Cidade da memória

Em 26 de abril de 2016 às 08:00, por Otoni Mesquita.

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Ao buscar recuperar a cidade através das imagens guardadas na memória, podemos ser censurados e acusados de infantil assumindo atitude das crianças mimadas e descuidadas que choram e esperneiam querendo de volta o brinquedo perdido. Ainda que para os pragmáticos possa parecer piegas, acredito ser algo mais forte como buscar a sensação de alguém que pensou ter tudo perdido, mas recupera a calma ao reencontrar a própria alma guardada com as imagens da cidade.

Certamente haverá entre nós, muitos saudosistas como eu, lamentando, o tal “progresso” e lembrando-se de como era graciosa e pacata a outra Manaus. Naquela época, ir ao “Roadway” era um passeio raro, quando descia o rio, a passarela inclinava-se em ladeira. Vejo vagos flashes dos passeios sob os flamboyants alaranjados no sobe e desce dos domingos a tarde no “boulevard”. O centro da cidade era muito tranqüilo, taxis eram raros, os trilhos prateados brotavam entre os paralelepípedos, ruas bucólicas, sobravam sobrados com grandes bandeiras, cadeiras que balançavam longas conversas nas calçadas, nas janelas floriam “Onze horas” e “Santas Terezinhas” sem grades ou sentinelas. As mangueiras e mariranas arborizavam toda a João Coelho. Enquanto que nas ruas do centro, os oitizeiros e os benjaminzeiros, eram podados em forma circular. Sem esquecer que em determinada época, se evitava a passagem sob esta arborização por conta da lacerdinha. Iinseto muito pequeno e bem pretinho que quando caia no olho dos transeuntes, fazia chorar mocinhas e marmanjos.

 Nos bairros, eram fartas as fruteiras. Pupunha, abiu, biribá, pitomba, abacate maracujá e muitas outras que complementavam de forma saudável a dieta local. O Mercadão era praticamente o único lugar para aquisição dos comestíveis naturais. Além dele, com sua praia amplamente ocupada, havia alguns mercadinhos, em poucos bairros e várias pequenas feiras. Dentre elas marco a do Seringal Mirim, que funcionava de segunda a domingo, muito antes da abertura da Djalma Batista. A feira da Aparecida, já tradicional, sempre na terça feira, dia das novenas. Do Curre, no São Raimundo vinha a carne verde para a população. Naquele tempo, o supermercado de importados da Boothline, ainda não havia funcionava, nem a Casa dos Óleos havia sido instalada.

Quando todos tinham que fazer suas compras no Mercadão, (ai que cesta chata!!). Mas francamente, não me lembro dessa moda de pirarucu à casaca, mas quase sinto o gosto do sarapatel de tartaruga, da farofa no casco e de suas cabeças ainda vivas jogadas no quintal. Nos aniversários serviam sempre vatapá com arroz, maionese feita em casa e salgadinhos com guaraná. E não era educado limpar o prato. Naquele tempo, típico era traje de miss e o restaurante “Chapéu de Palha”, projeto do premiado arquiteto Severiano Porto. Cheiros de chicória, peixe assado de brasa, no quintal ou aroma do café sendo torrado pelo “Moinho D’ouro” ou do pão quente da “Pátria” ou “Mimi” eram mais forte que o aroma do “Kikão”da praça de São Sebastião, ou do Piraruburgue com mate com limão, que passaram a servir no “Ziza’s” nos anos setenta. Quando o “Chang” tinha um bom pastel e um caldo de cana, assim como a “Campos” da Eduardo Ribeiro, entre o Jornal e o Cidade de Manaus.

No céu de toda a cidade flechavam e trançavam papagaios de todas as cores, linhas amoladas, meninos correndo com varas e as perseguições da “manduquinha”. Na Eduardo Ribeiro, montavam-se os presépios do Branco e Silva; os desfiles de setembro e os carnavais com suas batalhas de confetes e serpentinas, com as candidatas a rainha, dando beijinhos do alto dos caminhões. Na Praça da Saudade além do “araticum” sem recheio e do Tenreiro Aranha no alto da coluna, instalaram uma fonte “moderninha”, toda revestida com pastilhas coloridas, bem ao centro de uma grande piscina entre duas esculturas alegórica, passado e futuro enfrentavam sobre as águas e logo viraram piada.

Quem lembrar da época em que o IAPETEC era o edifício mais alto da cidade, motivando piada de paraense? Quando o Palácio Rodoviário deixou de ser o prédio mais moderno da cidade? O “Hotel Amazonas” ainda seria chic, quando os aviões deixaram de chegar no aeroporto da Ponta Pelada? Ou seria Ajuricaba? Como foi que a Ponta Negra, deixou de ser uma lonjura sem fim? As notícias mais quentes vinham pelas ondas do rádio, mas em geral esfriavam na composição das linotipos de “o Jornal”, do ”O Jornal do Comércio”, da “A Crítica”, do Diário da Tarde enquanto que “A Notícia”, somente depois de 1969. Mas ao final, tudo ia ser discutido, deformado e digerido mesmo, era no Canto do Fuxico, sobretudo, no sábado pela manhã, quando a concentração e a animação do centro era maior. Discutiam da política a escalação do clássico Rio-Nal. Além das fofocas puras e das mais perversas. As moças ocupavam um grande espaço. Quanto mais cobiçadas, a menina, mais afiada a mira das línguas afiadas e o mais grave era quando se espalhava o boato que uma jovem “não era mais moça”. Em geral, estava perdida, a coitada. A pílula e a liberdade sexual estavam sendo disseminadas nos grandes centros.

 

Articulista Otoni Mesquita

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sobre o autor

Amazonense, artista visual e historiador da cidade. Gosta de literatura, música, cinema e fotografia. Não dirige, mora no centro da cidade. Nada no Nacional e anda pela cidade olhando e fotografando pequenas coisas.