Com sangue nos olhos

Em 27 de setembro de 2018 às 09:47, por Gilson Gil.

compartilhe

Cada eleição possui sua história. Há eleições nas quais há uma demanda por ideias, inovação e projetos. Já houve pleitos em que o eleitor queria ouvir a palavra planejamento, mesmo que não soubesse bem o que isso significasse. Repetidamente, a mídia fala, hoje em dia, em programas e projetos. Até faz parte das obrigações eleitorais o candidato protocolar um programa de governo, por mais genérico que seja.

Contudo, parece que há momentos na história de um país em que essa ânsia por projetos e ideias desaparece. O que vemos atualmente, no confronto entre Bolsonaro e Haddad, é uma outra coisa. Quem conhece as ideias econômicas de Bolsonaro, se é que existem? Quem se atreve a dizer o que Haddad fará de diferente em seu governo, em relação ao de Dilma, que causou a maior recessão de nossa história? Os dois absolutamente se recusam a explicar seus projetos de governo e a detalhar quais serão suas ações, especialmente na economia, geração de empregos e de renda. O debate fica centrado em questões (importantes, sim, ressalto) como homofobia, corrupção, violência e feminismo. Entre outras coisas, estamos gastando um tempo enorme para saber se o comunismo é bom ou não para o Brasil, mesmo depois do muro de Berlim ter caído há décadas. Na mesma linha, mesmo com quase trinta milhões de desempregados e desalentados, estamos trocando ideias sobre um suposto kit gay. Ou seja, essa eleição não é, decididamente, o pleito das ideias, do emprego, do desenvolvimento econômico e dos rumos que queremos para o país. As micro questões dominaram o ambiente e quem não se preocupa com elas acaba sendo execrado nas redes sociais.

Nesse ambiente de disputa acirrada, os ânimos estão exaltados demais e o debate gira em torno do petismo x antipetismo. No meio disso tudo, a religiosidade entrou em cena. Ser de esquerda virou quase um sinônimo de ser ateu ou defender a ideologia de gênero e os grupo LGBT, pelo que se vê nas redes sociais. Por outro lado, ser bolsonarista, está sendo equiparado a defender a religião, Deus, a pena de morte e ser contra a ideologia de gênero e as demandas LGBT. Enfim, misturou tudo. Religião, sexualidade, violência e política fundiram-se numa coisa só. Tornou-se irrelevante buscarem-se opiniões sensatas sobre economia, saúde, meio ambiente ou educação. O importante é brigar, xingar, gritar o nome de Deus, ou negá-lo, exprimir sua orientação sexual e se orgulhar disso na internet.

Nesse clima geral de violência, questões íntimas viraram públicas e decisivas. Imagino o que será o primeiro semestre do próximo presidente. Quem assumir terá uma oposição virulenta, brutal e fanática a lhe perseguir diariamente. Os pedidos de impedimento choverão. As obstruções serão comuns. Isso, caso consiga assumir, quem quer que seja, depois de vencer. Serão dois momentos diferentes: vencer e tomar posse.

Enfim, é com sangue nos olhos que o povo vê esta eleição. E é com esse mesmo clima que se aguarda o próximo governo. Em especial, o primeiro semestre de 2019. O que resultará disso? Não sei. Porém, tenho certeza de que esta república pode estar vendo seus minutos finais, não importa quem vença na urna, afinal, a democracia já foi partida e reduzida a pó no processo.

Comentários

sobre o autor

Articulista-Gilson-GilCarioca, nascido em Madureira e criado no Catete. Sociólogo e professor da UFAM, já trabalhou em várias instituições de ensino no Amazonas e em outros Estados. É torcedor do Flamengo, está em Manaus desde 1992 e possui uma filha meio carioca, meio manauara. Torce pela cidade e pelas pessoas que aqui vivem.