China

Em 21 de junho de 2016 às 08:00, por José Carlos Sardinha.

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China, assim todos a chamávamos. Nunca soube o porquê, o que por sua vez é uma nota contínua ao longo de minha vida. Hoje me dou conta que assimilei um mundo de coisas sem perguntar por quê. (Droga! Esse raio de acento existe aí? Só no primeiro porquê? Mais uma que não perguntei!). Teria a ver com o país China? Ou seria China no sentido que os gaúchos e castelhanos dão para mulher jovem e fogosa? Nunca vi relação nem lá nem cá. Seu nome na pia batismal é Yrani da Silva Sardinha.

O meu nome Sardinha é antecedido de Gomes, o que vale para todos os demais irmãos homens, diferenciando-se apenas o Joel (morreu há cerca de dois anos) que era Silva Sardinha como todas as quatro mulheres e o Edmilson, que é Ramos da Silva Sardinha. Neste caso parece que o Ramos (do lado de minha mãe: Benedita Ramos da Silva Sardinha) foi acrescentado para diferenciar do um irmão anterior que teria morrido com apenas alguns meses de idade. Também, e frequentemente a chamávamos, maldosamente, de Boca Torta. Razões óbvias. O que hoje sei ter sido um episódio raro de paralisia permanente e progressiva do ramo direito do nervo facial, produziu a deformação do lado direito de seus lábios e provocou a queda da pálpebra inferior correspondente.

Tinha pouco mais de um ano de idade acima de mim. Nasceu acho que em outubro ou novembro de 1954. Décima na escadinha dos filhos sobreviventes de Benedita e Julio  Sardinha. Creio que desde sempre fomos próximos e a mais antiga recordação que tenho dela, relatei anteriormente, quando fomos surpreendidos juntos com uma amiguinha comum, no interior de uma casa desocupada. Brincamos juntos de bola, de roda, de pega, de esconde-esconde, bandido e ladrão. Ela lia e me fazia recomendações, que eu seguia e gerava conversas só nossas. Quando comecei a frequentar o cinema de Piquete ou a ir aos circos que esporadicamente por lá estacionavam, estávamos juntos. Me apoiava nas tentativas toscas de imitar os acrobatas ou me fantasiar de Zorro. Ela não participava, só me aplaudia, eu acho.

Na adolescência, enquanto eu jogava futebol, ping-pong e empinava papagaios, ela jogava vôlei. Anos 1967, 68 e 69, talvez. Seu primeiro, e único namorado, até onde sei, foi seu futuro marido e pai de seus filhos: José Midões, vulgo Zé Gaiola. Sei que o namoro começou em 67 por causa de dois discos que ele deu de presente para ela, na primeira vez que veio em nossa casa, os recém lançados: Johnny Rivers, cantando” Do you wanna a dance?“,” Speedy Gonzalez“,”By the time i get to Phoenix“e outras; e Ray Connif e seus cantores, interpretando “Don’t sleep on subway, darling!” ,”Up,up and away” e como música título o tema de “A primeira noite de um homem”  ( primeiro grande sucesso de Dustin Hoffman ), “The sound of silence“.

Meu irmão Dão já começava a dar seus primeiros arpejos no velho violão que tinha ganho e, rapidamente, já entoávamos essa canção de cor.

                “Hello darkness, my old friend,

                 I want to talk with you again.

                Because a vision softly creepping…”

Nunca a vi jogar, mas sei que era muito boa. Minha outra irmã também era do time de vôlei da cidade, mas só a China era titular absoluta. Era o que na época se chamava de a “cortadora“. Era a atacante que a levantadora ou as demais jogadoras buscavam no ataque para definir o ponto, nunca vi. Ouvia de minha irmã e de colegas que tinham o privilégio de serem sócios do Clube Comercial. Não me era permitido frequentá-lo, coisa da elite local, a que ela tinha acesso por suas qualidades de atleta sem noblesse oblige. Por essa época uma transformação outra começou a se dar também. Tornou-se, pelo menos aos meus olhos, mais bonita. Mas estou certo que não foram só aos meus olhos, tinha de fato se tornado uma quase mulher, muito atraente. Se o rosto não ajudava, as minissaias que Mary Quant tinha acabado de inventar, revolucionando a moda feminina no mundo, caíram nela como uma luva, ou como uma espada, uma metralhadora. Sei lá! Nunca dentro de casa, é claro. Nosso pai a esquartejaria. Mas do portão da rua para frente, voilá, curve-se malta! Cinco ou seis dobraduras no cós e a barra da saia subia, libertando os joelhos e as musculosas coxas de atleta. Passos firmes, olhar forte muito para adiante da curva da estrada ou da próxima esquina. No começo achei ruim, misto de vergonha ou ciúme de meus colegas de rua, que a olhavam de um jeito pecaminosamente faminto. Ficava absolutamente encantadora, charmosa, quando, nos sábados à noite, principalmente nas do frio inverno de julho lorenense, de botas meio cano, agasalho de lã quadriculado, predominando vermelho e preto, do mesmo tamanho da minissaia, um cachecol no pescoço e uma boina “guevariana” segurando uma parte dos cabelos negros, lisos e sedosos, que escorriam pelas costas, desfilava no footing da praça Arnoldo Azevedo. Suponho que tenha sido esta visão que atraiu o Zé Gaiola.

Não gostava, nem desgostava dele, apenas achava que se era bom para ela era bom para mim também. Bebia muito, mas quem não bebia muito aos 19 ou 20 anos, na Lorena de 1968/69 ? Tinha uma família agradável, seu pai eventualmente vinha à nossa casa e conversava amistosamente com meu pai. Acho que todos, de um jeito ou outro, o aceitamos entre nós. Tinha um bom emprego, na concessionária da Volkswagen, em Guaratinguetá, cidade vizinha. Coisa rara naquela época. Se amavam? Sei lá! Acho que sim, tenho certeza que ela era feliz, a despeito de nossas limitações materiais e escassa margem de ação que nosso pai nos dava. Era estudiosíssima. Sempre a primeira da classe. E dizia com firmeza que seria médica. Ninguém duvidava que seria mesmo, era sempre um ano à minha frente na escola. Ela brilhante, eu mediano, toupeira.

1971 foi nosso último ano compartilhado na escola. Ela concluía o então chamado Colegial como a melhor aluna nos três anos, com direito a homenagens, medalha e discurso na festa de formatura. Eu, no segundo colegial, tinha tido a melhor performance do colégio nos jogos estudantis do Vale do Paraíba. Ganhei a prova de 100mts rasos, única medalha de ouro do colégio nestes jogos (aqueles da humilhação que o João do Pulo me fez passar). Ao término do ano fui homenageado também. Havia uma prova de revezamento entre alunos de todas as escolas de Lorena, como encerramento do ano esportivo colegial da cidade. Percorria todas as principais ruas da cidade e terminava em nosso Colégio. Cada aluno corria cerca de quinhentos metros e passava um bastão para o seguinte. O melhor atleta de cada colégio encerrava a prova. Coube-me a honraria. E… Trinca de ases! Os colegas que me antecederam abriram larga frente de vantagem sobre os demais, entregando-me o bastão para a arremetida final sem que o corredor mais próximo estivesse à vista. Mamão com açúcar. Era só desfilar para a glória. Enquanto esperava, já podia enxergar a pequena multidão que aguardava o final da prova, num palanque na entrada do Colégio. Fantasiei que entregaria o bastão para o Prefeito ou o Secretário de Educação Municipal. O diretor do Colégio, vá lá! Nada disso. O melhor atleta entregaria o bastão para a melhor aluna do último ano, Yrani da Silva Sardinha!

No início de 1972 a China ficou grávida do Zé Gaiola, casaram-se e ela largou a escola, o vôlei, o sonho da Medicina e tornou-se a melhor esposa que o Zé Gaiola, agora já um alcoólatra em grau avançado, poderia sonhar. E a mãe mais afetuosa e protetora que qualquer filho podia querer. Terminei o colegial no ano seguinte e caí na estrada. Aquele monte de bobagens já relatados, o ingresso em 1976 no curso de medicina que nunca tinha almejado.

Voltei a Lorena em janeiro de 77, prestes a iniciar o segundo ano do curso, no ônibus da Viação Cometa, desde a Via Dutra nos seus 186 km de São Paulo até a entrada da cidade e depois na Av. Peixoto de Castro com seus maravilhosos ipês roxos (valeu, Alex!), até a parada na esquina de nossa Rua Dona Lulú Meyer, estava feliz como pinto em bosta. Era a volta do filho pródigo; do conquistador romano da Gália; o que tinha tudo para dar errado tinha dado certo. Antes um olhar para a velha rua. Estariam por ali os vizinhos? Meus antigos colegas? Estariam vendo meu retorno triunfal? “…knock, knock on the home’s door…!“. Quem vejo primeiro? A China. Claudio e Karina, seus filhos. Toquem-se as trombetas, venham todos ver quem voltou!

O que você tem lido? Trouxe livros para mim? Discos? Conhece o último da Elis Regina? Belchior? Disseram que você agora é comunista, é verdade? Me explica isso? O que tá acontecendo no Brasil? Como é Manaus? Viu o Joel em Rondônia? Como está o Pedro? A Lindalva? O Marcelinho? A Ana Paula é bonita? E a Amazônia. Os rios? As florestas? Já viu índio? Conhece Mercedes Sosa? Quillapayun? Sabe cantar? Ensina? Ainda tá naquela de Revista Planeta e “Eram os deuses astronautas“? Claro que não. Tem algum livro de Medicina na mala? Deixa olhar? Tinha, não que pretendesse estudar nas férias, mas por puro exibicionismo besta. Uma antiga edição usada do Bogliollo, de Patologia, disciplina que ainda iria cursar, presente de minha nova amiga Adele Schwartz, aluna do terceiro ano. Tomou-o de minhas mãos como um refugiado da Somália pegaria um prato de feijoada e começou a folheá-lo com sofreguidão. Caiu minha miserável ficha! Não passava de um usurpador! Era ela que deveria estar lá, nos bancos da faculdade, não eu.

Voltei para Manaus, concluí como pude o curso e me meti num monte de coisas. Umas boas, outras más. Casei, descasei, tive um filho homem e o perdi; duas filhas e tento não as perder. Aprendi e ensinei, tento não esquecer o pouco que aprendi. Fui líder estudantil, organizador de partido político, líder sindical e penso ter adquirido algum respeito de meus pares.

Zé Gaiola morreu rapidamente de cirrose, deixando-a com quatro filhos para cuidar. E ela o fez. Ingressou e levou consigo os filhos para a Igreja das Testemunhas de Jeová. Nas poucas vezes que nos encontramos nunca tocou no assunto, mesmo sabendo que era agnóstico. Ela que diuturnamente, ainda hoje junto com os filhos, bate em portas, disciplinadamente como indicam seus pares de Igreja, em casas alheias para pregar o que acha ser sua verdade. No entanto, sempre dava um jeitinho de perguntar de mim, alguma coisa de música, pintura ou literatura. Uma vez me fez garantir-lhe que se algum de seus filhos, algum dia, conseguisse entrar em uma faculdade eu lhe garantiria os estudos. Assegurei-lhe que faria isso com máximo prazer, custasse o que custasse. Queria ser a ponte entre ela e outro mundo que ela optou por esquecer, mas nada disso jamais aconteceu.

Vimo-nos no começo de 2011, tinha dado início à minha tentativa terapêutica de escrever sobre minha infância e adolescência. Queria rever as cores, os cheiros, os sons do passado. Mandei avisar a todos que eu estava chegando. Com antecedência mandei meus rascunhos por e-mail para minha irmã mais velha, expert em língua portuguesa, que o disseminou entre os demais irmãos e parentes. No fundo buscava um confronto, sei lá o que, contra o que. Acho que meu texto não impressionou muito e deixei-o de lado nos meses seguintes, até hoje.

Mas naquela semana vasculhei Piquete, Lorena e adjacências, em busca do meu passado. Encontrei alívio para boa parte de minhas dores. De uma não me livrei: só vi a China na manhã do dia em que, ao meio dia, deveria rumar para o aeroporto de Guarulhos. Tinha me procurado, mas nos desencontramos. Fui em sua casa, seu rosto mais deformado que nunca, pouco peso, muitas rugas e um neto novo. Estava sozinha em casa com ele, tudo simples, humilde e arrumado. Perguntou pouco, tocamo-nos, serviu-me café preto e pão com manteiga. Fiquei pouco, quase fugi, vi-a pelo retrovisor do carro. Ela parada no portão me olhando, com a mão direita sobre a mama esquerda e a direita tapando a boca. Chorava, acho.

 

Articulista José Carlos Sardinha

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sobre o autor

Articulista-José-SardinhaNascido caipira-pirapora, virou amazonense em meados dos anos 70. Por acaso militou no movimento estudantil, ajudou a criar um partido e virou médico. Não sabe rezar, mas adora música. Não sabe ganhar dinheiro, mas tem todos os vícios enunciáveis de público sem corar. É ex-atleta, sem convicção nenhuma e desconfiado.