da opinião pública. Enfim, um desastre total.

O que virá é difícil saber. Contudo, é certo que foi um disparo no pé fulminante. Pegou pé, perna, coxa e quadril. Como o governo vai agir daqui para frente? Como realinhar a base? Como o povo reagirá? E os órgãos de controle? E a mídia nacional? E o impedimento? Como enfrentar um longo ano político e administrativo após tamanha pancada? A única certeza é que será um ano duro, muito duro, para o governador…

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sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.